Incompreensão

Quando escrevi aqui e no Público Online sobre o envelhecimento do corpo docente das escolas e as suas consequências houve alguém que, só se identificando ao segundo mail, me acusou de estar ao serviço de uma cabala mediática para apoucar os professores, não se justificando tal queixa, atendendo aos exemplos que me apresentou de indivíduos com mais de 50 anos que desempenham altos cargos nacionais e internacionais. Passo a citar ipsis verbis e cores e tudo:

Pois dou-lhe exemplos (“randomly“) de pessoas com mais de 50 anos, mais de 60, mais de 70 que desempenham cargos bem desgastantes e ninguém se lembra de dizer que pertencem a uma classe envelhecida.O Sr. Paulo Guinote não compreende que está a fazer parte de uma campanha anti-professores ? Que isto agora da idade é apenas mais uma forma de atacar a classe docente portuguesa?
Pois o Obama que governa o país militarmente mais poderoso do mundo tem 56 anos de idade,
o Guterres tem 67 anos e vai secretariar a Onu,
o Marcelo Rebelo de Sousa tem 68 anos, a Angela Merkel tem 63, 
o professor Quintanilha tem mais de 65 anos, o professor José Gil tem 77 anos de idade,
a professora Maria Filomena Molder tem 69 anos de idade,
o professor  João Lobo Antunes tem mais de 70, o professor Daniel Sampaio acaba de se reformar com 70 anos, o Dr. Pinto Balsemão tem 78 anos,   etc, etc,
e eu pergunto-lhe, colega Paulo Guinote  :   ALGUÉM DIABOLIZOU ESSAS PESSOAS COM O ARGUMENTO QUE ESTÂO ENVELHECIDOS PARA DESEMPENHAR OS SEUS CARGOS ? Não, claro !!
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Há sempre algo que me escapa quando pessoas que criticam as posições alheiras não as conseguem entender ou nem sequer conseguem desenvolver um raciocínio alternativo. A pessoa em causa não parece ter percebido a diferença entre toda uma classe profissional e indivíduos específicos, nem sequer o abismo que divide a forma de exercer essas profissões mega-VIP, em contextos profundamente selectivos e leccionar 9 ou 10 turmas de 20, 25 ou 30 alunos, a um ritmo diário de 150 alunos.
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Mas, infelizmente, quem se afirma como maior defensor@ da classe docente contra conspirações tenebrosas, parece não identificar o problema nuclear de tudo isto, o horário ao minuto, a carreira congelada, o raspar do tacho de minutos remanescentes e a exigência de um ensino individualizado num contexto de massificação do quotidiano docente.
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Talvez mais estranho – ou não, porque estas luminárias lutadoras andam muito amansadas – em tão furioso mail não vislumbrei qualquer crítica à não reversão da proletarização da profissão docente ou da minutagem “eficaz” do seu exercício.
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Não vou acreditar em cabalas conspirativas ao nível da domesticação da radicalidade lutadora, vou apenas crer que foi uma infeliz distracção.
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O que eu perguntaria a esta pessoa é se acha bem que exista uma profissão com a importância da docência, com um elevadíssimo nível de interacções diárias com os alunos, que tenha condições de trabalho deste tipo e se isso é apenas responsabilidade da comunicação social ou se não será resultado de opções políticas QUE PERMANECEM (já que gosta de maiúsculas).
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Eu sei que há quem ache que muitas vezes repito os meus argumentos. É bem verdade. Mas, enquanto a realidade permanecer, não vejo razão para ser de outra forma.
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5 thoughts on “Incompreensão

  1. Das três uma:
    – Há quem não entenda o que lê, mesmo sendo docente!
    – Faz parte da direção, dá umas aulinhas( daquelas disciplinas que nem se fazem testes) e não quer perder o tacho!
    – É masoquista e gosta muito disto tudo!
    Paulo, lamento que tenhas que levar com estes cromos no teu e-mail 😦

  2. O bold diz tudo:
    (…) A pessoa em causa não parece ter percebido a diferença entre toda uma classe profissional e indivíduos específicos, nem sequer o abismo que divide a forma de exercer essas profissões mega-VIP, em contextos profundamente selectivos e leccionar 9 ou 10 turmas de 20, 25 ou 30 alunos, a um ritmo diário de 150 alunos.(…)

  3. Quando o meu trabalho for conversar com os pares, aparecer nuns eventos, viajar a expensas do Estado/Instituição representada, ler uns discursos e dar umas entrevistas, tudo isto preparado por um batalhão de secretários, assistentes e colaboradores, também quererei trabalhar até aos 150 anos.
    Enquanto o trabalho for entreter, sempre em conjuntos de 30, os filhos que os próprios pais, individualmente, não conseguem aturar, gostava que pelo menos reconhecessem que a docência, quanto mais básico o nível pior, é algo que corrompe indelevelmente a vontade e vitalidade humana.

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