A Pescadinha que nos Mete o Rabo na Boca

Tenho andando a juntar algumas peças, nomes, instituições, procedimentos, circuitos e começo a ter um quadro mais claro de todo o modelo de descentralização em matéria de Educação.

Façamos um resumo rápido do contexto: há verbas europeias (será mesmo? com as eventuais sanções?) para iniciativas (inter)municipais na área da Educação e Formação. Não se destinam apenas a infra-estruturas, mas a financiar “projectos” que entre nós se dizem virados para a redução do insucesso e abandono escolar.

Agora o processo em curso:

  1. Para além dos planos de escolas e agrupamentos em execução para aqueles objectivos, temos diversas autarquias, em especial as mais adeptas da transferência de competências da Educação, que estão igualmente a desenvolver planos desse tipo que, em diversos casos, são encomendados a centros de estudos e/ou investigadores de instituições universitárias, públicas e privadas. Ocorrem-me dois ou três assim de forma muito evidente, de acordo com a informação que me vão fazendo chegar.
  2. Existe uma interessante (e natural) confluência entre essas instituições e investigadores que andam a produzir esses planos e as personalidades que, do lado da “ciência social”, aparecem publicamente a apresentar o processo de municipalização, desculpem, descentralização da tomada de decisões em Educação como o melhor caminho para nós.

Aquilo que eu questiono, sem querer beliscar a honorabilidade seja de quem for, porque fazer pela vidinha é algo que assiste a todos, é o seguinte:

  1. O que é que nasceu primeiro? A crença enorme no papel insubstituível das autarquias na gestão educativa de proximidade e na promoção do sucesso escolar ou a percepção de uma área de negócio nascente nesta mesma área para consultorias e estudos de preparação e avaliação de medidas?
  2. Se os fundos europeus fossem para iniciativas com gestão centralizada, encontraríamos os mesmos nomes e siglas nos estudos destinados a preparar as medidas de tais projectos?

Eu questiono isto porque leio muito acerca de transparência e rigor em diversas matérias, desde logo na forma como as escolas e os professores devem fazer o seu trabalho, mas não é raro dar com uma opacidade extrema nas relações entre especialistas-opinadores no espaço público, decisores políticos (centrais, locais e outros mais, daquelas estruturas intermédias que raramente dão a cara), formadores apressados e investigadores avençados ou a quem são encomendados estudos para comprovar a bondade das opiniões e medidas que eles próprios apoiaram inicialmente. Nem vale a pena começar a desenlear as ligações mais ou menos imediatas entre nomes que se encontram aqui, ali e acolá com uma recorrência só explicável pela estreiteza da nossa comunidade científica nestas áreas.

Porque acho que – mais ou menos geringonças ou cratices este tipo de pântano (ético? porque legalmente já se percebeu pelo caso mlr-pedroso que anything goes)) só serve para enganar a generalidade da opinião pública, enquanto alimenta clientelas académico-políticas, como o beneplácito da apatia generalizada dos docentes e de muitos directores que ainda não perceberam o lugar que os espera, caso não tenham ou adquiram rapidamente um cartão com a cor local certa.

Supositório-de-glicerina-modo-correto

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