Dois Modelos de Produção de Sucesso

A entrevista de Nuno Crato ao DN no domingo e um artigo de Maria de Lurdes Rodrigues no Público Online de ontem são excelentes pistas para compreendermos o que une e o que divide duas formas de encarar a produção de sucesso a partir da 5 de Outubro.

  • No caso de Nuno Crato (a “Direita”), a opção foi por retirar os produtores de insucesso da generalidade das turmas regulares, remetendo-os para vias pretensamente profissionalizantes desde os 13 anos e libertando-os de terem de fazer provas finais, enquanto pressionavam as escolas e os professores para apresentarem o máximo sucesso possível na avaliação interna dessas vias “alternativas”. Ao mesmo tempo, e com naturalidade, o sucesso aumentaria nas turmas assim “limpas” de elementos menos desejáveis.
  • No caso de Maria de Lurdes Rodrigues e da actual equipa ministerial (“a “Esquerda”), a opção foi por acabar com os “exames” até ao 6º ano, manter o máximo de alunos nas turmas, mesmo em casos onde o bom senso recomendaria o contrário e forçar a elaboração de planos de promoção do sucesso escolar que colocam praticamente todo o ónus do insucesso nas escolas e professores (“o insucesso é a falha da escola enquanto organização” ou “o insucesso é o fracasso dos professores” são chavões muito usados) e fazem adivinhar um sucesso praticamente por decreto.

Discordo dos dois modelos, seja da “limpeza” das pautas das provas finais com estratagemas como a generalização dos “vocacionais” precoces, seja da desresponsabilização quase total dos alunos, a quem basta aparecer nas aulas para ter direito ao sucesso, caso contrário a falha é dos professores. Se existe uma terceira via? Sim, mas não é baseada em processos apressados, com produção acelerada de um sucesso para exibir no currículo dos governantes.

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Pedagogias Diferenciadas – Breve Esclarecimento

Um amigo fez-me ontem um justo reparo acerca da forma como eu tenho zurzido de forma sarcástica nos últimos dias a prática da pedagogia diferenciada, tal como ela anda a ser (con)vertida nos planos de sucesso por esse país fora com base num cardápio de medidas que, em diversos casos, eu acho a antítese da diferenciação pedagógica.

E fez-me o reparo que pode parecer, a quem tenha uma abordagem mais literal das coisas que eu desprezo mesmo esse tipo de prática, o que não – de todo – o caso.

Como ando preguiçoso, vou adaptar e completar ligeiramente aqui a resposta que lhe dei, esperando tornar mais evidente a minha posição para que nos entendamos com muita clareza deste o início, pois eu respeito imenso a Pedagogia Diferenciada, sei o que é e, com as minhas limitações, aplico-a nas minhas aulas e entre turmas, diferenciado estratégias, instrumentos de avaliação, ritmos de ensino, de uma forma nem sempre compreendida por toda gente.

O que me irrita? Que a invoquem quando estão a fazer o seu contrário, a padronizar, a homogeneizar, a replicar, por muito que falem em adaptação às realidades locais.

A verdade é que, mesmo em escolas onde há algum bom senso, há planos que privilegiam o leccionar os conteúdos ao mesmo ritmo, o usar dos mesmos instrumentos de avaliação e na mesma altura para “aferir” como estão a desenvolver-se as aprendizagens e a fazer o que acho ser o contrário de uma visão da Pedagogia Diferenciada centrada nos alunos. Porque eu acho que o Conhecimento e a sua transmissão estão no centro da Educação, sendo a Pedagogia a forma melhor de a transmitir a cada aluno ou grupo de alunos. É assim que eu interpreto as coisas.

Ora… o que agora vejo é que a nossa liberdade enquanto profissionais autónomos e conscientes está a ser de novo estreitada radicalmente com estes planos que muitas luminárias andam a replicar para fingir que o sucesso-zero corresponde mesmo a aprendizagens realizadas.

Porque uso de um enorme sarcasmo com estas coisas? Porque acho que os actuais governantes andam a usar a “capa” de conceitos como a Inclusão e a Pedagogia Diferenciada para fazerem o seu contrário. Ou então não perceberam nada do que leram.

O que eu gostava de um debate aberto sobre isto, bem público, que desse para os desmascarar com situações concretas induzidas pelas actuais medidas…  o que eu “diabolizo” é a distorção dos conceitos, como aquela da “aproximação” equivaler a municipalização. Porque, por exemplo, em meu entendimento, andar a formar grupos ou turmas de nível é o contrário de uma pedagogia que, numa sala de aula heterogénea, tente alcançar todos ou, pelo menos, preveja trajectos, ritmos e metas diversas para cada um.
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Que nada disto é muito possível com turmas de 30 alunos, agora com alunos com CEI lá dentro e tudo? Pois… esse é apenas um dos busílis da questão.
calvinandhobbesreligious1