Causalidades, Co-relações e Coisas Assim

A propósito de um comentário do Ex-Alt, lembrei-me de uma deliciosa paródia historiográfica do Carlo Cipolla (pp. 11-49 do livrinho reproduzido abaixo, que tem tradução portuguesa), na qual relaciona o desenvolvimento económico medieval com a Idade Média, atribuindo ao bispo de Bremen e a Pedro, o Eremita grande parte dessa responsabilidade por gostarem muito de, respectivamente, mel e comidas picantes. O texto culmina com a explicação da origem do Renascimento com a desilusão dos banqueiros florentinos com a bancarrota do rei inglês no final da guerra dos 100 anos, pois se nem era possível confiar num cavalheiro inglês mais valia dedicarem-se à cultura e às artes.

O texto é de 1973 e representa um exercício maravilhoso de aplicação de um raciocínio falacioso à explicação histórica, apresentando como causalidade o que não passam de acontecimentos paralelos ou sequenciais no tempo. Não sei porquê, lembrei-me de muitas das leituras sobre os TIMMS e PISA.

Para dar um outro exemplo de como podemos ter a tentação de estabelecer causalidades mais do que duvidosas, encaremos um problema que preocupa muita gente minha amiga e apenas perifericamente a mim: o facto de eu ter engordado uns bons quilos nos últimos 20 anos. Constatei que desde o nascimento da minha filha (2003, ano de PISA) engordei cerca de 12 quilos e que desde o ano em que voltei a leccionar na minha actual escola (2006, outro ano de PISA), aumentei perto de 10. Será possível estabelecer um nexo de causalidade? Ou mesmo mais? É tentador, pois posso sempre dizer que o aumento dos meus níveis de stress podem ter levado a que eu começasse a comer mais desde 2003 – explicando a passagem a um estado de pré-obesidade – ou que desde 2006 voltei ao meu hábito de dois pequenos almoços (o das 7.30 e o das 10), o que terá tido efeitos decisivos na chegada à presente obesidade. Também poderia estabelecer uma relação de causalidade com o mandato de MLR, pois ali por 2008-09 já estava bem acima dos 90 quilos, o que pode ser fruto de uma canalização escapista da depressão profissional para a comida.

O problema é que eu comecei a engordar desde meados dos anos 90 (1995, ano de TIMMS) e esse aumento foi constante, pelo que nenhuma das razões que podem parecer evidentes para o período posterior a 2003 explica que eu já tivesse ganho balanço e peso na década anterior. Foi um processo contínuo que, curiosamente, teve uma co-relação temporal com outros fenómenos da minha vida. E que, se formos ver além da superfície e das ocasionalidades, tem uma forte componente genética familiar. Ou seja, algo aconteceu da forma que, quase com toda a certeza, atendendo a alguns factores congénitos associados a um estilo de vida, aconteceria, com maior ou menor rapidez, a menos que eu me submetesse a andar de lycra e selim espetado no rabo todos os fins de semana ou a suar as estopinhas no ginásio, de boca fechada, alimentando-me apenas de olhar para os raros casos em que as zumbadelas e os cardio-coisos e stépes conseguem mesmo emagrecer duradouramente alguém.

Mas podemos sempre dizer que foi por causa da entrada de Portugal na CEE.

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7 thoughts on “Causalidades, Co-relações e Coisas Assim

  1. Discutiram-se muito (e não só aqui, é claro!) se foi o pai ou a mãe, o pai e a mãe, ou a “família alargada” (esta partir do texto da Barbara Wong). Há no entanto um fator que não veio nunca mencionado: a Iniciativa Novas Oportunidades. Desde já declaro que trabalhei no programa, mas não quero colocá-lo em nenhum pedestal. Mas estou convencido que terá, não sei bem em que grau já que foi extinto abruptamente (pelo Dr. Crato, claro! e sem que tenha sido devidamente avaliado) contribuído para um aumento da literacia global da população e para um maior empenho dos pais que o frequentaram no seguimento do percurso escolar dos filhos.

    Estas foram, pelo menos as conclusões principais de um estudo feito pela Escola Superior de Educação de Coimbra para a ANQ. Claro que muitos desconfiarão das conclusões porque o estudo foi coordenado por pessoas identificadas com o programa. Não foi este, nem qualquer outro dos estudos realizados que moldou a minha opinião, mas sim a experiência. Uma coisa é certa: um milhão de indivíduos “voltou á escola” no âmbito desse programa. Por pior que fosse, não podia deixar de causar impacto a vários níveis. Só que nada disso foi realmente estudado e medido. Desde logo porque Portugal, por decisão do Governo – não sei agora qual, mas li isso na altura – , abandonou o programa de medição da literacia (não me lembro também do nome em concreto, mas trata-se daquele que compara a literacia global da população dos diversos países em termos transversais), o que não permitiu avaliar o seu impacto imediato.

