Direito à Hipocrisia

As vestes andam a ser rasgadas à esquerda e à direita por causa do livro do arquitecto Saraiva, ex-director do Expresso e actual director do Sol. É interessante como, de súbito, todos partilham dos mesmos princípios éticos e deontológicos. O semprético Daniel Oliveira, no programa Sem Moderação, levou a teoria da separação entre a vida pública e privada ao seu extremo defendendo o direito à hipocrisia de quem pode defender para a sociedade soluções que não pratica na sua vida privada. E os colegas de programa presentes, João Galamba e Francisco Mendes da Silva, abanaram as cabecitas em anuência e concordaram que se pode ser homossexual e homofóbico, por exemplo, mas que uma coisa é o que é em privado e outra o que se assume em público. É pá… esqueçamos o arquitecto Saraiva e que fique bem claro que discordo desta forma sonsa de colocar as coisas. Para mim, há todo o direito a essa hipocrisia, mas há também o nosso direito a conhecermos os hipócritas. Porque o exacto exemplo que deram é um dos mais presentes na nossa sociedade (conservadores homossexuais que em público são contra os direitos dos homossexuais e liberais – em termos de costumes – que defendem esses direitos enquanto em privado os cobrem de vernáculo degradante*. E eu reconheço que existe esse direito à hipocrisia. O que também defendo é o direito a sabermos que certas figurinhas que por aí andam não passam de uns hipócritas de primeiro escalão, sendo isso relevante para a nossa avaliação do seu carácter e coerência. Porque não se trata apenas de assuntos de cama, que são aqueles que parecem fazer cócegas a mais gente, porque quando se trata de outros temas menos carnais embora bem materiais, já nem se preocupam. Resumindo: sejam hipócritas à vontade, mas não acumulem com a cobardia. E muito menos se encubram com a ética, coitada, que não precisa de por vós ser enlameada.

Humphrey2

* – Conheço nomes, mas não sou arquitecto jornalista como o Saraiva. Outros espécimes são os defensores dos direitos dos professores quando dá jeito e tal, mas que, podendo fazê-lo sem alarido, os amesquinhariam para se vingarem de eventuais recordações de um qualquer episódio menor do seu pobre passado. Também conheço nomes e não poucos, um deles mesmo ali.

3 opiniões sobre “Direito à Hipocrisia

  1. Magnífico, subscrevo o seu texto sem quaisquer reservas. No meu caso não teria sentido qualquer curiosidade pelo livro não se desse o caso de o ver tão furiosamente diabolizado por uma tão grande chusma de canalhas. Corri a comprá-lo e ainda consegui a primeira edição.

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