Coisas Essenciais

A falta de alguma ou mesmo muita informação pode fazer-nos pensar que entre nós se anda a desbravar terreno desconhecido em Educação, quando apenas se procuram replicar experiências, neste caso a dos EUA com os Common Core Sandards, as tais aprendizagens padronizadas essenciais que não sou apenas eu a colocar em causa por se tratar de uma visão redutora da Educação Básica, curiosamente lá implementada pela administração Obama em complemento a uma enorme padronização dos mecanismos de avaliação dos alunos. Tudo em nome do sucesso, embora lá com menos conversas fofas e mais monitorização do que apenas passar os alunos no fim.

A ler, para quem se queira informar sobre as diferentes perspectivas sobre este assunto, em vez de levantar poeira e comentar o que desconhece, porque o “pensamento crítico” e as “competências mais elevadas” carecem de alguma sustentação:

Common Core Controversy

Common Core: The Great Debate

Common Core: yes or no? A debate.

Are the Common Core Standards a Good Idea?

What are some Pros and Cons of the Common Core State Standards?

The debate over Common Core

The Common Core Debate: National Standards Can’t Save Education – But Here’s What Can

Vou aqui deixar um pouco do longo testemunho de uma das maiores especialistas internacionais em Educação e Currículo, Diane Ravitch, sobre este assunto:

I will begin by setting the context for the development of the standards.

They arrive at a time when American public education and its teachers are under attack. Never have public schools been as subject to upheaval, assault, and chaos as they are today. Unlike modern corporations, which extol creative disruption, schools need stability, not constant turnover and change. Yet for the past dozen years, ill-advised federal and state policies have rained down on students, teachers, principals, and schools.

(…)

The advocates of the standards saw them as a way to raise test scores by making sure that students everywhere in every grade were taught using the same standards. They believed that common standards would automatically guarantee equity. Some spoke of the Common Core as a civil rights issue. They emphasized that the Common Core standards would be far more rigorous than most state standards and they predicted that students would improve their academic performance in response to raising the bar.

(…)

Last spring, when it became clear that there would be no field testing, I decided I could not support the standards. I objected to the lack of any democratic participation in their development; I objected to the absence of any process for revising them, and I was fearful that they were setting unreachable targets for most students. I also was concerned that they would deepen the sense of crisis about American education that has been used to attack the very principle of public education. In my latest book, I demonstrated, using data on the U.S. Department of Education website that the current sense of crisis about our nation’s public schools was exaggerated; that test scores were the highest they had ever been in our history for whites, African Americans, Latinos, and Asians; that graduation rates for all groups were the highest in our history; and that the dropout rate was the lowest ever in our history.

Eu encontro por aqui algumas semelhanças…

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Consensuais

Quem diria que – afinal – poderiam existir tantos pontos de contacto entre uma e outro? Só que me quer parecer que ela quer consensualizar para o lado direito, enquanto ele anda mansinho que nem um cordeirinho, balindo na sua ingenuidade recém-adquirida. Basta ver como as escolas já vão passar para património municipal, tal como as rotundas.

E ouvi eu com estes ouvidinhos que infelizmente os torrões hão-de comer, o Super-M a clamar contra a municipalização com a estridência que se conhece, mas agora a amochar caladinho como se não começasse apenas a faltar o passo final para o fim de qualquer autonomia das escolas, da sua gestão e dos próprios professores. Como se fosse possível ser livre num ambiente que o não é.

Patego

Hoje, no Sol, em 3300 Caracteres

Para compensar a prosa albina, mesmo ali ao lado, pois agora parece que do lado canhoto há uma imensa dificuldade em assumir publicamente críticas às políticas em desenvolvimento.

O Currículo Mínimo

 Em declarações recentes (Expresso, 8 de Outubro e Diário de Notícias, 12 de Outubro), o actual secretário de Estado da Educação anunciou que vamos entrar em modo “suave” de reformulação dos programas de um número indeterminado de disciplinas, embora se afirme que não é bem mudar ou reformular, mas apenas definir “aquilo que é essencial que os alunos aprendam para depois permitir uma melhor gestão do tempo e do trabalho” (DN, 12/Out).

