Os meus Colegas Andam Assim tão mal Informados?

Nas duas reportagens dos últimos dias (a da RTP e as duas parte da da TVI) sobre o preço dos manuais escolares e o negócio a ele associado, observei muita gente a falar ao lado de muito do essencial, não sei a evitá-lo de forma consciente (há quem tenha interesse em desviar as atenções, nomeadamente os nomes grandes nisto tudo), se a ir no barco por desconhecimento. As reportagens foram desiguais, num caso passou quase por completo ao lado de todo o negócio que faz milhões na Educação ao nível dos materiais escolares e outra chegou lá perto, bateu à porta, mas não entrou por ali dentro, ficando-se a protestar com os donos da casa acerca dos gastos com o tapete que encarecerão o preço da mansão. A metáfora não está grande coisa, mas é o que se arranja.

O que mais me custou foi ver colegas – não falo daquele “promotor” ansioso em querer fazer culpados algures, como se ele fosse uma alma santa arrependida – a deixar-se ir na narrativa dos manuais caros por causa das ofertas e do negócio ser chorudo apenas por causa da não reutilização. Há ali gente com obrigação de saber mais. Calaram-se? Foi editado o que disseram? Não se lembraram? Desconhecem?

Ninguém falou no negócio (felizmente efémero) do exame made in Cambridge, dos efeitos das mudanças causadas pelo acordo ortográfico (não foram apenas as metas), de todos os materiais produzidos a cada alteração de tipo de prova externa no Ensino Básico, dos anos de escolaridade e disciplinas a que se aplicam, etc, etc. Ninguém se lembrou de questionar o que fazem consultores científicos na capa dos livros, pagos para dar o nome e quantas vezes pouco mais, como se os autores fossem de qualidade duvidosa. Ninguém olhou mais acima para o trânsito entre a esfera da decisão pública e o cargo, mais ou menos visível, nos interesses privados.

Até aceito que quem está de fora se deixe engolir pela voracidade do número de manuais, pelas páginas quase iguais, pelo desperdício de papel. Mas há algo muito para além disso e não são os professores os passivos corrompidos pelos poderes editoriais que sacrificam a bolsa das famílias. Como é possível que a maioria daqueles professores não se tenham lembrado de muito mais do que isso? Auto-culpabilização por causa de uns quantos croquetes comidos no salão de um hotel alugado para efeito de comércio disfarçado de formação? Não pode explicar tudo.

Medo? Mas há ali gente que eu sei que não tem medo.

Precaução, para não perder eventuais oportunidades no futuro? Receio de dizer mais do que há colegas e escolas que aceitam brindes?

Phosga-se, malta. Podemos esperar pouco dos que olham de fora. Mas quem anda por dentro? Sabemos que há parentes menos recomendáveis na famílias. Mas são petty thieves, vigaristas de bairro como no filme do Woody Allen, verdadeiros mexilhões por comparação com os tubarões.

Oportunidade perdida para meter algo na engrenagem de uma guerra que se trava acima das nossas cabeças mas que, assim, acaba por nos tornar as vítimas mais do que colaterais de algo que nos transcende.

bowling-004

Alguma (Muita?) Timidez

Na 2ª parte da reportagem da TVI sobre os manuais escolares. Há por ali demasiadas pistas não exploradas. Apesar do anúncio de que se iriam revelar conexões com o poder político, isso ficou por cumprir com clareza.

É possível uma ex-ministra dizer que “não sabe” porque não baixou o preço dos manuais no seu mandato? Dizendo em seguida que foi ameaçada pelos editores (mas não era ela que enfrentava todos os interesses e corporações da Educação?) e falando numa Autoridade da Concorrência a que não recorreu? E fica, assim para quem ouve com atenção entender, a referência ao facto das negociações terem sido conduzidas por um secretário de Estado que depois se tornou presidente do conselho de administração da UnyLeya?

É preciso vir eu aqui descodificar isso com clareza?

E o que dizer acerca de quem assinou uma convenção que dá uma parte leonina dos direitos aos interesses privados?

É possível um promotor escolar anónimo acusar os professores de não olharem ao preço dos manuais, quando depois se afirma que esse preço é praticamente igual entre todos?

É possível o presidente da Confap fingir que não há um eixo Porto-Gaia nisto tudo, com a sua organização a ser tão livre para dar opiniões quanto o Observatório dos Recursos Educativos?

Há coisas interessantes na peça, mas a inclinação para culpar as ofertas aos professores pelo preço dos manuais é uma vergonha, quando não se pergunta quanto é pago aos pseudo-consultores científicos dos manuais e ver quem são, por onde andam e andaram. É ridículo afirmar-se que não se sabe como é feita a composição do preço dos manuais. Uma coisa eu garanto: não são os autores e os professores que os encarecem.

Barrete

Purga

No Público, por decisão do observadorzinho que o dirige actualmente, saem agora Paulo Moura e Alexandra Lucas Coelho. Certamente serão substituídos por mão de obra mais barata e cordata. Certamente, o iluminado operacional terá na manga a fórmula para a salvação da imprensa por via da sua transformação em espaço para conteúdos produzidos em outsourcing.

thumb

Teasing

Talvez hoje cheguemos perto do que verdadeiramente interessa.

Se ficaram surpreendidos com a primeira parte da reportagem O NEGÓCIO DOS MANUAIS ESCOLARES não podem perder a segunda parte amanhã porque é Ainda muito mais surpreendente…denuncia cumplicidades com o poder político e convenções que liberalizam os preços em vez de proteger as famílias e políticos que saem do ministério da educação para a administração das editoras…Sem comentários

I N A C R E D I T Á V E L

Alexandra Borges

closeau