Antes Mentiroso?

Apreciei hoje a indignação de muitos deputados por um deles ter sido classificado, em frase adversativa, como eventual portador de uma “desvinculação cognitiva temporária“. Atendendo aos disparates que se ouvem pelo hemiciclo parece-me uma designação até bastante elegante para o nível demonstrado em muitas intervenções que por lá se fazem. Curiosamente, nunca vi tamanha indignação, capaz de interromper a própria sessão, com acusações de “inverdade” ou “o que disse não é verdade/é mentira”. Não sei se com “vossa excelência, senhor deputado” a acusação deixa de ser a de “mentiroso”. Há casos (aqui e aqui, por exemplo) bem recentes de coisas bem mais graves do que a de, de forma temporária, um parlamentar ter ficado com a cognição afectada. E fora do Parlamento é trigo limpo, até com o pseudo-punhos de renda Rangel.

E nem é bom falar da justificação da condenação de uma cidadã exactamente porque incentivou um ex-PM a demitir-se a partir das bancadas.

Frade

Os Próximos, Sereis Vós!

Neste caso, os professores de Educação Especial. A menos que consigam ainda exercer alguma influência, soft power ou o que seja para, depois de enviarem os alunos com NEE para quase todas as aulas alegando que isso é inclusão, não serem vós a ser enviados para algures, visto já serem necessários muitos menos. E mandarão descer à Terra um paralítico explicar a todos nós que é assim que se garante a equidade e que ele, como paralítico, é que sabe e que quem outra coisa disser é um preconceituoso e uma criatura sem o coração no sítio da cabeça.  Não dizei, depois, que não vos avisei. Tomara estar errado.

carrossel

Descrença

Uma das piores coisas que me pode acontecer é ver um@ alun@ começar a desacreditar na justiça do sistema, neste caso educativo, porque as coisas não funcionam ou funcionam de forma enviesada, desprezando os que cumprem e que querem fazer algo, preferindo beneficiar os infractores sem arrependimento, os que gozam com as regras e ainda são tratados como se fossem os rebeldes capazes da revolução que nenhum dos verdascas ou sebastiões fez ou fará. No meu caso, só senti essa injustiça e razoável descrença já pela Universidade, quando tive a certeza que as prostituições intelectuais eram mais apreciadas do que o gosto – no caso – pela História ou que a entrada para uma obra pagã ou cristianíssima era uma das melhores opções de vida para os invertebrados. Mas com o tempo aprendi a viver com isso e que se lixe. Mas, quando ainda se dão alguns dos primeiros passos, é demasiado cedo para começar a descrer (a minha petiza desgostou-se muito mais cedo do que eu… os tempos não melhoraram… o darwin reformou-se) de algo que deveria ter mais obsessões do que produzir sucesso artificial, na forma de estatísticas para vã glória dos seus arquitectos, e sentir uma maior necessidade em criar cidadãos que não se tornem cínicos quando a vida ainda deveria ser de alguma confiança nisto tudo. Como professor, não sei se faço bem em tentar prolongar o que talvez seja apenas uma ilusão… a de que devemos procurar ser justos e que merecemos todos ser tratados com justiça. Aprender um pouco do que deve ser a cidadania e essas coisas de que alguns falam. Pelo menos, nas escolas públicas. Já que fora delas…

Justiça

Maturidade

Um destes dias “numa rede social”, uma amiga (olá, Reb) interrogava-se sobre o que lhe tinha trazido a maturidade, em termos pessoais e profissionais. A mim, respondi, trouxe em primeiro lugar algumas dores nas costas. Em seguida, acrescento agora, trouxe-me a certeza de ter dúvidas quanto ao acerto de dezenas de decisões que tomo por aula, por dia, sobre as opções que assumo, sendo as pedagógicas as menos complicadas. É muito mais problemático sabermos até que ponto, em alguns contextos, estamos a trabalhar sempre no fio da navalha e a fazer avaliações instantâneas com influência no estado de espírito e mesmo na vida de dezenas de miúdos. Algo incompreendido pelos especialistas de gabinete e grelhas ou académicos de anfiteatro domesticado e quedo.

