Tutorias – 1

O Expresso traz hoje uma longa peça (felizmente sem aquelas enormes fotos a ocupar o espaço da informação) da Isabel Leiria sobre o modelo de tutorias reformulado por este ministro da Educação com declarações, por exemplo, do Alexandre Henriques e minhas. Fica aqui o meu depoimento inicial, garantindo eu que escrevi “conselho de turma” antes do corrector ortográfico do jornal (escrevo sem AO) ter baralhado as coisas no texto impresso. De vez em quando dou a minha calinada (mera gralha ou calinada mesmo) devido à pressa ou distracção, mas não foi o caso.

*

As tutorias são das medidas mais eficazes no enquadramento dos alunos com problemas de abandono ou insucesso escolar, porque leva ao estabelecimento de uma relação individualizada e de confiança com o tutor. Isso pode permitir a abordagem de questões do foro pessoal do aluno que podem estar a dificultar as suas aprendizagens ou outros aspectos da sua vida escolar. Pude verificar isso nas vezes em que fui professor tutor; quando corre bem, até acaba por levar outros alunos a querer ter tutoria.
Se há um “segredo” ou mais valia desta medida é exactamente a personalização do tipo de apoio e o facto de não ser um mero apoio disciplinar, mas mais uma espécie de aconselhamento.
Por isso, acho um disparate que se definam rácios de 10 alunos por professor com 4 horas semanais. Mesmo fazendo um desdobramento das horas pelos alunos, isso significa que cada hora terá de corresponder a 2-3 alunos e nem sempre as questões a abordar se adequam a um apoio de grupo, em especial quando os alunos nem sequer são colegas de turma. E isso significa que cada aluno acabará por beneficiar apenas de um ou duas horas. Com os 10 alunos em grupo, ainda seria pior com 15 minutos por aluno ou pouco mais.
As tutorias devem ser estabelecidas noutra base, com horas fixas no horário mas, ao mesmo tempo, com a possibilidade do professor-tutor intervir fora de um horário rígido. E também faria sentido que as tutorias fossem atribuídas a professores do Conselho de Turma dos alunos e não conforme a disponibilidade de horas de acordo com os critérios ministeriais.
Na ausência de uma formação nesta área, seria importante que a função fosse assegurada por docentes com perfil para ela e não, como se corre o risco em muitas escolas, por quem tenha insuficiência de horário ou redução da componente lectiva ao abrigo do artigo 79º do ECD.
Quanto a outro tema, acho que os percursos curriculares alternativos – vulgo PCA – são uma resposta mais adequada e menos demagógica do que os cursos vocacionais para o Ensino Básico com a sua pseudo-componente “profissional” e as suas regras de funcionamento desajustadas ao perfil dos alunos, acabando por obrigar escolas e docentes a “fabricar” sucesso sob pressão ministerial. Os PCA permitem adequações curriculares e no processo de avaliação que podem resolver boa parte dos problemas verificados em muitos alunos com 2 ou mais retenções. Embora o essencial seja o despiste precoce das situações problemáticas.
calvin exams

4 thoughts on “Tutorias – 1

  1. É engraçado como o S ou o C alteram todo o sentido de uma palavra. 😛 Não devia ser assim…a menos que a calinadas sejam intencionais e mereçam reflexão. Acho que na ditadura as três Marias usavam essa brincadeira…uma forma de resistir.

  2. Já aqui escrevi sobre as tutorias. não me vou repetir mas o que se escreve nos jornais pode não coincidir com a prática. Não sei como as escolas se vão organizar ou se há diretivas de aplicação obrigatória.
    por outro lado, nós sabemos que há alunos que vão resistir. Até podem ter uma relação empática com escola/professores/alunos mas não querem saber do currículo oficial. estes precisam de uma alternativa qq. PCA? Nunca experimentei, não sei. Fénix? vamos ver. MEM? Nem sempre resulta. Há que experimentar várias abordagens alternativas, com critérios de avaliação diversos. Não podemos aplicar o mesmo fato a toda a gente.
    Experimentemos a diferenciação, radical quando se impuser.

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