Problema Meu

Só pode ser uma incompreensão resultante de uma incapacidade minha de atingir uma estado mais elevado de intelectualidade que me permita absorver completamente as descrições do que vou sabendo sobre a generalização dos planos de promoção do sucesso educativo de vilarinho das furmas até à praia da armona.

É aquela incompreensão nascida de ver (num sentido figurado, não sou omnipresente em vida, talvez em defunto o consiga, se a minha alma levar óculos para o inferno) pessoas que acham que a avaliação dos alunos não se deve reger por testes, fichas de avaliação, provas finais, exames, etc, etc, porque cortam a criatividade, compartimentam o saber, tornam estanques os saberes disciplinares e não prestam justiça ao processo da aprendizagem, nem a tantas outras coisas como o seu interesse e felicidade, mas que depois produzem imensa tralha burrocráticas, desde grelhas de observação e registo do mais ínfimo detalhe de uma aula até tabelas descomunais em tanta coluna, fila, célula e fórmula ponderada de objectivos, metas e competências a desenvolver, tudo a ser preenchido necessaria e obrigatoriamente por forma a justificar toda e qualquer avaliação/classificação realizada no final de um período, do ano, de uma simples ficha de trabalho.

A mim o que parece é que estas pessoas têm uma personalidade transbordante, que precisa de se expressar de forma torrencial pelo que inundam as suas vizinhanças e ambientes circundantes com palavrosas justificações de uma avaliação qualitativa, fofinha, holística, formativa, dos alunos, ao mesmo tempo que multiplicam todos os instrumentos e ferramentas essenciais para que essa avaliação seja quantificada, objectiva até ao tutano da décima e centésima de modo a que coiso e tal, assim e os rais’ospartam.

Grelha

Concordo, Mas…

Como já escrevi e não me arrependo, concordo com parte do que Nuno Crato dizia e escrevia antes de ser ministro e em que, ao que parece, continua a acreditar, pelo menos no plano discursivo, nomeadamente que:

O que acho importante termos claro é o seguinte: não podemos mascarar a realidade em relação à educação, pelo contrário, devemos conhecer a realidade, atuar sobre ela, ser mais ambiciosos e querer que os nossos jovens saibam mais. Não podemos olhar para resultados educativos que são ainda fracos e pensar “vamos mascarar esta realidade” seja eliminando avaliações, ou baixando o nível dos exames e das provas, ou simplificando os programas. Não podemos pensar assim, devemos pensar ao contrário. Temos de pensar que os nossos programas devem vir a ser ainda mais ambiciosos, que os nossos jovens devem saber ainda mais.

O meu problema é com a sua acção como ministro e com a forma como a avalia, usando exactamente o estratagema de mascarar que muita da redução estatística do abandono se fez com base em habilidades administrativas destinadas a fomentar o subregisto da falta de assiduidade dos alunos ou mesmo a sua ausência da escola. A fé aparentemente inabalável no vocacional é uma fé como outra qualquer, um fundamentalismo que olha de forma selectiva para a realidade e não quer entender que aos 13 e 15 anos não são três meses de simulação de uma prática mais simulada do que a simulação ela mesma.

Julgo que o ensino vocacional tem uma ambição muito maior do que pura e simplesmente reduzir o abandono escolar. O ensino profissionalizante, em geral, tem como efeito reduzir o abandono escolar, é verdade, porque oferece uma outra via aos jovens, em que eles conseguem ver muito em breve à sua frente uma profissão, e isso para muitos jovens é decisivo. Mas não é só uma questão de retenção e de abandono escolar. É uma questão do futuro desses jovens e do futuro do país. Precisamos de técnicos qualificados, não podemos ambicionar ser um país só de doutores. Temos de ser um país em que as diversas profissões técnicas existam e em que os jovens sejam formados para elas.
(…)

O que fizemos com os vocacionais do básico foi tentar estruturar durante um momento esses jovens, recuperá-los para que eles depois pudessem seguir uma via ou científico-humanística ou profissionalizante. Julgo que se trata sobretudo de uma questão ideológica ultrapassada.

É possível voltar ao vocacional?

Acho que é inevitável, porque é uma via de sucesso e pouco a pouco as coisas virão ajustar-se outra vez nesse sentido. Não sei se é com este governo, se é com o próximo. Diria que certamente nos próximos anos – estou a falar nos próximos cinco, dez anos – as vias profissionalizantes vão continuar a desenvolver-se e que mesmo no básico alguma via semi-profissionalizante, como foi o vocacional, se manterá e se desenvolverá. Deixemos a ideologia cega, isto é uma necessidade dos nossos jovens e é algo que funciona para eles.

Se é para deixar a ideologia cega, então deixemos tudo o que seja cego à realidade e, já agora, não se façam auto-avaliações de desempenho como aquelas que se criticava serem feitas nas escolas. O vocacional no Ensino Básico foi uma mistificação imensa que, à vista desarmada, consistiu em escolas e professores serem praticamente obrigados a criar cursos desse tipo e, depois, a fingir que os alunos estavam nas aulas e realizavam aprendizagens vagamente relevantes. E a médio prazo iria transformar-se num imenso gueto socio-educativo, arrastando consigo muitas escolas. Assim, com um pouquinho mais de pressão, até se passava a ter 0% de abandono num único ano. Um pouco como o actual governo vai fazer com o sucesso. A bem dizer, duas faces de uma mesma moeda, quando se trata de produzir estatísticas de sucesso, não sendo de estranhar que existam, à esquerda, algumas vozes lamentosas pelo fim do dito vocacional.

espelho2

Partidarismos

Desde a sua criação que o Tribunal Constitucional tem juízes nomeados pelos partidos. Agora que parece que um pode vir a ser nomeado por indicação do Bloco é que algumas almas devotas da imparcialidade judicial (incluindo uns quantos senadores do jornalismo do sofá) se alevantam e rasgam as vestes em protesto?

Como diz o bibas

Bieber

A Apologia da Fancaria

Como praticamente todos os seus antecessores na pasta, Nuno Crato acredita só ter acertado em todas as suas opções. É natural. Como é natural que quem sabe como uma larga parte dos cursos vocacionais funcionou tenha de declarar que dali nunca sairiam grandes profissionais técnicos, muito menos aos 13 anos. Quanto a outras questões, Nuno Crato deveria ter conhecimentos suficientes para saber que alguns dos sistemas educativos que destaca só são melhores do que o nosso no topo (caso dos EUA, mesmo da Inglaterra) e que são profundamente desiguais. Assim como nem tudo de mede pelos PISA. Mas essa é toda uma outra conversa, em que, coincidindo em parte do diagnóstico, divergimos profundamente nas soluções.

Nuno Crato, como a generalidade dos seus antecessores, acha que deixou a Educação melhor em Portugal. O que nenhum ainda percebeu é que, a existirem melhorias, foram conseguidas em grande parte apesar deles (e delas). Até porque seria paradoxal a continuidade de melhorias com base em políticas ziguezagueantes e conflituantes (pelo menos de acordo com os próprios, a começar por Nuno Crato).

Crato