A Grande Fábrica dos Números – 3

Alguns textos recentes aqui no quintal poderão dar a sensação de eu não gostar de analisar as estatísticas da Educação ou de tentar perceber a realidade a partir de indicadores numéricos. Nada de mais errado, pois sempre gostei de o fazer, na justa medida e sempre me desagradou muito a fraca qualidade, escassez de dados ou a divulgação truncada da informação estatística disponível no ME sempre que isso podia servir objectivos políticos. Boa, má ou assim-assim, a minha tese de doutoramento sobre a Educação Feminina no século XX tinha o subtítulo de “discursos, números e olhares”. A recusa da informação estatística é tão prejudicial quanto a submissão às tabelas do excel.

O que me desagrada é quando, fora da época oficial de caça aos rankings, dos relatórios dos testes PISA ou da OCDE, aprecem de repente uns números atirados para a comunicação social, em exclusivo ou à molhada, aparentemente resultantes de estudos menos ou mais desconhecidos nos seus detalhes e divulgados apenas nas partes que parecem passíveis de provocar maior comoção pública. Sei que parece mania relembrar os tempos de Maria de Lurdes Rodrigues, em que os indicadores sobre o sistema educativo eram divulgados conforme a agenda política. Mas foi nesse período, em especial desde 2007, que os números da Educação se tornaram armas de luta política e as estatísticas foram torturadas até dizerem o que era necessário dizer do ponto de vista político. E em que era necessário um esforço, em algumas alturas quase diário, de desmontagem de milhões de faltas, de rácios manhosos e de tanta outra coisa de péssima memória.

Só que isso não terminou, apenas se sofisticou, porque os tempos são menos claros, as trincheiras de outrora parecem ter evaporado e agora temos uma espécie de regime feudal, seja na estrutura hierárquica feudo-vassálica de uns sectores (caso da geringonça político-sindical), seja na fragmentação dos poderes, com a multiplicação de meso-poderes intermédios que pretendem influenciar as políticas educativas através da demonstração “científica” das suas razões. Por isso, quando aparecem novos “estudos” eu procuro saber quem os fez e em que enquadramento institucional ou financeiro. Um pouco como devemos fazer com os estudos que comprovam a bondade suprema de dados medicamentos, por acaso financiados pelas farmacêuticas que os comercializam (aos estudos e aos medicamentos).

Quem, onde, como, quando, pago por quem, com dados obtidos onde e com que autorizações? São questões essenciais para se descodificarem títulos, parágrafos, quadros, evidências. A “Ciência Social” raramente é inocente mas existem (deveriam existir) alguns limites para o comprometimento dos “cientistas sociais” com causas políticas, em especial quando as pretendem santificar com a cobertura académica. Há excelentes trabalhos sobre Educação em Portugal, alguns deles com forte componente estatística. E, depois, há um número variável de “produtos” ao serviço de causas mais ou menos explícitas que nos são servidos como se fossem o pináculo da investigação, quando muitas vezes são trabalhos que resultam de acesso privilegiado a dados, tornando quase impossível fazer a verificação da sua fiabilidade ou das amostras usada.

Que isto não é novo, eu bem sei. Que parece um certo retorno a uma mentalidade conspirativa, também me parece evidente. Mas, infelizmente, as coisas são o que são, com mais ou menos aparato.

auladecriacionismo

Só se Estragou um Programa

Na RTP3, ao fim da tarde, Paulo Rangel e Francisco Assis analisavam a eleição de Guterres para secretário-geral da ONU. Devido aos permanentes ademanes e meneios de mãos deixei de conseguir concentrar-me no que diz o primeiro (embora tenha percebido a inversão de marcha quanto ao que ele disse que não disse), pois em relação ao segundo é toda uma repulsa político-intelectual que se me assoma à pituitária. Então quando os dois se juntam num programa é toda uma tensão anti-erótica primordial que exala do pobre televisor, capaz de fazer a minha gata fugir, arrepelada de pavor, mesmo no pino do cio.

gata