E os Outros?

Nunca o conhecimento deste tipo de traficâncias ficará vagamente completo se não quiserem que saibamos quem também recebeu (nada de milhões, bastavam 3000, quiçá 300, em espécie ou passeios por conta) para que ficassem calados, não noticiassem, fizessem parangonas, dessem prémios, abanassem o rabinho e estendessem a patinha, anos a fio, a estes senhores, que podem ser justos alvos da nossa ira mas que não podem esconder todo o rol de figurinhas que se acoitaram longamente na sua sombra e ainda hoje beneficiam do estardalhaço em torno dos que caíram em desgraça para que muito do mesmo pudesse continuar e muitos pudessem sobreviver.

O mais ridículo é ler por aí – nas afamadas “redes sociais” – quem ainda ande a tentar branquear parte da coisa, dizendo que para uns há provas de fraude e para o outro – o santo –  não há. Ou seja, benefício de dúvida selectivo, conforme a cor.

Lama

 

Desigualdade em Economia ou Educação

Saiu na Gradiva um livrinho de Harry Frankfurt (autor de um texto muito bom sobre a conversa de merda, a que chamamos treta quando não queremos ferir sensibilidades) acerca da desigualdade económica.

Para ele, mais do que nos preocuparmos em querer promover a igualdade ou em reduzir a desigualdade económica, deveríamos preocupar-nos essencialmente em reduzir a pobreza. O “conceito” é interessante, mas tem algumas limitações (são várias as críticas que lhe fizeram quanto à superficialidade da análise), visto que “pobreza” é um conceito relativo em muitos casos, quase tantos quanto aqueles em que é definida em termos de desigualdade em relação à riqueza e os mais pobres e os mais ricos são definidos, de algum modo, pela relação de grandeza estabelecida entre o topo e a base da hierarquia material.

Mas o que eu aqui queria destacar é que existe actualmente a tendência para importar “conceitos” e tendências da análise económica (mesmo que apenas filosófica) da Educação para a Economia e este é dos casos mais evidentes em que tal é desajustado. A tentação “liberal” para argumentar por analogia é que mais do que promover a igualdade ou diminuir a desigualdade, as políticas educativas devem diminuir a “pobreza educativa” leia-se “insucesso” ou “maus resultados” dos alunos).

O “problema – se é que o chega a ser – é que em Economia, a “riqueza” é algo sem um limite definido, pode ser sempre aumentada, pelo menos em tese, pelo que a eliminação da pobreza até pode acontecer – em tal perspectiva – ao mesmo tempo que aumentam as desigualdade socio-económicas (no fundo é a trse central associada à bondade dos efeitos da globalização).

Só que em Educação, a “riqueza” tem limites objectivos (100% de sucesso é algo dificilmente suplantável, assim como ter nível 5 ou nota 20 em todas as disciplina), pelo que a redução da “pobreza” implica mais tarde ou mais cedo a diminuição da desigualdade. Existindo um topo a cima do qual não é possível aceder, a subida da base leva a uma diminuição da desigualdade.

Parecendo que não, isto está relacionado de perto com as políticas de promoção agressiva do sucesso escolar e, como outra face dessa moeda, com a estratégia de alguma interesses privados no sector de reduzir o impacto dessas políticas ou de sublinhar as suas insuficiências. Ou seja: em primeiro lugar, se todas as escolas conseguirem atingir um sucesso pleno, ao desaparecer ou reduzir-se muito a desigualdade, desaparece ou reduz-se muito a capacidade de atracção das escolas que se consideram diferenciadas nesse parâmetro; em segundo, se esse acréscimo do “sucesso” for conseguido através de estratégias que levantem dúvidas, permanece o capital diferenciador de tais escolas.

Por isso é que eu acho que as tais políticas muito agressivas de imposição do sucesso escolar a todo o preço nas escolas públicas, se não forem baseadas em processos consistentes e focados na qualidade e transparência dos desempenhos e seus resultados, dificilmente conseguem prestar um bom serviço à Escola Pública e acaba por, mesmo que involuntariamente, manter (ou dar mesmo mais) créditos aos seus críticos e concorrentes.

WhiteFeminismTM1