O Ano do Verdasca – 2

Como poderá ser lido em post mais abaixo, a reacção foi rápida ao post 1 com este tema, com comentário digno de um abrantes dos outros tempos, a alegar que eu estou a fazer um ataque pessoal, quando o que faço é criticar as ideias e as práticas conhecidas de alguém que muito dirige e supervisiona, mas pouco faz em concreto em sala de aula há muito tempo. De qualquer forma, fica aqui a parte 2, dando a palavra, com transcrição fiel dos excertos da entrevista ao Público, a José Verdasca e à sua desconfiança em relação à capacidade profissional dos professores, para não falar nos tropeções lógicos como o seguinte:

Pub6Ago16aOu seja, o facto de terem legislado a transição automática do 1º para o 2º ano, levou a que os professores se desleixassem e passassem depois a reter alunos no 2º ano. Não se considera a hipótese de – nem que seja em tese – a eliminação da repetência por decreto ter sido errada. A sua aplicação é que foi mal feita pelos professores.

O mesmo se passa com a retenção enquanto fenómeno cultural que os professores, de forma irreflectida, não pensada, natural, aplicam aos alunos por não verem mais longe. Quanto ao facto da retenção não ter valor pedagógico, tudo depende do que se faz com esses alunos. Por exemplo, se pudessem repetir apenas as disciplinas a que tiveram classificação “negativa”, assistindo às restantes sem necessidade de classificação, as coisas seriam diferentes, mas isso seria muito avançado, certo?

Pub6Ago16cObservemos agora como até parece que são os professores que são responsáveis pelo “modelo burocrático” de funcionamento das escolas e como são eles que só pensam na sala de aula em termos de alunos médios e, como estão quase todos velhos, já nem têm paciência para inovar. O caminho “não é fácil”, os professores estão a “caminho do fim da carreira”, portanto…

O que está escrito é claro. Claro que podem colocar todo o spin em cima disto e até fingir que o início da escravidão docente não foi coincidente com os dois governos que José Verdasca aceitou servir como director regional de Educação do Alentejo. A forma de pensar as coisas é a do mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, podendo agora até ser envernizada para alguns efeitos, mas está lá toda.

Pub6Ago16d Pub6Ago16ePara “mudar as práticas” (as erradas, dos professores centrados na sala de aula), há que dar “formação” aos ditos cujos professores, porque os coitados já se esqueceram das sebentas de outrora.

Pub6Ago16hE a “formação” começou pelos directores e chefias intermédias a quem se pediu para replicarem a formação recebida e fazerem planos de intervenção estratégica. O que ainda não foi dito foi a quantas das 640 escolas foram dados recursos adicionais para conseguirem implementar mais este pacote de medidas. “Ousem sonhar” ou algo parecido foi o motto inspirador de algumas sessões. Mas aguentem-se com o que têm, esses velhos em fim de carreira, incapazes de ver mais do que o “aluno médio” quando entram na sala.

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Claro que, para finalizar, e em nome da estabilidade, os programas e metas irão mudar de novo. O que parece um contra-senso, se o problema está nas práticas e se Verdasca defende, na mesma entrevista, que o currículo e os manuais não sejam levados à risca. Algo com que concordo, pois até acho que a obrigatoriedade dos manuais deveria ser abolida.

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Mas como temos capelinhas novas a mandar, lá vamos em nova correria mudar programas, com base – quase que aposto – num inquérito feito aos professores em que só se perguntava se os programas eram extensos e se havia tempo para tudo, não existindo qualquer questão sobre quais as alternativas. Isso fica para os sábios.

Podem dizer-me que a globalidade da entrevista não deixa transparecer uma enorme desconfiança em relação ao trabalho dos professores, não esconde os enormes ganhos conseguidos em diversos indicadores internacionais e que não se limita a focar-se no que o entrevistado acha negativo.

Permito-me discordar e aí ficam nacos extensos da entrevista para o comprovar e para que não digam que o descontextualizei (até porque o link para o texto integral ficou no outro post).

