Sinonímia

Querem agora que estabeleçamos perfis de aprendizagem para os alunos. Para mim, que sou muito básico nestas análises, a expressão “perfis de aprendizagem” corresponde, mais coisa, menos coisa, mais ou menos desdobramento dos descritores, por muito que alguns possam desmentir-me, ao que no mandato anterior (Crato) se chamava “metas curriculares” e que no mandato anterior ao anterior (Alçada) se chegou a apresentar com pompa como “metas de aprendizagem”. Quem veio a seguir, limitou-se a adaptar metade dessa designação inicial. Parece que na Direita se preferem metas (e conhecimentos) e na Esquerda se exaltam os perfis (e as competências).

Claro que poderemos encontrar diferenças mas, no fundo, tudo quer dizer “aquilo que um aluno deverá saber [fazer] de uma dada disciplina num determinado ano de escolaridade”. O que eu acho estranho é que existe quem desdenhasse das “metas curriculares” mas agora adores os “perfis de aprendizagem”. E vice-versa. E eu acho isto uma enorme hipocrisia porque a coisa em si é a mesma ou varia muito pouco e não justifica que se andem a reformular documentos e papeladas porque antes aquilo não prestava e agora presta (ou vice-versa, se e quando aplicável), só porque quem lhe deu o nome e mandou tem uma cor diferente.

Eu demonstro com exemplo adequadamente escatológico. Um belo cocó de vaca pode ser designado de diversas formas, desde detrito intestinal de gado vacum a excremento bovino, não esquecendo designações mais populares que fazem a delícia das crianças quando as descobrem (e que a mim, num dos casos, já deu origem a um processo judicial por ter feito uma analogia com o trabalho de um certo escriba). Mas continua a ser a mesma coisa. E não é por ser um trabalhador braçal pouco letrado ou um grande proprietário com ares cultos a dar-lhe o nome (não esquecendo a possibilidade de ser um erudito engenheiro agrónomo ou um zoólogo  a fazê-lo) que transforma o dito cocó num filet mignon, correcto?

Sim… nota-se que ando a desvincular um bocado, mas não se assustem ou amofinem. É apenas porque me chateia que o cheiro da coisa deixe de ser um terrível fedor para se tornar um perfil aromático.

Turd

9 thoughts on “Sinonímia

  1. E somos nós que escolhemos? Isso não me parece bem. Devia haver um padrão a nível nacional…
    é claro que eu já conheço bem as minhas metas e sei quais são as gorduras que posso cortar, encolher, reformular e reorganizar. mas… e os exames? Não esquecer que terei prova de aferição em 17, no 8ºano.

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    1. Dê aulas, professora – professor, dê aulas!

      (Apesar de não ser isso que eles querem… reformularei, então: contratualize com os alunos, contratualize, “plataforme”, “parcerie”, … Hum, também não é só isto… na verdade acrescente, a predominância da sua acção: relate, preenche, reúna, articule, avalie, relate, preencha, reformule, reúna, preencha, adeqúe, articule, avalie, relate, preencha, equacione, reúna, relate, preencha,… )

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  2. A visão buro-tecnocrática do ensino (comum à direita e à esquerda, com variações de pormenor ideológico, essa coisa do paradigma…) não pode produzir senão coisas dessas…

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  3. Devo estar a ficar velho.
    Mas tudo isto me provoca um vómito tão grande. Um asco indizível.
    Linguagem merdagógica à parte, visto que me estou a cagar para as modas de quem passa pelo Ministério e tenta fazer pior do que antes se fazia, a coisa para mim é simples: há um Programa da disciplina. Melhor ou pior, existe um Programa. E o aluno tem de o conhecer e saber aplicar. O grau desse conhecimento é variável e eu meço-o, o melhor que posso e sei, numa escala de 0 a 20. Tudo o resto é bosta e eu deixo-a ficar onde ela merece estar: na boca dos políticos e pedagogos inúteis. Se eles percebessem alguma coisa de educação eram Professores e não políticos/pedagogos. Mainada!!

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  4. Aqui não concordo nada. Do que foi explicado o que querem é uma folhinha A4 em que os alunos possam perceber exatamente o que têm de fazer ao longo do ano para ter as notas que querem ter.
    Acho bem em nome da transparência.

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    1. Eu acho que uma folha A4 chega e sobra porque existe um programa e mais uma série de documentos que explicam o que os alunos devem saber. O “perceber exactamente o que têm de fazer ao longo do ano” é uma falácia porque existe um estatuto do aluno com os seus direitos e deveres gerais e específicos enquanto alunos.

      A “transparência” é outra coisa.

      Acho estranho que com tudo o que existe seja necessário traçar um “perfil” quando o objectivo é insucesso zero, encaixe ou não no perfil.

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