Não Deveria Ser o ME a Fazer Isto?

É preciso assim tanta gente durante três anos? Isto é coisa para usarem no mínimo meia dúzia de máquinas com processador 486DX para tratar a informação.

Mas ainda bem que o vão fazer e espero que depois publiquem de forma acessível e com critérios coerentes para arrumação da informação ao longo do tempo.

Os resultados do concurso para a formação do Observatório da Educação do EDULOG, o think tank da fundação para a área da Educação, foram conhecidos nesta quarta-feira e declarado vencedor, para este projecto, o consórcio criado pelo Centro de Investigação de Políticas do Ensino Superior (CIPES), o Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIES), o Núcleo de Investigação em Políticas Económicas (NIPE), a Unidade de Investigação em Governança, Competitividade e Políticas Públicas (GOVCOPP) e o Instituto de Engenharia de Sistemas de Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).

A equipa, que vai gerir o observatório durante três anos, vai trabalhar indicadores da área da educação, que serão tornados públicos, e que têm por objectivo analisar aspectos como o rendimento escolar, indicadores de qualidade ligados às escolas, indicadores de eficiência, entre outros.

“Vai ser feita uma análise dos indicadores que já existem a nível internacional, como os da OCDE, e equacionar que outros indicadores fará sentido adicionar, no sentido de caracterizar melhor o ensino português”, explicou à agência Lusa o coordenador científico do EDULOG, e também presidente da Agência Nacional de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), Alberto Amaral.

Dali

 

Terceira Via

Há um par de dias critiquei os dois modelos vigentes na última década para lidar com a questão do insucesso escolar. O do PSD e de Nuno Crato que foi o de limpar pautas, empurrando alunos com historial de insucesso para uma via pseudo-vocacional que os isentaria de passar pelas provas finais criadas pelo próprio NC e o do PS, defendido em artigo de Maria de Lurdes Rodrigues e que está em aplicação pela nova equipa ministerial (e reparem que neste caso nem digo pelo novo ministro por alguma razão), que passa pela pretensa integração de toda a gente num trajecto de sucesso obrigatório, baseado num aparato burocrático destinado a bloquear por via administrativa o insucesso.

Claro que existiu quem achasse que se eu critico é porque tenho soluções melhores (como se eu não pudesse criticar um falhanço do Ronaldo ou do Messi, a menos que consiga fintar 5 tipos em corrida e marcar penaltys de cócoras) e que se existe um outro caminho, seria boa ideia eu explicitá-lo melhor.

Então, está bem. Mas vamos devagarinho e por partes porque soluções mágicas e à pressa não são a minha especialidade, porque acho que uma coisa é produzir estatísticas de sucesso e outra é prestar um bom serviço educativo a todos os alunos. E, já agora, também acho que as escolas não podem, nem devem, tentar resolver todos os problemas que a sociedade envolvente se revela incapaz de solucionar.

Pelo que, por agora, começarei apenas por alinhavar o que acho que deve acontecer, em traços gerais, em cada ciclo de escolaridade para prevenir ou resolver situações de insucesso ou abandono escolar, numa perspectiva de integração vertical no percurso educacional dos alunos (mais fácil se os agrupamentos servirem mesmo para alguma coisa) e assumindo que não são @s educador@s e professor@s @a únic@s profissionais envolvidos em todo este processo.

Ao nível do pré-escolar, o essencial estará no desenvolvimento da socialização dos alunos, no aspecto lúdico (mas também cívico) de estar com os outros, num espaço comum, de partilha e respeito mútuo. Nesta fase, é importante que se faça a caracterização do meio social do aluno nas suas várias vertentes, bem como um despiste muito precoce de eventuais situações de desajustamento (emocional, antes de mais) relativamente aos princípios mais simples de convivência em grupo.

O primeiro ciclo é a fase crítica de início de um processo de aprendizagens fundamentais, o qual deve ser acompanhado em parceria por professores, família e outros profissionais (sempre que necessário), de modo a determinar o perfil individual da criança e fazer um despiste precoce de eventuais dificuldades (do ponto de vista cognitivo) de acompanhamento do currículo-padrão, seja ao nível do ritmo de trabalho, de áreas de maior/menor interesse ou de potencial de desenvolvimento. O 2º e o 3º ano parecem-me ser aqueles em que já se pode conhecer um pouco melhor as características da criança e ainda não é demasiado tarde para uma intervenção no sentido – aqui sim – de adaptar os processos pedagógicos, envolver mais a família ou detectar situações de vulnerabilidade socio-económica que possam interferir directamente no desenvolvimento das capacidades do aluno. Isto implica a existência, desde este ciclo, de equipas multidisciplinares nas escolas e agrupamentos, não vulneráveis a mudanças anuais constantes na sua composição (quem chega, tem sempre de conhecer os alunos e reiniciar um processo de ganho de confiança), o que entra em choque com a lógica da Educação Low Cost em termos humanos que é a marca d’agua dos últimos 15 anos na nossa Educação.