Repito: a pessoa José Verdasca não me levanta qualquer animosidade, nem em qualquer momento é minha intenção amesquinhá-lo profissionalmente ou dizer que está em fim de carreira e que poderia dar lugar a gente mais inovadora, como ele faz com a classe profissional a que pertenço. Critico as suas ideias e a forma como todo este processo tem decorrido, sublinhando o aspecto venda de ilusões às escolas e agrupamentos e a adesão à prática do mais com menos que tanto criticámos a Nuno Crato

Mas prevejo um sucesso estrondoso para o seu Programa Nacional, se as escolas acabarem por se render à mitologia dos 600 milhões de euros dos custos da retenção dos alunos, aderindo a um sistema de aferição das aprendizagens aos saltos pelos ciclos de escolaridade, de modo a poupar dinheiro muito necessário para disfarçar as imparidades do sistema bancário.

O Ano do Verdasca – Intermezzo

Antes de passar ao miolo da entrevista de José Verdasca, gostaria de aqui relembrar o plano que ele considerava essenciais em finais de 2015 para melhorar o sistema educativo:

Se tivesse o poder de decidir, quais seriam as três medidas que tomaria de imediato e que, na sua opinião, poderiam significar uma melhoria efetiva no sistema educativo português?

Para ser sintético, baseá-las-ia em três princípios: 1) princípio da autonomia das escolas, abrangendo as dimensões curricular e pedagógica e de gestão estratégica de recursos; 2) princípio da contratualização de metas de melhoria escolar a médio prazo por ciclos de estudos e com negociação de recursos; 3) princípio da vinculação e responsabilização da comunidade escolar face aos compromissos de melhoria e de desenvolvimento da escola negociados e contratualizados.

Deram-lhe o poder e ele fez. A verdade é que os planos estratégicos que as escolas diligentemente (parece que 640 em 660) enviaram para o ME são isto mesmo, mas sem a parte da autonomia (que se resumirá, como veremos em breve, a manter critérios subjectivos para a contratação de docentes). São mais uma amarra a metas de sucesso que aceitaram colocar em si mesmas, sem que nada em retorno tivessem (afinal… os envelopes financeiros são para as autarquias…) e levassem em cima com outra modalidade de mais com menos porque, apesar das críticas a Crato, os de agora querem ainda mais sucesso com os mesmos meios que antes diziam ter sido cortados a um nível inimaginável pelos que estavam antes,

E é aqui que eu choco frontalmente com os adeptos da geringonça educativa e com a sua imensa hipocrisia política. Mas como eles acham que somos uns imbecis, que vamos lá por “palpites”, que não temos capacidade “cognoscitiva” e que o medo de voltar ao passoscoelho é mais forte do que tudo, fazem-nos engolir e esperam que nos calemos, havendo mesmo quem anuncie vitórias dignas de um pirro em dia mau.

Não contem comigo para isso.

Zepov

O Ano do Verdasca – 1

Quase todos os governos têm, em especial na área da Educação, uma figura entre o carismático e o patusco, que concentra em si os estereótipos da ideologia dominante no momento. No caso do PS, há sempre alguém que tem essa missão de espalhar a boa palavra em defesa dos pobres e desfavorecidos, andando a vender ilusões de sucesso alegadamente a custo zero. Em tempos de Sócrates/MLR foi o inefável Luís Capucha, o grande mentor da Novas Oportunidades a quem ouvi gabar-se que podia mandar um inspector a qualquer escola, assim ouvisse na rádio uma notícia qualquer menos agradável (para que constem os factos, saíamos de uma entrevista comum na Antena 1 e há pelo menos uma testemunha do que foi dito, testemunha a quem, por acaso, foi logo perguntado de que escola era…).

Em tempos de António Costa este papel é de José Verdasca, o responsável pelo novo Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, conforme se pode ler na entrevista que dá ao Público de hoje. Como Capucha, Verdasca é uma espécie de académico operacional em defesa do sucesso escolar dos alunos e das boas práticas pedagógicas, desde que ele apenas as supervisione e não tenha de passar por uma sala de aula do Ensino Básico, como se percebe pelo seu currículo. Não o conheço pessoalmente, nunca nos cruzámos, mas isso não significa que não vá arquivando as manifestações da sua desconfiança e menosprezo pelos professores, algo que – ao menos isso – nem sequer esconde – com declarações de estulta sapiência como a seguinte que vou transcrever de forma longa:

