Um Rosto do Nosso Tempo

Trump não é um caso isolado, com uma atitude estranha ao que nos envolve. Ele apenas chegou mais longe do que se esperaria nos EUA. Mas ele é apenas mais um dos que aceitam as regras e as leis desde que elas sejam a seu favor (na fuga a impostos como na vida política) ou que possam ser mudadas ao gosto dos poderes de passagem (para evitar acusações, facilitar amnistias). Por cá, há quem se afaste dele em termos públicos, mas que inveja a forma como ele actua e pouco secretamente gostaria que ele vencesse e o seu exemplo vingasse por mais lados. Só que, como parece que vai perder, não querem ver-se associados ao seu fracasso.

O sistema eleitoral americano é bastante esquisito para o meu gosto, mas foi com ele que Trump chegou a este ponto. Dizer agora que só o aceita se ganhar é apenas a evolução natural de alguém que, como tantos outros, só se queixa do jogo se as regras não lhe permitirem cinco ases.

Facilidades

Algum dia eu haveria de discordar do David Rodrigues no conteúdo e intenção de um dos seus artigos. Por vezes, tenho algumas reservas em relação à sua visão optimista do mundo, mas é defeito meu. Neste caso, discordo do seu excessivo pragmatismo em defesa da situação que há na Educação.

Sobre a instabilidade, nem vale a pena falarmos muito, pois já se prometem novas mudanças curriculares ainda nem as anteriores aqueceram o lugar.

Fiquemo-nos pela recusa que o David enuncia quanto à tese do facilitismo das actuais políticas do ME. Eu discordo do termo em si, mas concordo que as actuais medidas primam pelo caminho fácil em alguns aspectos como, por exemplo:

  • A prática recomendada de dividir as turmas por grupos de nível dos alunos para melhor trabalhar com eles em grupos homogéneos. Sim, é mais fácil trabalhar dessa maneira, embora as práticas de tracking e ability grouping dos alunos tenham sido longamente criticadas por impedirem uma pedagogia verdadeiramente diferenciada em sala de aula e por promoverem uma espécie de ensino micro-segregado, mesmo quando as turmas se juntam em determinados momentos. A coisa é tanto mais criticável quanto os actuais governantes fomentaram intensa crítica à separação dos alunos com nee do resto das turmas por ser uma estratégia discriminatória, acusando disso os professores que elabora(va), os currículos desses alunos dessa forma.
  • A prática já aceite o ano lectivo passado e justificada com a legislação em vigor de aceitar a transição de alunos com um número indeterminado de classificações inferiores a três no 2º e 3º ciclos do Ensino Básico. Parece-me indesmentível que é mais fácil obter assim taxas de sucesso mais elevadas. Se isso é aceitável de um ponto de vista da própria justiça e equidade para com os colegas, não parece ser algo que preocupe minimamente seja quem for, excepto alguns anacrónicos professores estranhos e arcaicos como eu.
  • A anunciada redução dos conteúdos programáticos em algumas disciplinas é outra medida que até foi assumida como destinada a tornar mais fácil leccionar os programas aos alunos. Resta saber se essa redução não será acompanhada pela equivalente (ou proporcionalmente maior) redução dos tempos lectivos para leccionar os chamados “conteúdos essenciais”, pois desse modo tudo acabaria mais ou menos na mesma, embora certamente tornasse mais fácil fazer as poupanças necessárias para oferecer manuais e alargar o pré-escolar com o menor investimento possível.

Mas nenhuma coisa concordo claramente com o David… estas são matérias que devem ser discutidas “a partir de dentro”, por quem sabe o que está em causa, se possível pensando nos alunos, nas suas aprendizagens e não apenas no interesse em não sobressaltar a geringonça educativa.