Preconceito Adjectivado

Admito. Confesso. Sou um preconceituoso assumido. Invade-me um preconceito inultrapassável, intransponível, irredutível, indelével, quiçá irrevogável.

Não suporto a grande maioria dos colaboracionistas no regime educacional socretino, em especial os do ciclo rodriguista em que merdejaram, desculpem, medraram os capuchas, verdascas, sebastiões, abrantes, no aparelho político-administrativo ou académico-inspectivo-avaliativo, sempre dispostos a prestarem mais uma pázada de terra para o enterro de toda uma classe profissional que cometeu o pecado de não querer ser terraplanada a gosto. Teóricos do coitadinhismo educacional, falsos defensores dos pobres e desvalidos, arrogantes aparachicos (conceito a desenvolver em breve) de um regime caudilhista e passionário, democratas do modelo único da obediência, que andam por aí a cuidar da constrição e apagamento da memória colectiva, orientando investigações em elogio próprio, agora já em defesa de consensos e compromissos, de diálogos e pontes hipócritas.

Está bem assim como confissão?

Qual a minha penitência? Não chega continuar a vê-los a andar por aí como se nada tivesse sido e ainda assistir ao troca-tintismo de uns quantos outros despudorados?

apparatchik

O Professor Cuidador e Transbordante (E Mais umas Coisas que se me Ocorreram)

Em vez de velho, incapaz de acompanhar as tecnologias e discriminador e/ou racista, como alguns estudiosos gostam, de quando em vez, mais quando um certo PS (com laivos de bloquismo) se estende para a comunicação social, de proclamar.

No dia em que algumas pessoas – que acham que conhecem o sistema porque foram há uns anos fazer avaliação externa ou outro tipo de supervisão num punhado de escolas ou porque têm acesso privilegiado a dados do ME para as suas teses e estudos – tiverem de saber a que horas este ou aquele aluno precisa de tomar medicação, aquela ou a outra aluna chega com o pequeno almoço tomado ou precisa de ficar um pouco mais de tempo lá fora para comer porque tem receio de estar em grandes filas porque tem sintomas de ansiedade, aqueloutro ou aqueloutra chegou à escola no carro da polícia porque em casa não estava ninguém, talvez compreendam melhor um trabalho que raramente conseguem caracterizar para além de uma aritmética básica de médias e grelhas de observação ao longe. Quando conseguirem perceber que não há planificações que resistam ao atraso na distribuição dos manuais pelo SASE (este ano claramente melhor dos que os anteriores), que começam a existir alguns comentários entre os alunos quanto às regras da sua utilização (“o manual é meu, posso escrever as respostas nele”, enquanto o parceiro se encolhe, meio envergonhado por apenas o ter emprestado), como se existissem alunos de primeira e segunda, assim como a criação de grupos e turmas de nível, a par da padronização dos instrumentos de trabalho pedagógico e avaliação, são a negação de uma verdadeira pedagogia diferenciada e colaborativa, talvez seja possível conversar sem ser numa situação de enorme desigualdade, em que uns olham do patamar superior do “conhecimento científico” para aqueles que estão lá no sopé das escadas, prisioneiros do seu “saber empírico”, meramente funcional.

Quando alguns especialistas conseguirem perceber que Portugal é dos países em que, por estranho que pareça, o sistema de ensino melhor assimila os alunos não europeus e em que os preconceitos individuais de alguns docentes (e mesmo de alunos) são mais rapidamente absorvidos e dissolvidos pelas práticas da larga maioria na generalidade das escolas localizadas em áreas mais carenciadas e com uma composição social e étnica mais heterogénea, talvez seja possível obter estudos (nacionais) que abandonem a postura do “remorso do homem branco”, típica de alguns académicos que chegaram atrasados à sociologia da educação dos anos 70 do século XX.

Porque, também por estranho que pareça, não é em Portugal que estão em alta atitudes de profunda xenofobia mesmo entre alunos ou em que a própria rede escolar os insere em guetos, levando a fenómenos de extrema violência mesmo em países apresentados como tradicionalmente tolerantes. Sobre a actual intolerância dos franceses em relação à própria alimentação dos alunos muçulmanos nem é bom falar.

Quando se aponta o dedo às escolas e professores portugueses, acusando-os de discriminar minorias, promovendo “racismo institucional” e condenando-as ao insucesso devido a preconceitos culturais e étnicos, será que está a ser feita alguma contextualização desta situação, comparando-a com o que se passa na Europa? Quando tanto se fala da crise dos refugiados na Europa que despertará os piores instintos nas populações em alguns países, não poderemos lembrar como em Portugal foi assimilada a entrada de mais de um milhão de pessoas provenientes das antigas colónias e como isso aconteceu com um nível baixíssimo de conflitualidade, se o compararmos com fenómenos equivalentes?

