Diferenciação

Uma definição oficial, em exclusivo no ComRegras do Alexandre Henriques:

Em segundo lugar, faltava perceber e pôr no papel uma proposta que respondesse a um desafio muito claro: alargar a escolaridade a 12 anos implica definir um perfil que é comum a todas as vias – científico-humanística, profissional e artística. Todas conferem um 12.o ano. Todas são igualmente dignas. Todas são regulares, ao contrário do jargão comum. Mais importante, todas devem servir a aspiração de garantir prosseguimento de estudos. Para isso, era preciso encontrar o perfil comum a que se chega ainda que por diferentes vias.

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Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória

Não sei se ria, se chore. A montanha de sábios deu à luz um conjunto de generalidades que nos faz recuar mais de 20 anos em termos de conversa fiada, bem intencionada, não duvido, mas completamente vazia de verdadeiro significado ou sequer de novidade. O problema não é isto não se adaptar à nossa realidade, é adaptar-se a qualquer realidade, incluindo – com acertos – às escolas dos klingons. Fica aqui documento completo (perfil-alunos-verfinal).

Eis um excerto:

As competências na área de Pensamento criativo envolvem gerar e aplicar novas ideias em contextos específicos, abordando as situações a partir de diferentes perspetivas, identificando soluções alternativas e estabelecendo novos cenários.

As competências associadas ao Pensamento crítico Pensamento criativo implicam que os alunos sejam capazes de:
– pensar de modo abrangente e em profundidade, de forma lógica, observando, analisando informação, experiências ou ideias, argumentando com recurso a critérios implícitos ou explícitos, com vista à tomada de posição fundamentada;
– convocar diferentes conhecimentos, utilizando diferentes metodologias e ferramentas para pensarem criticamente;
– prever e avaliar o impacto das suas decisões;
-desenvolver novas ideias e soluções, de forma imaginativa e inovadora, como resultado da interação com outros ou da reflexão pessoal, aplicando-as a diferentes contextos e áreas de aprendizagem.

Eis outro, igualmente significativo:

As competências associadas à sensibilidade estética e artística implicam que os alunos sejam capazes de:
– apreciar criticamente as realidades artísticas e tecnológicas, pelo contacto com os diferentes universos culturais;
– entender a importância da integração das várias formas de arte nas comunidades e na cultura;
– compreender os processos próprios à experimentação, à improvisação e à criação nas diferentes artes, tanto em relação ao património cultural material e imaterial, como à criação contemporânea.

Isto é de uma pobreza verdadeiramente franciscana, mas no mau sentido. Muito mau mesmo. E, para variar, é para o perfil no 12º ano, mas não vai começar por ser aplicado no Ensino Secundário, mas apenas no Básico.

Confesso… tinha algumas expectativas, mas… é mau, mesmo mau. É daquele cosmopolitismo bacoco de quem veio de alguma viagem em que acha ter descoberto o mundo em Nova Iorque, Paris, Londres, Helsínquia em Roma ou no Bali com a Julia Roberts (ver filme).

Isto é o perfil do aluno do século XXI?

 As competências na área de saber técnico e tecnologias dizem respeito à mobilização da compreensão de fenómenos técnicos e científicos e da sua aplicação para dar resposta aos desejos e necessidades humanas, com consciência das consequências éticas, sociais, económicas e ecológicas.

As competências associadas ao saber técnico e tecnologias implicam que os alunos
sejam capazes de:

– manipular e manusear materiais e instrumentos diversificados para controlar, utilizar, transformar, imaginar e criar produtos e sistemas;
– executar operações técnicas, segundo uma metodologia de trabalho adequada, para atingir um objetivo ou chegar a uma decisão ou conclusão fundamentada, adequando os meios materiais e técnicos à ideia ou intenção expressa;
– adequar a ação de transformação e criação de produtos aos diferentes contextos naturais, tecnológicos e socioculturais, em atividades experimentais e aplicações práticas em projetos desenvolvidos em ambientes físicos e digitais.

A sério? Isso “tudo”? Ok… chamem-me bota-abaixo, mas isto é uma grande pile of baloney.

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Para memória futura, ficam aqui todos os intervenientes na síntese de 23 páginas agora apresentada e até para ter um roadmap dos artigos de opinião que irão em breve aparecer na imprensa e das formações que se seguirão a passo acelerado para nos ensinar a ensinar aquilo tudo.