Por vezes, os professores expõem-se demasiado e deixam transparecer para a sociedade uma ideia errada da qualidade e profissionalismo do seu trabalho e da crescente exigência e intensificação social que esse trabalho significa e representa. Não é só de agora, mas também é de agora. A este propósito, vem-me por exemplo à memória a sondagem de 1994 do ‘Jornal Público’ ou anos mais tarde o relatório Braga da Cruz e que à época tantos incómodos e inquietações suscitaram junto de professores e associações sindicais. Ao longo de todos estes anos e das diversas reformas educativas que foram sendo implementadas, as questões do profissionalismo docente e da construção da identidade profissional dos professores não se soltaram de lógicas de excessiva dependência da administração pública centralizada e de uma certa imagem de ‘funcionarismo docente’ que colide manifestamente com a ideia de autonomia profissional e com o princípio da regulação dos pares enquanto principal fonte de ideias e opiniões para apreciar e julgar de forma adequada o trabalho docente. Na verdade, por muito que me custe afirmá-lo face às elevadas qualificações académicas e profissionais que os professores dispõem, tem prevalecido na profissão docente e no seu exercício uma certa ambiguidade na sua valorização pela autonomia e responsabilização profissional e que acabou por dar espaço (quase em exclusivo) a uma certa acomodação de tipo ‘funcionarista’, cultivando nos professores um sentido de pertença mais ao ministério (distante) do que às escolas, legitimando desequilíbrios de representatividade nos fóruns e nas arenas de negociação com clara prevalência dos aspetos laborais sobre os aspetos científico-pedagógicos da profissão.

Para Verdasca a “funcionalização” da profissão docente parece ser culpa dos professores e não do poder político a que ele serve com devoção sempre que o PS vem à tona e à sua “desvalorização” parece ser alheia a acção política:

No quadro de uma certa lógica de desvalorização da profissão docente, decorrente quer de um trabalho mais intenso, rotineiro e desqualificado dos professores, como mais sistematicamente controlado por parte da administração, e que as teses da intensificação do trabalho e da colonização têm evidenciado, a educação e os seus profissionais tornaram-se alvo de comentários vulgares e comuns, presas fáceis de opiniões e ‘palpites’, uma profissão em acelerada desvalorização e quase esvaziada de poder cognoscitivo aos olhos da sociedade e que nem o tempo, nem tão-pouco os seus representantes de classe, foram capazes de travar e de infletir.

Que a desvalorização perante a opinião pública não seja um facto confirmado por estudos de opinião (não deixa de ser sintomático que Verdasca em 2015 evocasse em sua defesa um editorial de 1994 em defesa das suas teses), a ele não interessa, mas apenas o apontar o dedo aos professores como únicos responsáveis pela sua actual situação de crescente proletarização laboral (claro que os governos que ele apoiou nada fizerem para isso… sendo de recordar que ele foi o homem de mão de Sócrates para a Educação no Alentejo de 2005 a 2011).

Os professores são, para Verdasca, “presas fáceis” de “palpites”, algo com que eu quase estaria prontos a concordar, a acreditar pelo que se passou em boa parte da formação por ele coordenada por todo o país, em que foram vendidas as teses pedagógicas de há um quarto de século e metodologias de projecto que são um enorme salto regressivo em termos conceptuais, mas… que diabos, nem toda a gente é obrigada a ir-se actualizando ao longo dos anos, quando pensa ter atingido a Verdade num livro de Freire ou Perrenoud, achando que mais nada se escreveu ou fez de relevante nessa área, sendo tudo o resto de “Direita”.

A entrevista de hoje tem apenas uns matizes mais suaves em relação à atitude revelada na entrevista acima, dada em finais de 2015. O insucesso é motivado, quase em exclusivo, pelos professores, pela sua inadaptação, pela sua incapacidade em inovar, por esta ou aquela razão que, mesmo quando apontada como “social” parece ter de ser resolvida pela escola, por via pedagógica como se um pequeno-almoço decente pudesse ser substituído por via didáctica ou pedagógica ou como se a estabilidade emocional dos alunos pudesse ser assegurada apenas dos portões da escola para dentro.

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