Ou isso não é prioritário para servir de enquadramento a certas teses e prioridades político-académicas? Ou só às vezes?

Já agora… combater a discriminação não é nivelar pela mediocridade ou reduzindo o currículo ao “essencial” para ver se passam mais…

teacher

Uma Vasta Obra Publicada

Habituei-me a que, quando critico algum “estudo científico” sobre Educação ou alguma posição mais dogmática de um especialista de renome maior ou menor lá no seu nicho académico, me respondam de dedo em riste que “fulano de tal e a sua colega sicrana das almentoliastêm uma vasta obra publicada na área”, como se isso servisse para colocar os seus escritos acima de qualquer crítica de um zeco armado em esperto. O problema é que o processo de produção de grande parte da “Ciência Social” praticada entre nós não me é estranho, pois sou da geração de muitos dos que andam por lá ou conheci os seus mentores em seu tempo áureo, quando estas “redes de conhecimento” se estabeleceram e consolidaram sob a égide do muito elogiado Mariano Gago. O qual fez coisas boas, mas também permitiu que a endogamia em certas áreas fosse o pão nosso de cada dia para os que não quisessem ficar sem abrigo. A “vasta obra publicada” é, quantas vezes, constituída por 3 ou 4 investigações empíricas subsidiadas pela fct (e mais recentemente por alguns mecenas particulares) das quais se extraíram em média 5 ou 6 artigos por unidade, com variações sobre o mesmo tema, um par para revistas portuguesas, outro par para revistas estrangeiras com quem se permutam cortesias e um par para revistas online com executive summaries para serem indexados e contabilizados na ficha anual de “produção científica”. O que dá umas dezenas de títulos em pouco tempo. Quanto às revistas, publicam-se com o mesmo tipo de apoios à “divulgação científica”, sendo adquiridas em boa quantidade pelas instituições dos autores da maioria dos artigos para permutas, não sendo as tiragens pouco superiores ao número de bibliotecas que existem para as colocar.

É esta uma visão cínica e redutora? Sim, mas não é falsa. Basta perceber que muitas editoras de coisas destas são ficções que não sobreviveriam fora do seu casulo, mesmo quando se remetem apenas ao mundo virtual. A “qualidade” assegurada pelos painéis de especialistas que atribuem os apoios à investigação ou que fazem o peer review dos artigos é ainda mais estreito do que a dimensão do nosso país e não falo do que não sei porque até já eu fiz coisas dessas e bem me lembro do processo laborioso que é ver publicado um artigo que não passaria de uma recensão crítica para uma cadeira do 1º ano de História de outrora. Em outros casos, o aparato é baseado na estatística, com imensas tabelas e gráficos a transmitir uma sensação de rigor e credibilidade que qualquer preguiça impede de verificar se não foi tudo baseado em premissas erradas ou se não bastaria mudar um valor para todas as conclusões serem outras.

E depois há aquela coisa de raramente as conclusões fugirem às premissas iniciais dos autores, pois não se publicam artigos que não confirmam as teses iniciais. Assim como não têm interesse para impacto público as conclusões que não transmitem uma aparência de polémica. Como é o caso de algumas (muitas!) coisas que na última década se entretiveram a demonstrar como o nosso sistema de ensino público é discriminatório, incapaz de solucionar os problemas que o resto da sociedade e das áreas da governação não conseguem minorar, e constituído por professores que não conseguiram adaptar-se “aos novos tempos” ou à “escola do século XXI”.

(E nem vou aqui falar do que não passam de encomendas feitas para provar o que o encomendador pretende, pois nesse caso chamam-me arrogante… ou ignorante… tanto faz)

E é aqui que um tipo choca com o paradoxo de se ficar por este tipo de descrição generalista e ser acusado de não concretizar o que afirma, ou de se apontarem casos concretos e se ser acusado de ataques ao homem (ou mulher) e ao seu bom nome académico. Para além de outras acusações mais ou menos veladas e implícitas sobre a nossa capacidade para ver mais do que o umbigo ou o próprio quintal (trocadilhos do caraças!).

É toda a nossa “Ciência Social” má ou deficientes todos os estudos na área das Ciências da Educação? Nada disso, há muitos trabalhos excelentes, mesmo quando chegam a conclusões de que discordo, porque não é isso que está em causa. O problema é que aquilo que faz algumas primeiras páginas ou rodapés de telejornal não passa de fancaria à medida das circunstâncias do estipêndio material ou académico.

Declaração de interesses… tenho escassa obra publicada na área da Educação nos moldes acima descritos, mas também ´verdade que a última rejeição recebida tem bastante tempo, pois cedo aprendi que ou nos convidam ou é melhor um tipo não se cansar.

PG Verde