Rankings – Avaliar para Compreender

A peça principal do Sol destaca a recuperação de lugares das escolas públicas no top 100. O que se segue são os 3000 caracteres do meu texto de opinião que vem lá por dentro.

Avaliar para Compreender

Estas semanas têm sido de divulgação de muitos indicadores sobre a Educação, seja a partir de testes internacionais (TIMMS e PISA), em que os alunos portugueses consolidaram uma progressão de 15-20 anos que nos trouxe da cauda para a metade cimeira da amostra, contrariando os discursos catastrofistas dos reformadores permanentes, seja a partir de indicadores internos como as provas finais do Ensino Básico e os exames do Ensino Secundário, em que é mais difícil fazer uma análise das tendências de médio prazo, em virtude das alterações permanentes.

Sou favorável à realização destas avaliações, porque só assim podemos obter, por imperfeitos que sejam, elementos para fazer uma aferição das aprendizagens dos alunos e fazer análises que nos permitem conhecer melhor as diferentes realidades em confronto. Há diversos traços comuns às escolas que estão no topo dos rankings e que as diferenciam das que estão na base, para além do muito referido contexto socio-económico. Vou isolar apenas três indicadores que é possível verificar a partir dos dados deste ano: as escolas do topo tendem a ter um menor número de exames realizados, os alunos que os realizam são mais novos e o diferencial entre a classificação externa e interna é menor.

Se analisarmos as 20 escolas do topo do ranking do Ensino Secundário, constata-se que realizaram em média menos de 350 exames, as 20 seguintes mais de 370 e do 41º ao 60º lugar a média foi de 550 exames, tornando-se esta progressão menos significativa a partir daí.

No caso das idades, entre as 20 melhores escolas do Ensino Básico, os alunos tinham em média 14 anos à data da realização das provas finais, enquanto nas 20 últimas a idade média era de 14,8 anos. No caso do Ensino Secundário, os valores eram de 16,5 e 17 anos. O que se explica pela existência de maior insucesso nas últimas e, consequentemente, existirem alunos mais velhos.

No caso do diferencial, nas provas do 9º ano, nas 20 escolas melhor colocadas, a avaliação interna é superior à externa apenas em 0,21 (escala de 1 a 5), enquanto nas menos bem colocadas é de 0,87. No caso dos exames do Secundário, os diferenciais são de 1,4 contra 4,6 valores.

Uma das explicações para esta situação pode encontrar-se no modo como as escolas decidem lidar com alunos mais problemáticos, em que muito do trabalho quotidiano passa por transmitir regras de convivência, de empenho mínimo nas actividades e de respeito pelos restantes agentes educativos. A nível interno, há escolas que preferem enfatizar o peso destinado das atitudes na avaliação, dimensão não contemplada na avaliação externa. Uma escola que reserve 30-40% para este parâmetro quase certamente terá um diferencial maior do que outra que apenas o considere em 10-15% na avaliação final. Ou seja, o que pode parecer um sinal de insucesso é a consequência de uma estratégia destinada a promover o sucesso. Mas quem analisar uma simples tabela sem este tipo de enquadramento, tenderá a retirar conclusões erradas. É isso que devemos evitar a todo o custo.

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4 thoughts on “Rankings – Avaliar para Compreender

  1. Não concordo com a interpretação benévola da hipervalorização da dimensão das atitudes e comportamentos na avaliação dos alunos. Essa arquitectura dos critérios avaliativos não visa incentivar o desenvolvimento de competências sociais, morais eetodológicas, antes, e apenas, fabricar sucesso. É uma forma de amputar os professores de um dos seus poderes nucleares: a avaliação. Senão vejamos: porque é que é justamente nas escolas em que se inflacciona a importância das atitudes e comportamentos que as direcções e estruturas intermédias de liderança mais pactuam com a indisciplina, ao ponto de a naturalizarem ou, pior, de responsabilizarem os docentes pela mesma? Tem que haver coerência entre meios e fins, e a maneira mais eficaz de promover o respeito por regras básicas em sala de aula é evidenciar, através dos resultados nos testes e outros elementos de avaliação formal, as consequências negativas da grande e pequena indisciplina.

    1. Eu fiz uma descrição do procedimento, não uma avaliação ou escrevi se concordo ou não.
      E posso sempre publicar a versão mais longa do texto… só que para inserir mais informação em 3000 caracteres, tive de deixar de lado alguma coisa. E a ligação à indisciplina não é o factor essencial aqui.

      Agora uma coisa digo… quando o peso das atitudes é muito grande, tenho muito mais facilidade em penalizar os incumpridores… quando chegam aos conhecimentos só se forem excelentes se conseguem safar… e raramente são.

      Tudo depende do uso que se dá ao que se tem ao dispor.

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