O meu Problema com o Pessoal que Abomina Rankings

É mais de um, mas este passa por uma questão de estruturação e coerência na argumentação. Claro que têm todo o direito de desgostar de rankings (bons, maus, assim-assim) e de testes comparativos internacionais. É uma questão fortemente ideológica que me passa ao lado. Eu sou dos que defende que mais informação, em especial informação primária, é sempre melhor do que menos informação ou mesmo a sua ocultação. O que se faz com ela, é outra coisa, mas quem critica os rankings por serem maus tem sempre a possibilidade de usar a informação da forma que acha correcta e não se sentar a perorar na esplanada contra os malefícios do ócio.

Agora o que me diverte numa das linhas de argumentação é quando se criticam rankings, exames e testes (nacionais ou internacionais, incluindo PISA, TIMMS e PIRLS – estes foram feitos este ano) por serem formas erradas de avaliar a qualidade de um sistema educativo, de formatarem os processos de ensino e de distorcerem o conhecimento da realidade “integral”. E, quase como por automatismo, destacam o exemplo da Finlândia que se tem revelado um dos sistemas de ensino com melhor desempenho e não tem exames até ao equivalente ao 9º ano e não fazem rankings (a verdade é que não sabemos… eu não leio finlandês e desconheço os jornais que por lá se publicam e acho que uma boa parte dos portugueses serão como eu).

O que eu não entendo mesmo é como sabemos que o sistema educativo finlandês é melhor do que os outros sem ser através… dos testes internacionais como os PISA, TIMMS ou PIRLS, exactamente aqueles que se abominam quando se trata de Portugal. Porque assim é muito cómodo. Quando esses testes demonstram o que queremos – a extrema qualidade de um exemplo externo (mesmo se os melhores desempenhos são de países do Extremo Oriente, daqueles em que se trabalha até saírem os neurónios com a transpiração) – podemos usar as suas conclusões, mas quando se aplicam à nossa realidade, ai-jesus que não pode ser, ai a formatação, a alienação, o fim das boas práticas e por aí abaixo.

Decidam-se. Não podem é ficar com todas as gentis pecadoras no remanso do Paraíso.

corinth4

 

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3 thoughts on “O meu Problema com o Pessoal que Abomina Rankings

  1. Ui, ainda bem que eu não gosto de citar ou de recorrer a “modelos estrangeiros de ensino”!… 🙂 Sobre os rankings, o que digo agora é o que digo e penso já há bastante tempo. Em tempos, no “Umbigo” (Outubro de 2011) escrevia e reitero agora: Se os rankings servissem para todos, opinião pública, governantes, escolas refectirem e discutirem sobre a educação que estamos a proporcionar e a sociedade que estamos a construir, sobre o modelo de desenvolvimento sobre o qual estamos a projectar o futuro do país e sobre a ideia de homem e cidadão que queremos para as gerações futuras – então eu seria o primeiro a saudar e aplaudir a sua publicação.
    E já um ano antes, de forma mais sistematizada, escrevia: Devemos entender os rankings como um instrumento para modelar o nosso sistema educativo segundo os parâmetros das concepções neoliberais dominantes. Convém, assim, deixar claro alguns aspectos, a saber:
    1. Os rankings, constituindo apenas uma forma de classificação, foram entretanto colocados na órbita da designada “cultura de avaliação, não podendo esta sua passagem ascensional a outro plano ser encarada de forma inocente…
    Avaliar significa, antes de mais, atribuir um valor (mais da ordem do essencial do que do material), reconhecer uma qualidade, conferir um sentido. Classificar remete para operações de seriar, padronizar, hierarquizar.
    2. Esta sistema de classificação precisa destas condições para operar:
    -Ensino e aprendizagens instalados no nível do gesto técnico-procedimental e da produtividade, reconduzindo no mesmo passo os docentes para a condição de reféns do sucesso estatístico fácil;
    -Burocratização da função docente, subordinando-a a regulamentos, a rotinas e a padrões de desempenho, facilitando o constrangimento formal e hierárquico.
    – O processo de classificação institui-se, assim, numa lógica circular: o “objecto” a classificar é, simultaneamente, o pressuposto e o resultado do processo.
    A classificação das escolas através dos rankings constitui, em síntese, um dispositivo de normalização e de controlo, em que as variáveis organizacionais e contextuais são negligenciadas ou ignoradas em nome de objectivos ideologicamente mascarados de “avaliação” ou de “meritocracia”.

  2. O que está errado é caracterizar o perfil cognitivo de um individuo APENAS com base num instrumento de avaliação escrita. Este instrumento mostra uma determinada competência mas não mostra a globalidade do individuo. Serão necessários vários instrumentos de avaliação diferentes, que avaliem competências e capacidades diferentes, em vários contextos, para então se obter o saldo global do que é o individuo.
    Quem tem discernimento percebe que estes ranking estão a ser usados como instrumentos quantitativos para encapotadamente publicitar o sistema de ensino privado, que todos deviam saber quem são os proprietários, para compreender a visibilidade que lhes dão. E se ebem conheço os meandros do poder politico educativo e dos lobbies à volta dele, quando usarem estes ranking como instrumento de ADD, então é que muitos vão estrebuchar e espumar pela boca. Aliás, eles já são usados para captação de alunos (ou clientes?) para constituir turmas de modo a evitar os horários-zero, o que tem promovido a competição estúpida entre escolas públicas, a descambr várias vezes para a difamação e publicidade negativa dos concorrentes.
    No final, tudo isto em vez de promover a melhoria profissional e social, está a promover a mesquinhez, ‘os meios justificam os fins’, ‘o salve-se quem puder’, o darwinismo social…

    1. Discordo de boa parte do que está escrito, porque o que está em causa é uma seriação de escolas, mesmo se entendo a argumentaçã0o. Podemos criticar isso, mas extrapolar para a caracterização do perfil cognitivo dos indivíduos é um belo salto. Até porque no Básico as provas valem só 30%.

      Quanto à publicidade nestas alturas, todo um ensaio poderia ser escrito, mas não apenas pela investida dos privados, principalmente no Público. Há correntes mais “subterrâneas” do que essas… 🙂

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