    1. Vou ser muito claro a esse respeito: o contributo das NO para estes resultados terá sido ínfimo.
      O “milhão” de pessoas que voltou à escola, por essa lógica, se tivesse ido à Universidade, também teria saído de lá diplomado.
      Houve coisas boas e más nas NO. Em meu entender, a operação de propaganda foi a pior e maior parte. Os estudos feitos – esse de Coimbra, mas também o da Católica – provaram aquilo que era suposto provarem.

      1. Ínfimo? Porquê? Lá está: não houve uma verdadeira avaliação. Cada um fica com a impressão que tem.

        A questão não tem nada a ver com diplomas. Os diplomas, em si, não representam nada.

        Se nada, em termos formativos, tivesse sido feito e o programa se tivesse traduzido numa simples distribuição de diplomas, seria levado a crer que sim, o contributo teria sido ínfimo.

        Deixemos a questão da propaganda e, mais grave que isso, das “metas” (essas sim, levaram à descredibilização do programa) e do deficiente controle da sua execução. àparte isso, não se fez nada? Se houve “coisas boas” quais foram? Não tiveram impacto? Nenhum?

        O curioso é que o programa já teve impacto a outros níveis. Um exemplo: fiz parte de um dos “painéis” ouvidos pelos inspectores que avaliaram uma escola onde estive transitoriamente. Queixavam-se estes que essa escola tinha resultados abaixo da média atendendo ao nível de escolaridade dos pais. Chamei a atenção para o facto de, os alunos, quando declaram a escolaridade dos pais, colocarem o nível mais alto de educação. Na turma de que era diretor, a generalidade das mães tinham o 12º ano. Verifiquei que cerca de metade o tinham realizado nas NO. Foi isso que disse aos inspetores, que ficaram um bocado embatucados…Não tinham pensado nisso!

  2. Vamos a ver se nos entendemos… quem dá valor à Educação dá independentemente da escolaridade que tem ou declara, com ou sem diploma.

    Os meus pais tinham ambos a 4ª classe… não é por isso que davam menos valor à Educação do que muita gente que anda por aí a certificar-se…

    O que interessa é a interiorização do valor simbólico (até mais do que material) da Educação.

    O “ínfimo” resulta dos poucos casos em que quem foi para as NO mudou a sua atitude perante a Educação… e em muitos casos quem mais o atribuiu foram os mais velhos… os mais novos foram para lá certificar-se porque dava jeito ter essa habilitação no emprego. Mesmo que nada tenham aprendido.

    Eu sou um bocado “protestante”… ou a “ética” (neste caso educacional) está lá (cá) dentro ou não há diploma que a enxerte.

    1. Eu não falei em mudanças de valores. É preciso que se note que o programa não se limitou ao RVCC, que é a parte mais conhecida. Houve muita gente que frequentou formação a vários níveis: Português, línguas estrangeiras, tecnologias, em conjunto ou não com procesos de RVCC. E, noutras vias, mesmo de disciplinas curriculares dos atuais programas. É claro que nem sempre isso terá acontecido, mas falo da minha experiência. Acho que foi a parte mais positiva, e pode ter tido alguma influência, por via de um aumento da literacia. Pode, porque, por falta de avaliação isenta, não o saberemos.

      Um aspecto curioso: na “reforma” do sistema operada sob a direção de Crato proibiu-se a formação durante o processo (além de outras medidas absurdas como a introdução de provas finais, tipo exame…). A formação só podia ser realizada quando estivesse concluído e a certificação não fosse total. Ou seja, eliminou-se o que de mais positivo existia.

      Nas alterações legislativas mais recentes a formação, que antes era facultativa, passou a ser obrigatória, num mínimo de 50 horas. Embora, até hoje, não existam quiasquer orientações sobre essa matéria.

      1. Só mais um apontamento: é apenas um fator em muitos. Qual a contribuição de cada um? Será difícil de precisar. Lembro aqui outro, que foi trazido pela Barbara Wong: o “treino” das questões dos testes do PISA, induzido pelo IAVE. Realmente, há uns anos, o IAVE publicou um livrinho intitulado “”1000 itens” (de Matemática, não sei se existiriam para outras disciplinas), que foram amplamente utilizados na sala de aula pela generalidade dos professores no âmbito do chamado “Plano da Matemática”. Esses itens seriam próximos dos que eram utilizados nos testes do PISA, e os alunos que agora têm 15 anos tiveram de resolver muitos deles. Não haverá influência? Certamente que sim. Há uns anos li algures uma entrevista com um professor irlandês que explicava a grande progressão dos alunos irlandeses a Matemática em apenas três anos (entre dois dos PISA, penso) por um fator semelhante, já que, na sua visão, nenhuma outra medida poderia ter efeito num prazo tão curto.

        Com Crato e as suas “metas” esses itens deixaram de se utilizar.

        Já estou a ver o filme: em 2018, se o desempenho melhorar, ainda serão influências das medidas de Crato. Se descer, é por causa da reversão realizada por este Governo. Isto, do lado da direita. Da esquerda, é só inverter e vamos dar ao mesmo. Espero que se consiga ver mais longe.

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