Comparando

Tal como escrevi ontem, cada vez que saem comparações dos salários dos professores portugueses com os de lá de fora fico sempre sem perceber que valores eles usam. Se cá estivesse legislado que recebíamos 15.000 euros à semana, mesmo que nos descontassem 14.900, acho que a comparação seria sempre a nominal e nunca a real, justificando-se tudo com “regras de contabilidade pública”, certamente sacramentadas pelo euróestáte.

Por isso, comparo-me comigo mesmo, em 2010 e agora e verifico que, apesar das imensas reversões da geringonça e dos fofinhos sindicalistas alinhados que agora nem piam para não perderem o lugar dos cotovelos à mesa com o tiago e o joão, o meu salário mensal continua revertido em quase 200 euros, sendo que aquele total para efeitos de irs aparece com aquele valor porque inclui os duodécimos de um dos subsídios que não recebo quando deveria por causa da troika ou da filoxera ou do tifo ou lá o que foi que apanhou a cabecinha de muita gente que faz estudos que mais parecem alheiras de tofu e seitan, sem desmerecer a malta que é vegetariana por convicção, mas então não lhe chamem alheira. Porque ou bem que chamamos as coisas pelo que são ou mais vale ficarmos sossegadinhos.

Embora eu saiba que a malta que nos chama, conforme os dias, discriminadores, racistas, velhos ou incapazes de inovar, nunca se calará até conseguir extinguir-nos ou que nos conformemos a tudo o que nos queiram enfiar pela goela, pois – e não me venham dizer que há grande distinção nesse aspecto entre as facções aparentemente em conflito, porque isso não se aplica a estas coisas e desamores que são comuns a muitos dos especialistas com vasta obra publicada do cne ou do isczé – se há garantia que vos dou é que o que muda é o momento em que aparecem mais à superfície.

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Há um desvio colossal entre a realidade do rendimento disponível e a representação feita nas comparações feitas em estudos bem pagos? Ohhhh se há!

12 thoughts on “Comparando

  1. Comparar, sem memória, de ânimo leve,
    É comparar, sem cerimónia, a vestimenta.
    A mensagem, eficaz, tem que ser breve,
    Diz de longe, sorridente, o almocreve,
    Se houver peso, quem carrega, é a jumenta.

    Abraço solidário, Paulo!

  2. O post diz grandes verdades, mas a parte dos “fofinhos sindicalistas alinhados que agora nem piam” parece-me alinhada, não com a realidade, mas com a narrativa que alguma comunicação social tem vindo a impor.

    Narrativa aliás algo esquizofrénica, pois tão depressa se acusam os sindicatos, nomeadamente a Fenprof, de controlarem o ministério e de Mário Nogueira ser o verdadeiro ministro da Educação, como se diz que a Fenprof foi silenciada e manietada pelo governo socialista.

    E há uma profunda hipocrisia naqueles jornalistas que se queixam do silêncio dos que eles silenciam, como demonstro em https://escolapt.wordpress.com/2016/10/19/abrindo-os-olhos-a-um-cegueta/

    1. Não me lembro de alinhar em qualquer narrativa que diga que a Fenprof domina o ME, muito pelo contrário, pois afirmo o inverso.

      Penso, já agora, é que a esquizofrenia está em quem agora se cala perante o que antes eram atentados à dignidade docente.

      Que a Fenprof mal pia, isso é um facto, não é uma opinião. Ou então pia de acordo com um guião que nem apela a qualquer “luta”.

      Eu, em regra, “alinho” com o observo e há um ano que o zé lutador da minha zona nem voltou a colocar os pés na minha escola, quando em outros tempos aparecia a clamar pela “luta”.

      Claro que há quem veja para além do nevoeiro e consiga ver o sebastião a sair de alcácer-quibir.

      1. Eu não sei quantas pessoas estão presentes naquelas conferências do Aqeduto ou lá o que é, mas desconfio que serão mais jornalistas do que profissionais do sector.
        Pelo menos saem notícias sobre os estudos da treta antes, durante e depois.

        No post que linkei, dou o exemplo de uma conferência sobre professores e educação com mil e tal professores a assistir, com a intervenção do Nóvoa, do Licínio Lima e outros que não precisam de se rotular “investigadores” para nos prenderem a atenção com o que têm para dizer.
        No final, falou Mário Nogueira e enunciou as muitas razões de queixa que continuamos a ter, e as tais “lutas” que continuam por travar.
        Cobertura jornalística do evento, zero.

