Uma Vasta Obra Publicada

Habituei-me a que, quando critico algum “estudo científico” sobre Educação ou alguma posição mais dogmática de um especialista de renome maior ou menor lá no seu nicho académico, me respondam de dedo em riste que “fulano de tal e a sua colega sicrana das almentoliastêm uma vasta obra publicada na área”, como se isso servisse para colocar os seus escritos acima de qualquer crítica de um zeco armado em esperto. O problema é que o processo de produção de grande parte da “Ciência Social” praticada entre nós não me é estranho, pois sou da geração de muitos dos que andam por lá ou conheci os seus mentores em seu tempo áureo, quando estas “redes de conhecimento” se estabeleceram e consolidaram sob a égide do muito elogiado Mariano Gago. O qual fez coisas boas, mas também permitiu que a endogamia em certas áreas fosse o pão nosso de cada dia para os que não quisessem ficar sem abrigo. A “vasta obra publicada” é, quantas vezes, constituída por 3 ou 4 investigações empíricas subsidiadas pela fct (e mais recentemente por alguns mecenas particulares) das quais se extraíram em média 5 ou 6 artigos por unidade, com variações sobre o mesmo tema, um par para revistas portuguesas, outro par para revistas estrangeiras com quem se permutam cortesias e um par para revistas online com executive summaries para serem indexados e contabilizados na ficha anual de “produção científica”. O que dá umas dezenas de títulos em pouco tempo. Quanto às revistas, publicam-se com o mesmo tipo de apoios à “divulgação científica”, sendo adquiridas em boa quantidade pelas instituições dos autores da maioria dos artigos para permutas, não sendo as tiragens pouco superiores ao número de bibliotecas que existem para as colocar.

É esta uma visão cínica e redutora? Sim, mas não é falsa. Basta perceber que muitas editoras de coisas destas são ficções que não sobreviveriam fora do seu casulo, mesmo quando se remetem apenas ao mundo virtual. A “qualidade” assegurada pelos painéis de especialistas que atribuem os apoios à investigação ou que fazem o peer review dos artigos é ainda mais estreito do que a dimensão do nosso país e não falo do que não sei porque até já eu fiz coisas dessas e bem me lembro do processo laborioso que é ver publicado um artigo que não passaria de uma recensão crítica para uma cadeira do 1º ano de História de outrora. Em outros casos, o aparato é baseado na estatística, com imensas tabelas e gráficos a transmitir uma sensação de rigor e credibilidade que qualquer preguiça impede de verificar se não foi tudo baseado em premissas erradas ou se não bastaria mudar um valor para todas as conclusões serem outras.

E depois há aquela coisa de raramente as conclusões fugirem às premissas iniciais dos autores, pois não se publicam artigos que não confirmam as teses iniciais. Assim como não têm interesse para impacto público as conclusões que não transmitem uma aparência de polémica. Como é o caso de algumas (muitas!) coisas que na última década se entretiveram a demonstrar como o nosso sistema de ensino público é discriminatório, incapaz de solucionar os problemas que o resto da sociedade e das áreas da governação não conseguem minorar, e constituído por professores que não conseguiram adaptar-se “aos novos tempos” ou à “escola do século XXI”.

(E nem vou aqui falar do que não passam de encomendas feitas para provar o que o encomendador pretende, pois nesse caso chamam-me arrogante… ou ignorante… tanto faz)

E é aqui que um tipo choca com o paradoxo de se ficar por este tipo de descrição generalista e ser acusado de não concretizar o que afirma, ou de se apontarem casos concretos e se ser acusado de ataques ao homem (ou mulher) e ao seu bom nome académico. Para além de outras acusações mais ou menos veladas e implícitas sobre a nossa capacidade para ver mais do que o umbigo ou o próprio quintal (trocadilhos do caraças!).

É toda a nossa “Ciência Social” má ou deficientes todos os estudos na área das Ciências da Educação? Nada disso, há muitos trabalhos excelentes, mesmo quando chegam a conclusões de que discordo, porque não é isso que está em causa. O problema é que aquilo que faz algumas primeiras páginas ou rodapés de telejornal não passa de fancaria à medida das circunstâncias do estipêndio material ou académico.

Declaração de interesses… tenho escassa obra publicada na área da Educação nos moldes acima descritos, mas também ´verdade que a última rejeição recebida tem bastante tempo, pois cedo aprendi que ou nos convidam ou é melhor um tipo não se cansar.

PG Verde

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4 thoughts on “Uma Vasta Obra Publicada

  1. Quando estive no IE acabei por abandonar…. mas disse ao Prof. Rogério “eu vou-me embora porque a minha batalha é lá fora, no terreno, não é aqui, a escrever coisas…” Assim fiz, até hoje. Mas repara que nunca deixei de reflectir sobre a minha prática e procurei aprender coisas novas e evoluir. Até hoje.
    Boa posta.

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