Facilidades

Algum dia eu haveria de discordar do David Rodrigues no conteúdo e intenção de um dos seus artigos. Por vezes, tenho algumas reservas em relação à sua visão optimista do mundo, mas é defeito meu. Neste caso, discordo do seu excessivo pragmatismo em defesa da situação que há na Educação.

Sobre a instabilidade, nem vale a pena falarmos muito, pois já se prometem novas mudanças curriculares ainda nem as anteriores aqueceram o lugar.

Fiquemo-nos pela recusa que o David enuncia quanto à tese do facilitismo das actuais políticas do ME. Eu discordo do termo em si, mas concordo que as actuais medidas primam pelo caminho fácil em alguns aspectos como, por exemplo:

  • A prática recomendada de dividir as turmas por grupos de nível dos alunos para melhor trabalhar com eles em grupos homogéneos. Sim, é mais fácil trabalhar dessa maneira, embora as práticas de tracking e ability grouping dos alunos tenham sido longamente criticadas por impedirem uma pedagogia verdadeiramente diferenciada em sala de aula e por promoverem uma espécie de ensino micro-segregado, mesmo quando as turmas se juntam em determinados momentos. A coisa é tanto mais criticável quanto os actuais governantes fomentaram intensa crítica à separação dos alunos com nee do resto das turmas por ser uma estratégia discriminatória, acusando disso os professores que elabora(va), os currículos desses alunos dessa forma.
  • A prática já aceite o ano lectivo passado e justificada com a legislação em vigor de aceitar a transição de alunos com um número indeterminado de classificações inferiores a três no 2º e 3º ciclos do Ensino Básico. Parece-me indesmentível que é mais fácil obter assim taxas de sucesso mais elevadas. Se isso é aceitável de um ponto de vista da própria justiça e equidade para com os colegas, não parece ser algo que preocupe minimamente seja quem for, excepto alguns anacrónicos professores estranhos e arcaicos como eu.
  • A anunciada redução dos conteúdos programáticos em algumas disciplinas é outra medida que até foi assumida como destinada a tornar mais fácil leccionar os programas aos alunos. Resta saber se essa redução não será acompanhada pela equivalente (ou proporcionalmente maior) redução dos tempos lectivos para leccionar os chamados “conteúdos essenciais”, pois desse modo tudo acabaria mais ou menos na mesma, embora certamente tornasse mais fácil fazer as poupanças necessárias para oferecer manuais e alargar o pré-escolar com o menor investimento possível.

Mas nenhuma coisa concordo claramente com o David… estas são matérias que devem ser discutidas “a partir de dentro”, por quem sabe o que está em causa, se possível pensando nos alunos, nas suas aprendizagens e não apenas no interesse em não sobressaltar a geringonça educativa.

3 thoughts on “Facilidades

  1. E eu discordo do Paulo Guinote, porque não argumenta bem.
    Vejamos:
    – não é verdade que haja recomendação de dividir as turmas por nível. Essa é uma crítica feita ao modelo da Turma +, que não é um modelo de turmas de nível. Só se for mal implementado e mal percebido.
    – a transição de alunos como excepcional não é de agora. Está na legislação há décadas e não é por isso que os alunos chumbam menos.
    – não vi em lado nenhum que a redução dos currículos seja para os tornar mais fáceis. Minto: li neste blogue 🙂
    Acho, na verdade, que o caminho que se está a seguir, para além de uma lufada de ar fresco no sistema, é muito mais difícil, porque exige muito mais conhecimento de cada aluno.
    Já sei que me vai insultar, mas eu sou boa pessoa 🙂

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    1. Insultar?
      Porquê?

      Mas identifico facilmente quem é pelo padrão da argumentação.

      Explico-me:

      1) Em nenhum momento referi o projecto Turma+, não percebo essa fixação em defender os projectos pessoais de alguém. O que existe e está generalizado por uma formação é a recomendação para que se constituam grupos de alunos “homogéneos” em termos de desempenho. Veja-se a maioria das propostas aqui: http://www.dge.mec.pt/portefolio-de-praticas

      2) A transição de alunos com um número maior de negativas do que o que era habitualmente aceitável (depois de isso ter acontecido há uns anos) tinha caído em desuso, mas ganhou nova força com o despacho 1-F/2016, embora se possa dizer que já antes estava legislado :-). O “problema” é o que se “recomenda” informalmente para que exista sucesso, sem deixar muito mais rasto do que a palavra.

      3) Se não leu que o emagrecimento curricular se destina a uma simplificação dos programas pela sua redução ao “essencial” ou “mínimos obrigatórios” (expressão numa peça do DN atribuída a um director que apoia a medidahttp://www.dn.pt/portugal/interior/curriculos-do-1o-5o-e-7o-ano-resumidos-ao-essencial-ja-em-2017-5436771.html ) é porque anda distraíd@. Mas… o que escrevi acima não se refere a isso mas uma espécie de soma nula “menos conteúdos/menos horas”.

      Já agora… não apareça (mesmo que com nicks diferentes) apenas quando eu critico um dos “vultos” da situação actual (Verdasca, A. Almeida, etc) ou quem defende as medidas da dita situação. Tenha um “espectro” mais amplo… O resto… enfim, não passa de verdasquices.

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  2. Cara Ana Silva: transitar cada vez mais e mais os alunos que nada fazem na escola, e por mim, nem deveriam lá estar, pois as suas etnias são contra o estar na escola mas há que os mandar à escola, pois só assim recebem o rendimento mínimo ou lá o que seja; alunos com 17 anos no 7º ano de escolaridade , que recusam já não digo aprender mas que querem é destruir, destruir.E transitam depois de insultos a professores, funcionários, e vão continuar impunes até aos 18.
    Desde que em setembro, a começar o ano lectivo , os professores de Português e de Matemática tiveram de rever, again!!! , o que é essencial para estas disciplinas, como se isso já não fosse o que qualquer escola faz, passando agora pela recomendação para que as escolas ( viva a autonomia!!) descubram , again, o que são conteúdos essenciais…. permita-me que lhe diga que desta vez sou eu quem discorda da senhora. Acho estranho que tenha logo achado que seria insultada pelo autor deste blogue. Um “parti pris” desnecessário. Nem sempre estou de acordo com ele, e com demais pessoas, mas o insulto nunca veio de Paulo Guinote.
    Sou de esquerda. Gostaria imenso que o Ministro da Educação, a Catarina Martins , etc , estivessem já não digo a dar aulas, mas nos corredores e recreios de muitas escolas. As agressões continuam, e não me venha com a treta da denúncia. São funcionários operacionais, como lhes chamam, e no caso que conheço é a segunda agressão. Nada denunciado. As estatísticas vencem. O medo também e eu compreendo-os. A maioria nem efectiva está e ganham 600 euros se tanto. Fora os eleitos que vão ganhar 2,5 euros à hora. Já acontecia. Que o actual governo mantenha este valor, …eu vou ali ver se chove,. And I rest my case.

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