Excepção

Começam a estar longe os tempo em que sentia a necessidade de intervir sempre que possível por acreditar que talvez fosse possível alterar um pouco o curso desastrado das coisas. Agora já tenho pouca crença nessa capacidade, pelo que a ida amanhã a Torres Novas em período de preparação do ano lectivo será a confirmação de uma regra. Só posso chegar mesmo à tarde (e mesmo assim fintando algum serviço “não lectivo”), o que é uma pena por causa de perder as intervenções de António Nóvoa e Licínio Lima.

Os Dias da Escola – Encontro de Professores

TNovas

Marketing e Encenação

O CDS fez uma excelente estratégia de marketing ao convidar Maria de Lurdes Rodrigues para a sua “escola de quadros” porque o que seria um não-acontecimento ganhou dimensão mediática nos noticiários. Já Maria de Lurdes Rodrigues demonstrou até que ponto é capaz de ir na defesa do seu “legado” e na tentativa de condicionamento do PS em matéria de Educação, anos depois de ter saído da pasta.

Perante a mini-polémica em torno desta “participação especial” assistimos a duas estratégias de justificação. A abrir, MLR sentiu-se na obrigação de dizer a abrir que ia apresentar as suas ideias que são conflituantes com as do CDS e ainda defender algumas medidas (ou “reversões”) deste governo. A fechar, Adolfo Mesquita Nunes sentiu necessidade de dizer que, sendo “uma escola de quadros”, o convite destinava-se a levar alguém com quem o CDS não concorda e com quem seria possível confrontar as boas ideias do seu partido. Ou algo parecido, pois não achei ainda as declarações sem ser nuns segundos televisivos. Pelo meio, MLR declarou que, em tempos de maioria relativa, devem ser feitos “compromissos” e serem alcançados consensos. Ora… eu julgava que esses “compromissos” e consensos já terão sido feitos e alcançados com o PCP e o Bloco para que o governo tenha apoio maioritário no Parlamento. Pelo que percebo, MLR fala de outros compromissos, mais à Direita. O que não me espanta.

Ora bem… o que eu gostava aqui de analisar brevemente é até que ponto o CDS e MLR não estão de acordo em muito e até que ponto o governo PSD/CDS manteve mais do “legado” de MLR do que aquilo que, em seu tempo, “reverteu”.

Sem ser exaustivo, eu diria que o governo de que o CDS fez parte, com representantes na equipa do ME, “reverteu” apenas as Novas Oportunidades e o ritmo das obras da Parque Escolar, tendo introduzido como medida radicalmente nova as “provas finais” do 4º ano, maior motivo de polémica no mandato anterior.

Em contrapartida, o governo PSD/CDS manteve muitas das políticas herdadas dos mandatos do PS ao nível da redução da rede escolar e da sua concentração macrocéfala, acentuou processos de emagrecimento curricular destinados a reduzir o número de docentes (manutenção da separação EV/ET e do fim do par pedagógico), manteve o congelamento das progressões na carreira docente e toda a matriz do modelo de avaliação do desempenho docente, assim como o modelo único de gestão escolar. Em alguns casos, aproveitou a legislação já existente e aplicou-a como aconteceu com os casos da PACC e da mobilidade docente, assim como a própria BCE apenas veio agravar disfunções no concurso de professores que pré-existiam.

Fazendo um balanço, repito o que já afirmei várias vezes… indo além das aparências e de um par de medidas mais discordantes, o mandato de Crato prolongou a generalidade das medidas tomadas quando MLR foi ministra. Recordemos ainda que no caso de apoio ao ensino privado, os cortes decretados em tempo de governo do PS foram durante o mandato de Isabel Alçada e não no de MLR.

Pelo que a ida à “escola de quadros” do CDS não é algo assim tão fora do normal quanto se poderia pensar. A encenação do conflito tem sido uma parte essencial da degradação do debate político, com o exacerbamento das discordâncias em público a ocultar a convergência real de muitos dos objectivos da acção governativa. Em especial na área da Educação. Eu sei que há muita gente, a começar por pessoal ligado a sindicatos outrora aguerridos na luta, a dizer que discorda desta análise. Mas, como já disse, o que por aí há mais é encenação.

PALCO DE CAIXA DE PAPELAO

Anormalidade

É uns ficarem com escolas de 20 milhões de euros e outros sem dinheiro para substituir estores, fechaduras, cadeiras estragadas ou fazer pinturas. Se isto é ser “socialista” como a malta de Direita gosta de dizer, então as galinhas têm dentes do siso. Porque não se fez uma redistribuição vagamente justa dos recursos, alimentaram-se algumas vaidades locais e clientelas empresariais e deixou-se a rede escolar segmentada entre ricos (poucos) e remediados e pobres (o resto).

Quanto à encenação do “debate” com os “quadros” do CDS falamos depois de tudo aquilo que o governo PSD/CDS não reverteu das suas políticas que, no fundo, admiravam e partilhavam.

SocMLR