A Apologia da Fancaria

Como praticamente todos os seus antecessores na pasta, Nuno Crato acredita só ter acertado em todas as suas opções. É natural. Como é natural que quem sabe como uma larga parte dos cursos vocacionais funcionou tenha de declarar que dali nunca sairiam grandes profissionais técnicos, muito menos aos 13 anos. Quanto a outras questões, Nuno Crato deveria ter conhecimentos suficientes para saber que alguns dos sistemas educativos que destaca só são melhores do que o nosso no topo (caso dos EUA, mesmo da Inglaterra) e que são profundamente desiguais. Assim como nem tudo de mede pelos PISA. Mas essa é toda uma outra conversa, em que, coincidindo em parte do diagnóstico, divergimos profundamente nas soluções.

Nuno Crato, como a generalidade dos seus antecessores, acha que deixou a Educação melhor em Portugal. O que nenhum ainda percebeu é que, a existirem melhorias, foram conseguidas em grande parte apesar deles (e delas). Até porque seria paradoxal a continuidade de melhorias com base em políticas ziguezagueantes e conflituantes (pelo menos de acordo com os próprios, a começar por Nuno Crato).

Crato

One thought on “A Apologia da Fancaria

  1. A entrevista daria pano para mangas. Ficam apenas algumas notas críticas: – NC fala sempre de “exigência e de rigor”, mas, na sua política, isso não passou de um enunciado ideológico para mistificar o desinvestimento (em todos os planos) de que a EP foi alvo; – Essa “exigência e rigor”, NC ligou-os sempre à avaliação, nunca aos processos, invertendo perversamente as prioridades e comprometendo, desse modo, a qualidade do ensino (a examocracia revelou-se uma outra forma de facilitismo); – P: “Mas se há professores disponíveis e salas livres no público porque é que se paga a escola privada?” R: “É uma coisa puramente ideológica”. NC, neste passo da entrevista, de forma ardilosa, tenta reenviar para a esfera dúbia do debate ideológico (e a sua resposta é, por isso mesmo, também ela ideológica, quer dizer, mistificatória…) aquilo que é uma responsabilidade clara de quem gere a coisa pública: a boa gestão dos dinheiros que são pagos por todos os contribuintes.- “O país não pode ter só doutores”. Por detrás deste aparente truísmo, esconde-se uma visão elitista do ensino que o mandato de NC deixou óbvia: a escola acompanha e promove as desigualdades sociais, facultando, de um lado, um ensino tendencialmente minoritário e de qualidade para as elites e, do outro, para a maioria, um ensino destinado apenas a formatar gente para ingressar no precariado.

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