A Grande Fábrica dos Números – 2

Gostaria de dar agora um outro exemplo de como se fabricam números para consumo interno e externo em  matéria de Educação. Vou voltar a um tema que já abordei em outros posts (aqui e aqui) relativamente ao alegado custo anual de um professor contratado, na altura em divergência com os dados do CNE. A coisa está lá explicada, não gostaria de a ela regressar, excepto para relacionar com o que em seguida vou descrever e que, em qualquer mundo normal, não poderia acontecer, por muito que se façam justificações com “regras da contabilidade pública”.

No mais recente relatório da OCDE temos direito a um gráfico e uma tabela comparativa sobre os salários dos professores. a qual incluo com todos os detalhes.

salprof2

Como se pode verificar, para a OCDE, um professor português em início de carreira, ganha 30.806 dólares (com conversão para paridade; actualmente corresponde a um valor próximo de 27.400€) . O que para mim é um mistério, visto que no 1º escalão o salário é o seguinte:

salprof2015

O que significa que com 14 meses de salário, sem cortes, um professor no 1º escalão tinha em 2015 um salário nominal de 21.260,82€ (real de 21.000€). O desvio em relação aos quase 31.000 dólares (os tais 27.400€ ou parecido) é enorme, colossal mesmo, de quase 30%. Parece algo saído de um orçamento de uma obra pública. E nem estamos a falar do salário líquido.

Para o topo de carreira aparece o valor de 57.201 dólares (c. 50.850€). Mas o “topo da carreira” docente em Portugal é uma total ficção pois corresponde a um escalão em que ninguém está, aquele mítico 10º para atrair titulares em tempos do engenheiro. Mas, mesmo nesse, a tabela de 2015 era a seguinte:

salprof2015b

O que dá um  salário anual nominal de 47.100,06€ (e “real”, se existisse, de 43.875,44€). Mas a verdade é que os professores com maior salário são os que estão no 9º escalão, com a seguinte remuneração:

salprof2015c

Total anual: 43,282,82€ nominais e 40.544,98€ reais. Brutos e não líquidos, repito.

E nem é bom falar do salário com 15 anos de carreira, porque há quem os tenha e esteja no 1º ou 2º escalão da carreira.

Porque são fornecidos dados à OCDE pelas autoridades nacionais que não têm qualquer relação com a realidade?

Não faço ideia, porque aquela das “regras da contabilidade pública”, a explicação que me foi dada à laia de me dar a entender que sou um ignorante, seria capaz de me fazer rir se não achasse que é uma completa e muito preocupante manipulação dos dados.

Mas, para todos os efeitos, quem ler o relatório com a chancela da OCDE fica a acreditar em números completamente fabricados, que transmitem uma noção completamente errada dos salários dos professores portugueses, os tais “privilegiados” e soberbamente pagos. Uma vergonha produzida a partir cá de dentro. Com legitimação “oficial”.

Uma vergonha. Ponto. Final. Parágrafo.

8 thoughts on “A Grande Fábrica dos Números – 2

  1. A tabela não está mal construída, quem a lê é que poderá não passar para a opinião pública a melhor realidade. Vamos por partes: 1) o salário está em USD e não em € (o que já dará alguma diferença); 2) e aqui acredito que seja o que mais difícil seja de percecionar – é sempre usada uma correção PPP (o equivalente a paridade do poder de compra), isto porque o custo médio de vida não é igual em todos os países.
    Claro que concordo consigo se me disser que a maioria da população não perceberá o que ali está, mas isso não é culpa de quem fez a tabela. quanto aos valores após os ditos 10 e 15 anos … sim, aqui é escandaloso, pois trabalho faz este ano letivo 15 anos e ganho pelo 1º escalão.

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  2. Este tipo de comparações é bastante falacioso, com demonstra no post. A utilização do dólar como unidade traz, desde logo, problemas, pelo efeito das diferenças de câmbio. As PPC são baseadas em indicadores de consumo e podem funcionar relativamente bem dentro de uma determinada área económica, mas funcionam pior quando estamos perante padrões de consumo muito diferentes.

    Mas há outros fatores que podem distorcer as comparações. Desde logo, o nível de impostos e das contribuições sociais obrigatórias. E também as diferenças nas prestações sociais entre países, que são uma forma de salário indireto que pode ser bastante significativo.

    Lembro-me que, nos tempos da D. Maria de Lurdes, os blogues e as caixas de comentários estavam cheias de “socretinos” que orquestravam ataques constantes aos professores e funcionários do Estado em geral, classificados de “privilegiados”. Um deles, um dia, descobriu que, a meio da carreira, os professores portugueses ganhavam mais que os noruegueses. Não sei onde foi buscar tais números, mas lembro-me da minha resposta: isso é só até que apareçam em casa as contas do dentista, dos manuais escolares, das propinas dos filhos, do lar da terceira idade dos pais, etc. etc.

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