3 — O Grupo de Trabalho é constituído pelos seguintes elementos:

a) Guilherme d’Oliveira Martins, Administrador da Fundação Calouste Gulbenkian, que coordena;

b) Carlos Alberto Sousa Gomes, Agrupamento de Escolas Francisco de Arruda;

c) Joana Maria Leitão Brocardo, Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal;

d) José Vítor Pedroso, Direção-Geral da Educação;

e) José Leon Acosta Carrillo, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;

f) Luísa Maria Ucha Silva, Gabinete do Secretário de Estado da Educação;

g) Maria Manuela Guerreiro Alves da Encarnação, Agrupamento de Escolas Almeida Garrett;

h) Maria João do Vale Costa Horta, EDUCOM — Associação Portuguesa de Telemática Educativa;

i) Maria Teresa Carmo Soares Calçada, ex-Coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares, Ministério da Educação;

j) Rui Fernando Vieira Nery, Fundação Calouste Gulbenkian;

k) Sónia Maria Cordeiro Valente Rodrigues, Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

4 — Para colaborar e apoiar o Grupo de Trabalho na prossecução da sua missão são designados, como consultores, as seguintes individualidades:

a) Andreas Schleicher;

b) Alexandra Marques;

c) David Rodrigues;

d) Joaquim Azevedo.

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Doutrina Valentim

Como outros governantes, a equipa das Finanças terá feito um daqueles acordos de pseudo-gentlemen à margem das vias legais com a futura passada equipa de administração da CGD, tendo o cuidado de não produzir uma smoking gun muito eviedente.

Como outras oposições conhecedoras destes esquemas, o PSD e CDS decidiram zurzir o governo a partir de todos aqueles indícios que a mim também fazem parecer claro que existiu o tal acordo para abrir excepções pouco razoáveis às regras.

Como outros governos e maiorias, a geringonça actual vai refugiar-se em truques semânticos e apostar na teoria do “não podem provar nada e mesmo que possam será por meios indirectos”.

O que é mais deprimente é mesmo isto ser tudo como dantes. Apostarem em que a coisa não poderá ser provada em vez de garantirem que não aconteceu mesmo.

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Português Suave

Estes “currículos essenciais” acabam por ser uma alternativa mais suave à reforma curricular e extinção de algumas metas que vinha sendo exigida por associações de professores, nomeadamente de Português e de Matemática. No entanto, estas consideram que poderão ser alcançados os mesmos objetivos.

Descubram lá agora a ligeira incongruência neste plano para elevar as capacidades de pensamento crítico dos alunos ao terminarem o 12º ano. Se fizerem as contas… percebem que quem está, estará bem longe quando…

O ensino secundário também deverá ser abrangido, nomeadamente “no 10.º ano”. Mas esse será um objetivo a concretizar mais adiante. Já os alunos nos anos de escolaridade intermédios -2.º, 3.º, 6.º, 8.º e 9.º – ficarão para já de forma [sic], porque o objetivo é a “implementação gradual” destas orientações. “O currículo é gerido por ciclos. Quem já está num ciclo deve levá-lo até ao fim”.

O projeto insere-se no chamado Perfil do Aluno no 12.º ano, que visa definir as competências que os estudantes devem ter adquirido no final da escolaridade obrigatória.

(aguardam-se novos manuais e materiais de apoio para que possamos entrar suave e essencialmente no século XXI já em 2017-18)

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They Just Wanna Have Fun

Comentar isto e como deve ser operacionalizado (para além do modelo Área-Escola ou Área de Projecto aos tostões) era capaz de demorar uns belos parágrafos e eu tenho um par de actas em atraso. Tem tudo a ver com o que o Schleicher foi convidado a vir cá anunciar que é para tudo ser uma enorme sinergia de esforços.

Quem está por dentro, diz que é muito bom, quase o nirvana educacional.

E já sabemos que se alguém disser alguma coisa de mais crítico é porque é do século XIX, arcaico, incapaz de ver o futuro, velho do Restelo, incapaz de mudar, etc, etc, etc. Por isso me declaro ansioso por este novo modelo de ensino em que tantas novas e insuspeitas competências virão ser desenvolvidas numa quadro de liderança e autonomia pedagógica, para além de liberdade organizacional e gestão de proximidade em relação às ala de aula ou fora dela.

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Público (com as pazes feitas com o SE?), 12 de Fevereiro de 2017