Equívocos

Li no Expresso que umas pessoas conhecedoras de muita coisa foram ver o filme I, Daniel Blake do Ken Loach e, de acordo com o que já pensavam antes e escrevem e verberam há anos, sairam de lá a dizer muito mal do Estado e das suas burocracias e coisas assim, a modos que o costume. O que parece não terem percebido é que o filme é sobre o mundo kafkiano das regras modernas de apoio social a quem necessita e nem consegue encontrar trabalho, em especial da Inglaterra herdeira da erosão dos serviços públicos protagonizada por Margaret Thatcher e seus descendentes, incluindo os da 3ª via blairiana. Consta a prosa jornalística que os três ex-governantes se “comoveram” ao ver o filme e o absurdo da Segurança Social, área da governação que tutelaram durante anos. Entre os três, estiveram no governo nesta área mais de 10 dos últimos 15 anos e têm a distinta lata de se “comoverem” agora quando tiveram tanto tempo para fazer qualquer coisa e, em regra, terem feito o contrário? O decoro perdeu-se, em definitivo? Pelo menos do Bagão Félix esperava mais pudor.

Se o Ken Loach os conhecesse e soubesse, acho que levariam com um balde em cima, nem lhes quero dizer do quê, mas seria do mesmo que me ocorreu. Não terão percebido as três criaturas que o filme é contra o mundo que eles têm ajudado a criar?

Precariado Público

O relatório tem daqueles nomes com tanto de pomposo quanto de desnecessariamente longo: Levantamento dos instrumentos de contratação de natureza temporária na Administração Pública (Artigo 19.º da LOE 2016).

Fica aqui para a devida exploração: relatorio-precariado-ap.

Na Educação, os contratos a termo são mais de 26.000 (quase metade do total) e se acrescentarmos a Ciência e o Ensino Superior São mais de 37.300.

Aquela malta que está sempre a falar que o sector público tem mais vantagens do que o privado, poderia fazer as contas a quantos destes trabalhadores não estariam já vinculados se estivessem a ser seguidas as regras laborais gerais. E poderia explicar porque há vinculações extraordinárias… com governos de direita ou de esquerda…

Livros

20.000

Mais coisa, menos coisa. Com tantas negociações fofinhas e genuflexões variadas deu nisto. Não sei se será declarada vitória. Parece que não, pois agora dizem que não souberam de nada. Mas não se fartaram de reunir? Há uns meses eu achava que dificilmente abririam muito mais de 200 vagas. Falhei por bastante menos e foi assim a olho. E nem vou precisar de vaselina para ajudar a sentar.

Aguardam-se lutas não corporativas como nunca se viu desde a patuleia.

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Demonizações

Em tempos perderia muito tempo a explicar a diferença entre eugenia e eutanásia, atendendo à confusão (voluntária?) que se vai fazendo por aí para dramatizar o debate sobre a morte medicamente assistida (que existe já, com tantos mantos a fingir que não, sendo que quem conhece de perto a realidade dos hospitais só pode sorrir perante a hipocrisia). Mesmo se tudo pode remontar a conceitos gregos, os críticos da eutanásia decidiram focar-se na nazificação da questão, querendo estabelecer paralelismos entre quem defenda a eutanásia e o regime nazi. Parecem não perceber que a massificação e industrialização da morte que o regime nazi praticou, assim como as práticas eugénicas (de apuramento da raça, através da união entre os “bons espécimes” e a esterilização dos defeituosos), pouco têm a ver com tudo isto. Mas… podemos sempre ir ligeiramente além da superfície e dizer que, assim sendo, se calhar os defensores da eutanásia (na versão que se pretende confundir com eugenia) são apenas filhos do maior lutador contra Hitler, de seu nome Winston Churchill. O autor do artigo de que extraio o excerto seguinte é o historiador Martin Gilbert, não um qualquer articulista do esquerda.net.

“The improvement of the British breed is my aim in life,” Winston Churchill wrote to his cousin Ivor Guest on 19 January 1899, shortly after his twenty-fifth birthday. Churchill’s view was reinforced by his experiences as a young British officer serving, and fighting, in Arab and Muslim lands, and in South Africa. Like most of his contemporaries, family and friends, he regarded races as different, racial characteristics as signs of the maturity of a society, and racial purity as endangered not only by other races but by mental weaknesses within a race. As a young politician in Britain entering Parliament in 1901, Churchill saw what were then known as the “feeble-minded” and the “insane” as a threat to the prosperity, vigour and virility of British society.

The phrase “feeble-minded” was to be defined as part of the Mental Deficiency Act 1913, of which Churchill had been one of the early drafters. The Act defined four grades of “Mental Defective” who could be confined for life, whose symptoms had to be present “from birth or from an early age.” “Idiots” were defined as people “so deeply defective in mind as to be unable to guard against common physical dangers.” “Imbeciles” were not idiots, but were “incapable of managing themselves or their affairs, or, in the case of children, of being taught to do so.” The “feeble-minded” were neither idiots nor imbeciles, but, if adults, their condition was “so pronounced that they require care, supervision, and control for their own protection or the protection of others.” If children of school age, their condition was “so pronounced that they by reason of such defectiveness appear to be personally incapable of receiving proper benefit from instruction in ordinary schools.” “Moral defectives” were people who, from an early age, displayed “some permanent mental defect coupled with strong vicious or criminal propensities on which punishment had little or no effect.”[1]

Há entre nós que faça lembrar Glen Beck e aqueles tipos que na Fox News não passavam uma hora sem chamar nazi ou socialista ao Obama por causa do seu “Obamacare” e de outras medidas na área da Saúde.

A contaminação do debate pelo argumento “ad hitlerum” é muito bem desmontada, nem de propósito, pelo muito judeu Jon Stewart.

Ver aqui também a desmontagem da forma como há quem use a nazificação como argumento para tudo e nada de forma incorrecta.

 

 

Corporativismos

Em tempos, fui qualificado como “corporativo” por teóricos companheiros de profissão, pois sempre defendi que as lutas dos professores eram específicas e ganhavam maior mobilização quando não se diluíam nos protestos globais da administração pública. Incluo nisso as greves. As pessoas sindicais inteligentes chamaram-me diversas coisas (e à minha progenitora também), entre as quais a dita “ofensa” de eu considerar que a Educação é um sector que merece mobilizar-se por si mesmo, sem indiferenciações.

Dito isto, nada tenho contra greves conjuntas de pessoal docente e não docente, quando boa parte dos seus problemas é comum. Ou seja, quando a FNEprof decide convocar uma greve unitária no sector da Educação devido ao congelamento de carreiras e valorização profissional, interrogo-me acerca da razão de não ter estendido o protesto a todos os que trabalham nas escolas. Até porque dizem que foi mais do que mais e mais e mais do que alguma vez foi.

Já sei… os gurus puseram o dedo no ar com cuspo e conseguiram detectar o sentido do vento e não era vermelho. A vanguarda sabe sempre onde está o sentir da rectaguarda.

Porra, pázinhos! Depois não me venham com a luta anual do costume dos tempos do guterrismo.

sindicatooo