        Portanto a questão é, e sem apelar a sebastianismos serôdios: a Fenprof piar, pia.
        Há é quem prefira não lhe amplificar o pio.

        E até vai fazendo mais do que piar – hoje o SPN meteu o governo em tribunal: https://escolapt.wordpress.com/2016/10/18/intervalos-no-1o-ceb-ministerio-em-tribunal/

  3. Há uns anos, durante o consulado Sócrates-Maria de Lurdes a blogosfrea em geral e, especialmente, as caixas de comentários dos jornais estavam atrolladas de socretinos que, sob diversos pseudónimos, atiravam sobre os funcionários do Estado e dos professores em particular, sob qualquer pretexto, chamando-lhes privilegiados, preguiçosos, chulos do contribuinte, etc. etc.

    Uma vez, um desses trollos descobriu que, a meio da carrira um professor norueguês ganhava menos que um português. Sempre duvidei, mas resolvi responder: se isso é verdade é só aparecerem lá por casa as contas do dentista, do lar da terceira idade dos pais, das propinas universitárias dos filhos, dos manuais escolares, das consultas no privado por falta de resposta do SNS, etc. Nessa altura veremos quem ganha mais.

    Sim, porque ninguém se importaria de ganhar menos se recebessemos os abonos de família (e os abatimentos aos impostos) dos franceses, dos alemães ou dos suecos. Os lares fossem pagos por quem os utiliza, com a eventual ajuda do estado, e não pelos familiares. E assim sucessivamente.

  4. O que sei dizer, é, fartinha de ficções à exceção da que está nos livros, músicas, com Nobel ou sem ele! Já não suporto ouvir dizer que se restitui poder de compra….quando tudo aumenta, quando tudo está mal, muito mal! !!!!!

    1. Isso é a velha discussão de outros tempos…

      Claro que não o fez, nem poderia fazer, por duas ordens de razões:
      1º Não é o que a conjuntura política recomenda, por razões mais do que evidentes;
      2º Não é o que a maioria dos professores pretende.

      Aliás, já no tempo do Nuno Crato, poucas acções desse género se fizeram; o pessoal já não está para isso, como sabes, por razões que intuitivamente percebemos bem mas demorariam a explicar.

      1. Repondo algum rigor na argumentação… nos tempos de Crato fez-se uma greve às avaliações com sucesso, que o colega Mário e a FNEprof desconvocaram porque leram nas borras do café que os professores não a pretendiam continuar.

        A partir daí nem valia a pena esperar e seguir seja o que for de “lutas” por encomenda.

        Quanto aos dois pontos:

        Então sempre se confirma que as lutas docentes se regem por interesses exógenos e que a FNEprof faz essa avaliação para decidir, sequer, das suas proposytas.

        O segundo ponto baseia-se em que “estudo científico-sindical”?

        O último em forma de ampla consulta foi sobre a municipalização deu um resultado inequívoco e a FNEprof atirou-o para a gaveta. E eu vi com estes olhos o Mário Noguieira a vociferar num debate do CNE a garantir que era luta ou muerte.

        Sim, é verdade… há “alinhamentos” curiosos e credibilidades nulas.

  5. Não é 1 questão de se ver D. Sebastião a sair do nevoeiro em A. Quibir.
    São outras questões que não têm a ver com nevoeiros….antes pelo contrário.

  6. Paulo… não sou porta-voz da Fenprof, embora nos tempos áureos do Umbigo fosse por vezes tomado como tal.

    O problema de fundo é mesmo esse que referes no final, o da credibilidade. O pessoal não acredita nos sindicatos, tomados pelos partidos porque os não tomaram os professores como seus.

    Acho que os professores não acreditam sequer em si próprios, e na sua capacidade para lutas como as que já se fizeram. A classe está descrente, desgastada, envelhecida, e muitos dos melhores e mais solidários nestas coisas colectivas já se foram embora.

    E depois há a noção de que isto tudo está por um fio, gerido com pinças entre desfalques de banqueiros e reivindicações sectoriais, exigências de Bruxelas e compromissos com os parceiros da coligação. Ninguém está disponível para braços de ferro a ver se isto rebenta, porque há a noção de que a alternativa a este equilíbrio instável será ainda mais austeridade.

    E para intuir isto não são precisos estudos a meter água, basta ir ouvindo as conversas de sala de professores.

    Já a greve às avaliações dava para uma longa conversa…

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