Se bem percebo é uma espécie de regresso ao conceito de “programa mínimo” como o conheci, enquanto aluno do Ensino Secundário, no início dos anos 80, quando a certa altura do ano nos diziam que uma série de conteúdos iriam aparecer no exame de 12º ano e outros não, pelo que não era preciso estudá-los. Afirma-se ser consensual que o currículo é longo mas não se acrescenta que isso é relativo, pois um programa pode ser longo ou curto dependendo do tempo que exista para o leccionar, sem repetir conteúdos de ciclo para ciclo como agora acontece. Assim como uma coisa é corrigir erros do programa de Matemática ou de certas metas do Português (como a da leitura o minuto), outra coisa falar em “currículos essenciais” e proceder à enésima remodelação do programa dessas disciplinas.

Por outro lado, parece-me um contra senso que se queiram  “promover «competências de nível mais elevado» entre os estudantes, como o «pensamento crítico»” (declarações ao DN) com base em aprendizagens mínimas. Competências de nível mais elevado implicam aprendizagens mais exigentes, mais completas e não encurtadas, caso contrário é um “pensamento crítico” à medida de quem define o que é essencial, amputado. O pensamento crítico só se constrói sobre informação ampla e devidamente tratada, não com o que seria considerado um “back to the basics” se fossem outros a defender esta formulação de “currículos essenciais”.

Para além disso, quando se afirma que as “competências de gestão de projecto, comunicação oral e escrita, de mobilização do conhecimento humanista e científico estão neste momento bastante arredados das aprendizagens devido à extensão e excessiva padronização” (Expresso, 8/Out), para além de um atestado de menoridade profissional aos professores, entra-se num domínio da pura subjectividade, achando eu mais importante que o exercício de uma plena cidadania em diversidade se fizesse através do exemplo concreto, permitindo o regresso de alguma democraticidade à vida quotidiana das escolas e ao seu modelo de gestão e de escolha das chefias. É estranho que se defenda o florescimento do espírito crítico em organizações que funcionam na base de um modelo único assente na hierarquia, nomeação e obediência.

A verdade é queesta teorização sobre “pedagogia diferenciada” se tem traduzido, ao nível dos planos de promoção do sucesso escolar, no estímulo à existência de turmas e grupos de nível, ou seja, de fenómenos de micro-segregação escolar contrários ao que é uma verdadeira diferenciação do trabalho pedagógico em sala de aula, assente num trabalho cooperativo (agora diz-se colaborativo) entre os alunos com diferentes ritmos e estilos de aprendizagem, não os separando à moda antiga, que eu acreditava ser o modo errado de fazer estas coisas. Mas, por certo, serei eu a estar enganado e desactualizado em termos metodológicos.

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Sol, 15 de Outubro de 2016… (e o Umbigo perseguir-me-á para sempre… 🙂 )

Cursus Honorum

Tenho hoje o privilégio duvidoso de ter um artigo lado a lado com uma grossa prosa do actual presidente da Assembleia Municipal de Gaia (laboratório onde o PS tem ensaiado umas coisas interessantes em Educação, mas também uma alianças mais do que duvidosas para um gosto apurado em memória…) no jornal Sol.

Enquanto eu não passei de zeco docente, a criatura ascendeu de consultor empresarial na área do sapateado a presidente da Confap e agora a quadro político do PS, não esquecendo a experiência fugaz de professor uns meses numa escola do Porto onde ganhou uma sapiência inultrapassável sobre os meandros da docência que lhe permite ser agora uma espécie de defensor oficioso do ME (à imagem do que fez em tempos rodriguistas).

A eminência albina assina um texto que me faz acreditar nas imensas qualidades da evolução ou da revisão, pois a incidência de vírgulas baixou de forma dramática, surgindo em defesa da política do currículo essencial do secretário de Estado João Costa. Confesso que quase lhe compraria o produto, não conhecesse a peça. Com a maior sinceridade do mundo, lamento que João Costa tenha de ter defensores deste calibre, porque também nos definimos pelas companhias que aceitamos. Pelo menos, se já lhes conhecemos o trajecto.

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