Concordo, Mas…

Como já escrevi e não me arrependo, concordo com parte do que Nuno Crato dizia e escrevia antes de ser ministro e em que, ao que parece, continua a acreditar, pelo menos no plano discursivo, nomeadamente que:

O que acho importante termos claro é o seguinte: não podemos mascarar a realidade em relação à educação, pelo contrário, devemos conhecer a realidade, atuar sobre ela, ser mais ambiciosos e querer que os nossos jovens saibam mais. Não podemos olhar para resultados educativos que são ainda fracos e pensar “vamos mascarar esta realidade” seja eliminando avaliações, ou baixando o nível dos exames e das provas, ou simplificando os programas. Não podemos pensar assim, devemos pensar ao contrário. Temos de pensar que os nossos programas devem vir a ser ainda mais ambiciosos, que os nossos jovens devem saber ainda mais.

O meu problema é com a sua acção como ministro e com a forma como a avalia, usando exactamente o estratagema de mascarar que muita da redução estatística do abandono se fez com base em habilidades administrativas destinadas a fomentar o subregisto da falta de assiduidade dos alunos ou mesmo a sua ausência da escola. A fé aparentemente inabalável no vocacional é uma fé como outra qualquer, um fundamentalismo que olha de forma selectiva para a realidade e não quer entender que aos 13 e 15 anos não são três meses de simulação de uma prática mais simulada do que a simulação ela mesma.

Julgo que o ensino vocacional tem uma ambição muito maior do que pura e simplesmente reduzir o abandono escolar. O ensino profissionalizante, em geral, tem como efeito reduzir o abandono escolar, é verdade, porque oferece uma outra via aos jovens, em que eles conseguem ver muito em breve à sua frente uma profissão, e isso para muitos jovens é decisivo. Mas não é só uma questão de retenção e de abandono escolar. É uma questão do futuro desses jovens e do futuro do país. Precisamos de técnicos qualificados, não podemos ambicionar ser um país só de doutores. Temos de ser um país em que as diversas profissões técnicas existam e em que os jovens sejam formados para elas.
(…)

O que fizemos com os vocacionais do básico foi tentar estruturar durante um momento esses jovens, recuperá-los para que eles depois pudessem seguir uma via ou científico-humanística ou profissionalizante. Julgo que se trata sobretudo de uma questão ideológica ultrapassada.

É possível voltar ao vocacional?

Acho que é inevitável, porque é uma via de sucesso e pouco a pouco as coisas virão ajustar-se outra vez nesse sentido. Não sei se é com este governo, se é com o próximo. Diria que certamente nos próximos anos – estou a falar nos próximos cinco, dez anos – as vias profissionalizantes vão continuar a desenvolver-se e que mesmo no básico alguma via semi-profissionalizante, como foi o vocacional, se manterá e se desenvolverá. Deixemos a ideologia cega, isto é uma necessidade dos nossos jovens e é algo que funciona para eles.

Se é para deixar a ideologia cega, então deixemos tudo o que seja cego à realidade e, já agora, não se façam auto-avaliações de desempenho como aquelas que se criticava serem feitas nas escolas. O vocacional no Ensino Básico foi uma mistificação imensa que, à vista desarmada, consistiu em escolas e professores serem praticamente obrigados a criar cursos desse tipo e, depois, a fingir que os alunos estavam nas aulas e realizavam aprendizagens vagamente relevantes. E a médio prazo iria transformar-se num imenso gueto socio-educativo, arrastando consigo muitas escolas. Assim, com um pouquinho mais de pressão, até se passava a ter 0% de abandono num único ano. Um pouco como o actual governo vai fazer com o sucesso. A bem dizer, duas faces de uma mesma moeda, quando se trata de produzir estatísticas de sucesso, não sendo de estranhar que existam, à esquerda, algumas vozes lamentosas pelo fim do dito vocacional.

espelho2

2 thoughts on “Concordo, Mas…

  1. Acho que a primeira citação parte de uma premissa errada, a de que um programa exigente é bom em si mesmo, e com mais exigência só pode melhorar.

    Ora se o programa está mal feito, se exige aos alunos aprendizagens que ainda não são capazes de realizar, se não está articulado com o que aprenderam antes ou o que estudam noutras disciplinas e se não é estruturante em relação ao que vão aprender a seguir, então o discurso da treta da exigência, da ambição ou do saber mais não faz qualquer sentido.

    E o problema do cratismo é esse, nunca rimou a bota com a perdigota.

    A minha análise à entrevista em: https://escolapt.wordpress.com/2016/07/17/nuno-crato-o-eduques-de-direita-revisitado/

  2. o vocacional é como o cef. (sim, eu sei que há diferenças mas….)
    do ponto de vista dos professores limpa as turmas; do ponto de vista dos alunos livram-se de uma curriculum que odeiam.
    Evitamos o abandono e ficamos todos contentes.
    mas,
    é preciso que essas crianças saiam com um curso qq. têm algumas armas no mercado de trabalho ao contrário do que acontecia antes que saiam na mesma e iam para as obras ou para a apanha da fruta. quando tinham sorte.

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