Já Não Vale a Pena…

… comentar este tipo de coisa. Mais 20% do Orçamento da Educação para reduzir um par de alunos por turma? Seria para rir se isto não não tivesse chancela ultra-oficial de estudo feito por gente intocável em termos de pergaminhos académicos e eu não passar de um zeco básico, radical e esquerdista nos dias pares. Isto não é uma coisa de esquerda/direita embora façam por parecer que é. É apenas uma questão de teimosia disfarçada de rigor estatístico. Já lá vai mesmo o tempo em que perderia um par de horas a tentar demonstrar a falácia de algumas premissas do imaculado “estudo”. Pena que as deputadas de serviço do Bloco e do PCP não tenham a estaleca técnica para demonstrar que o problema é apenas político e que tudo isto não passa de fumaça a fingir de fogo. Até dá jeito ao actual governo e tudo…

Mission Impossible

O 4º Poder

Nos EUA está na mais premente ordem do dia a necessidade de controlo da atribulada relação do novo presidente com os factos (em particular) e muita da realidade envolvente (em geral) por parte dos órgãos da comunicação social. Por cá, não apenas na área da Educação mas eu noto mais nesta área, continuamos a ver o pessoal embarcar alegremente em algumas das menos subtis manobras de manipulação da opinião pública com o objectivo de fazer avançar uma agenda política com muito pouco de inovador e muito de perturbador. Mas desde que um dos grupos dominantes comprou o exclusivo dos panama papers e do acesso a muita informação complicada e comprometedora, há demasiada gente com receio de ser desvendada por acaso e, assim sendo, nada como manter um low profile em relação aos poderes que contam. Se tempos do PS no poder significam, em regra, uma relação privilegiada com o eixo DN/JN/TSF em matéria de divulgação das suas iniciativas nesta área da governação, estranha-se a aparente adesão quase acrítica à cartilha da modernidade de quase toda a restante comunicação social, dando como boa a narrativa simplista dos “currículos extensos = necessidade de um currículo essencial = menos aulas” mesmo se ajoujada na confluência de quase todos os poderes fáticos na dita área, com o senhor Schleicher da OCDE em jeito de cereja, a legitimar todo o chantilly que encobre o bolo de palha do perfil das novas competências para o século XXI (todo? isto dura até 2100?).

Já se está tudo nas tintas para a verdade, pois só assim se continuam a explicar aqueles pastelões “opinativos” (logo, livres de verificação de factos?) em alguma imprensa semanal de referência. Em boa pós-verdade, já quase ninguém lê o que não lhe agrada e limita-se a salivar com os estímulos automáticos dos preconceitos.

coice-da-jumenta

Erro de Percepção

Mútuo ou não é achar que a cara de trapalhão não corresponde à essência. Ou, mais grave, que Centeno e Domingues achem que já não vimos à légua a forma como tudo decorreu. Com rasto documental ou não. Em paragens e tempos civilizados, já estaria a fazer companhia a tantos outros defuntos políticos, armados em providenciais. Por cá, em tempos de pós verdade e manigâncias linguísticas, daqui a 3 meses ninguém já se lembra, porque outro erro de percepção mútuo acontecerá e todos acorrerão a ele, como labregos ao pote. O mais engraçado é quando esta gente exibe pergaminhos académicos notáveis e – assim à vista desarmada – não parecem mais do que poucochinhos. Ao menos o gaspar ainda tinha um (mesmo que peculiarmente retorcido) sentido de humor.

centeno

Mais com Menos

Um tipo podia fingir que não percebe que a lógica é a mesma. Fazer mais ou parecer que se faz mais com menos recursos. Uma especialidade inaugurada com os congelamentos e aulas de substituição na componente não lectiva, a minutagem do horário semanal, os controlos hierárquicos dos actos pedagógicos em nome da autonomia das chefias e da servidão dos zecos.

O mais cínico? Dizer que é tudo no interesse dos alunos e que quem se opõe só pensa nos seus privilégios pessoais e/ou corporativos.

Agora volta a alegada defesa do interesse dos alunos e das famílias, o que e perversamente verdade. As famílias que consideram a escola um cómodo recurso para entreter crianças e jovens querem que ela (a escola) esteja disponível mais tempo. Mas os pedagogos e especialistas da moda dizem que os alunos têm demasiadas aulas e estão sobrecarregados de tudo o que a escola tem de chato: aulas, trabalhos de casa, mochilas (neste caso, com razão).

Então a solução é simples: produz-se uma narrativa aconchegante sobre novas pedagogias, escolas e competências para o século XXI. Qual o truque? Remeter boa parte da aprendizagem das tais novas competências para “fora da sala de aula”, tornando isso algo inovador (embora eu duvide seriamente da sua operacionalização e perceber-se-á porquê).

O resultado final: alunos, pelo menos, 50 horas nas escolas, mas apenas 25 em aulas.

Como? Reduzindo a componente lectiva dos alunos (mas não dos professores) e alargando as actividades extra-lectivas (mas lectivas para os professores), em muitos casos a definir pela autoridade autárquica local que, até porque já pode “renovar quadros” ao abrigo da nova transferência de competências, terá “autonomia” para recrutar e colocar “formadores”, que não se confundirão com “pessoal docente” (que continuará formalmente sob gestão do ME), o que satisfará as entidades sindicais transformadas em aparatos de controlo ao serviço da geringonça educativa.

O plano é quase brilhante.

Eu depois explico melhor outras metodologias em desenvolvimento com a chancela da OCDE e o carimbo da modernidade.

maquiavel2010