O 2º e 3º ciclos (que eu gostaria de ver integrados num único ciclo, de desenvolvimento curricular mais harmonioso e contínuo, o que permitiria atenuar o verdadeiro ano negro do insucesso que é o 7º) seriam, nesta perspectiva, uma fase de continuidade e acompanhamento dos alunos, em que a atenção deveria recair não apenas na questão da reacção às “negativas”, mas mais de percepção de alterações de comportamento dos jovens ao entrar na adolescência e de afirmação de uma identidade, processo que tradicionalmente é de contestação à autoridade representada, em grande parte, pela instituição escolar. Nos casos mais problemáticos de adequação dos perfis individuais ao currículo-padrão, defendo que a existência dos chamados “currículos alternativos” não terão de, obrigatoriamente, corresponder à constituição de turmas de nível, para onde se enviam os alunos com mais dificuldades, ou a soluções pretensamente profissionalizantes. A definição de componentes curriculares alternativas e mais práticas (ao nível dos actuais CEI ou de casos menos complicados) podem basear-se no modelo de oficinas pedagógicas na área das expressões artísticas, do desporto, das tecnologias da informação, mantendo-se sempre que possível algumas disciplinas teóricas com conteúdos de carácter mais funcional (algo que já existe com o Português e a Matemática e poderia estender-se ao próprio Inglês e às Ciências). Por definição, estas componentes alternativas não deveriam tornar-se elas próprias uma espécie de padrão a aplicar a todos os alunos mais problemáticos (do ponto de vista cognitivo ou disciplinar), nem estarem dependentes de um número mínimo de alunos nestas circunstâncias. Como já defendi em outras situações, estas áreas até poderiam ser “abertas” à frequência dos alunos regulares, numa lógica de trabalho colaborativo entre os alunos, com um sistema de créditos pela frequência e não de marcação de faltas. Em termos de avaliação, sendo um ciclo de 5 anos, defendo a existência de provas intermédias (a contar para a nota final, no caso de ausência ou de classificação abaixo dos 20%) no 7º ano em 2 ou 3 disciplinas para os alunos “regulares”, num sistema rotativo, e de provas finais no 9º ano nessas mesmas disciplinas. Os alunos com currículos alternativos teriam uma avaliação contínua, podendo as escolas determinar a existência (ou não) de provas finais internas nos casos justificados. Deveria ainda ser possível a qualquer aluno mudar das vias “alternativas” para a regular antes de terminar o 9º ano.

Terminada a escolaridade básica, o Ensino Secundário deveria ser aquele em que a divisão de trajectos se tornasse verdadeiramente necessária, mas sem a definição de uma espécie de quotas mínimas para qualquer das vias existentes. Só a partir do 10º ano deveria ser necessário optar por uma via profissionalizante mais “fechada” ou pela via científico-humanística pré-universitária. De qualquer modo, considero essencial que a via profissionalizante não deveria ser apresentada ou encarada como a via menor para os alunos com insucesso, diferenciando-se pela estrutura curricular e não pelas regras de funcionamento (formal ou informal) em aspectos como a assiduidade ou a disciplina. As vias científico-humanísticas ou profissionalizantes deveriam ter sempre elementos comuns (Português, Filosofia, por exemplo), mesmo se com programas com níveis diferentes de aprofundamento ou cargas horárias diferenciadas, distinguindo-se pelo leque de opções disponíveis para cada trajecto.

Em nenhum dos casos deveria existir uma pressão de curto prazo para a elevação do sucesso ou uma teia de documentação a justificar todos os actos de avaliação dos docentes, porque a qualidade não se alcança ao baixar os padrões de exigência ou a colocar obstáculos administrativos ao insucesso. Os sistemas educativos de qualidade não foram construídos num lustro ou numa década e mesmo com a aceleração do tempo presente há que ter a coragem de ver mais longe do que o fim do mandato, não em termos de consensos artificiais em torno de truques, mas sim de um rumo que pode não se traduzir imediatamente em erecções gráficas para auto-congratulamento dos decisores.

Claro que tudo isto implica alterações profundas na forma como encaramos muita coisa e não nego que exigiria muito de políticos, professores e da própria sociedade um grau de auto-exigência para que nem todos estão disponíveis. Mas essa discussão fica para depois, porque isto vai longo (8000 caracteres é uma página inteira de opinião num diário) e aposto que ainda haverá quem acha que são apenas generalidades e que muito não foi explicado e tal, os meios e o etc (e é verdade, mas isto aqui não é o Handbook da Ciências do Sucesso).

dodo-heads-bw

Liberdades

Um livro muito interessante, mesmo para quem não partilhe todas as consequências das posições do autor sobre o próprio direito ao discurso do ódio e ao “trollismo”. Porque é bem verdade que os punhos de renda são a regra quando se chega ao momento de colocar os nomes concretos a quem andou a comprar panamás e depois não gostam que se lhes aponte o dedo. Entre outras estratégias, a velha história de criticarem as acusações “em geral”, mas depois demonizarem quem coloca o nome aos donos dos chifres.

Esta edição, concisa, tem tudo o que interessa e custa menos, tão menos, do que a edição nacional, quase monumental, feita para malta com carteiras muito recheadas (quase 20 euros, enquanto este custou 2,5 libras, mais envio, o que dá bem menos de metade do preço).

Foto3115Pessoalmente, nada contra a expressão de todo o tipo de opinião, excepto mesmo quando se trata de não-opiniões de parasitas que querem o nosso espaço porque não conseguem um visível para si. Não se trata sequer bem de trolls, mas de malta que nada tem a dizer, apenas gosta de chatear o próximo, pelo que o vazio deve pertencer ao vazio.