Mimese

Um argumento que vou lendo e ouvindo por aí sobre a permanência de práticas pedagógicas atávicas entre os professores é aquela que afirma que, apesar da eventual excelência da formação específica que receberam pelos melhores especialistas nacionais, eles (e elas) acabam por copiar as práticas daqueles que foram os seus professores do Básico e Secundário (no meu caso, Preparatório e Unificado).

É uma tese curiosa que faz tábua rasa de algumas coisas como o facto de, para o bem e o mal, professores profissionalizados preferirem práticas de professores dos seus tempos de adolescência mais ou menos consciente das pedagogias do que que daquelas dos professores já da sua fase adulta e, em especial, profissionalizante.

Mas, tomemos por boa pelo menos parte da tese apenas para efeitos de diversão e ocupação de alguns minutos de pensamento. Se acontece essa “cópia” das práticas dos professores de antanho, quando éramos alunos da idade de muitos dos nossos, será que não optamos por escolher aquelas que consideramos terem sido as BOAS práticas na nossa perspectiva de então? Por exemplo, dificilmente eu escolheria a prática daquela professora que se vingava nas nossas notas pelo facto de não estarmos todos à porta quando ela chegava e virmos em correria do campo de jogos. Ou a daquele professor que contava imensas anedotas secas no 10º ano em vez de ensinar Filosofia como deve ser. Ou a daquela professora que dividia os alunos pela tendência ideológica que lhes adivinhava no 11º ano.

Ou seja… se filtrámos coisas dos nossos antigos professores, o mais certo é termos escolhido o que achamos bons exemplos. Se desprezámos outras formas de estar, mesmo apreendidas mais tarde, é porque as avaliámos menos correctas. Como a de professores que conseguem ensinar pedagogia diferenciada e dialogante em longas exposições de uma ou duas horas sem qualquer direito a interrupção. Apareceu-me um desses, ali por alturas da minha profissionalização, que nos foi dar uma sessão sobre flexibilidade da gestão e do currículo, mas que só aceitava dúvidas depois de despejar a cartilha durante quase duas horas.

espelho2

7 thoughts on “Mimese

  1. Concordo.
    O que falta muitas vezes é o exemplo. Ou seja, tu aprendes com o que vês o professor fazer e não tanto com o que ele diz. Eu aprendi metodologias ativas com o exemplo de outros, de ver fazer, e não com o que está na cartilha ou me disseram para fazer.

  2. E depois há o problema de aquilo que é visto como os bons princípios e as boas práticas ter sido bem entendido e absorvido pelos que têm a responsabilidade de as passarem aos futuros professores. Coisas como “avaliação formativa”.

    1. Ah! a questão da avaliação…. começo por fazer uma diagnóstica e depois faço uma coisa que é a sistematização dos conhecimentos, que se traduz, usualmente, por uma ficha que corrijo.- isto no ensino tradicional- que também o uso. Fora a interação verbal e avaliação oral, quando eles são mais complicados.
      Quando uso uma metodologia mais ativa faço auto e heteroavaliação e questionário (avaliação formativa) e depois é que aplico o meu teste.
      Sim, fazemos muita avaliação formativa ,,,estamos sempre a fazer, se pensarmos bem.

  3. Em qualquer lado e tempo, o bom professor é aquele que consegue que os alunos adquiram gosto e curiosidade pela sua disciplina, porta aberta para sentirem o mesmo pelo saber em geral.
    O resto não passa de burocracia, a que serve de pasto ou de pretexto para as estatísticas, rankings, metas, “ciências da educação” e tretas afins.

  4. Mal estaria eu se algum dia reproduzisse os métodos dos meus professores do “Liceu” (sim, andei num “Liceu” até ao 25 de Abril, que aconteceu quando frequentava o que hoje é o 10º ano).

    É curioso que ainda hoje se considere que era um ensino de “excelência”, comparado com o atual. Talvez o fosse nos grandes centros, daí a percepção das elites comunicacionais mais velhas.Mas a expansão apressada (apressada, por via da pressão da classe média!) do ensino secundário tentada já nos finais da ditadura -particularmente já na era de Marcelo Caetano – através da criação de “secções liceais” foi uma desgraça. Não havia licenciados suficientes, e muitos não queriam uma profissão muito mal paga (note-se que, nessa altura, um professor licenciado que não tivesse as “Pedagógicas” não recebia os meses de férias escolares…). Muitos dos professores recrutados eram-no por decisão dos “reitores” que promoveram amigos/as de qualidade duvidosa. Foi esses que, salvo raras excepções, me calharam, lá na minha terrinha.

    Poderia falar de muitas situações, mas seria fastidioso.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.