A maturidade não mudou, porém, o essencial: a capacidade para pedir desculpa quando percebo que errei numa apreciação ou observação sobre, por exemplo, um aluno ou para admitir que há metodologias a reavaliar se não funcionam. Nem mudou a minha impaciência com os adultos que se portam pior perante a necessidade de aprender algo novo do que as crianças e jovens que criticam. O facto de estarmos mais velhos, cansados e irritados nem sempre justifica outras coisas. Amadurecer não tem de significar apodrecer. Pelo contrário, até costuma tornar os frutos mais saborosos.

up+main

O Chamado Exemplo de M€rd@

Manuela Ferreira Leite usou ontem, para defender a privacidade dos rendimentos dos administradores da CGD, o exemplo de que, se fosse ela, caso ganhasse o Euromilhões, não gostaria que isso se soubesse.

Ora bem. Vou deixar passar os cinco primeiros comentários jocosos ou sarcásticos que me ocorrem perante a coisa dita.

O sexto comentário, mais moderado, é que se ganhasse o Euromilhões, eu:

  • Ou me estava nas tintas para a CGD e ainda mais para ir para uma administração com historial de cardonas&varas.
  • Ou ia e nem cobrava salário.

(mas compreendo que em outros casos sobrasse pouco após o dispêndio mensal em laca).

Turd

Os Têpêcê (Novamente)

Fica em seguida o meu depoimento completo para esta peça do Educare:

TPC: sim ou não? E por que razões?
Sou favorável ao recurso moderado aos trabalhos de casa, não achando razoável uma resposta absoluta para todos os níveis de ensino e disciplinas. Como professor de História recorro a eles numa perspectiva de pesquisa a médio prazo, em que solicito aos alunos que façam pesquisas sobre um determinado tema e elaborem pequenos trabalhos num horizonte de duas a três semanas. Como professor de Português, o mais comum é solicitar a leitura de textos a trabalhar em sala de aula ou apenas completar algum exercício que tivesse ficado por fazer em aula. Só em situações excepcionais peço trabalhos sem ser a alguns dias de distância e tento saber se os alunos já os têm de outras disciplinas.

Há os que defendem os TPC como forma de incutir métodos de estudo. Há os que dizem que os TPC tiram tempo de brincar às crianças e tempo de qualidade em família. Qual a sua opinião?
Tudo tem o seu meio termo e muito depende da metodologia. Acho importante que, por exemplo em disciplinas como Matemática, os alunos possam fazer exercícios fora da aula e depois possam colocar dúvidas aos professores acerca do que não entenderam. Ou nos primeiros anos, o pedido de exercícios de escrita e caligrafia, por muito conservador que isso possa parecer a alguns pedagogos do momento. Em outras disciplinas acho que, por vezes, se exagera no pedido de tarefas que deveriam ser desenvolvidas em sala de aula. Discordo radicalmente de exercícios como cópia de páginas de manuais para o caderno ou outras tarefas desse tipo.
O tempo para brincar pode sempre existir e não é uma hora por dia que o inviabilizará. Preocupa-me mais que muitos pais não tenham horários que lhes permitam ajudar os seus filhos e acompanhá-los nas tarefas escolares, algo que também pode ser encarado como “tempo de qualidade”.

Como deve a comunidade educativa abordar este assunto? Faz sentido repetir rotinas escolares em casa ou os TPC são fundamentais para consolidar aprendizagens?
Os trabalhos para casa são importantes para consolidar aprendizagens em algumas disciplinas e conteúdos e não como forma de “apresentar serviço” inconsequente. Deve ter um objectivo significativo para os alunos e devem ser integrados no trabalho em sala de aula e não como tarefa mecânica e destinada apenas a verificar se estão feitos ou não.

Alunos e pais queixam-se da sobrecarga dos TPC, os professores sentem-se sobrecarregados com os currículos. Poderá haver aqui um equilíbrio?
A sobrecarga de tarefas relaciona-se com o tempo disponível para as realizar. Lamento que se tenha abdicado de reclamar melhores condições laborais para os pais com crianças em idade escolar, em particular no Ensino Básico. Quanto ao currículo, ele sobrecarrega-me se me exigirem que leccione conteúdos equivalentes na extensão aos de há uma ou duas décadas e me derem pouco mais de metade do tempo que então tinha. O problema é a relação entre o tempo disponibilizado para cumprir determinado programa. E a solução tem sido, quase sem excepção, mesmo quando se multiplicam metas, encurtar os conteúdos e simplificá-los por forma a que seja possível “produzir sucesso”. As medidas tomadas nesta área têm sido ditadas por imperativos financeiros e não pedagógicos ou então por derivas demagógicas, sejam as da exigência e exames (por exemplo, no mandato do anterior ME), sejam as da pressão para transitar os alunos a qualquer custo, para diminuir despesa e alimentar estatísticas (que é o que me parece ser o que se passa actualmente).

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