Mais com Menos

Um tipo podia fingir que não percebe que a lógica é a mesma. Fazer mais ou parecer que se faz mais com menos recursos. Uma especialidade inaugurada com os congelamentos e aulas de substituição na componente não lectiva, a minutagem do horário semanal, os controlos hierárquicos dos actos pedagógicos em nome da autonomia das chefias e da servidão dos zecos.

O mais cínico? Dizer que é tudo no interesse dos alunos e que quem se opõe só pensa nos seus privilégios pessoais e/ou corporativos.

Agora volta a alegada defesa do interesse dos alunos e das famílias, o que e perversamente verdade. As famílias que consideram a escola um cómodo recurso para entreter crianças e jovens querem que ela (a escola) esteja disponível mais tempo. Mas os pedagogos e especialistas da moda dizem que os alunos têm demasiadas aulas e estão sobrecarregados de tudo o que a escola tem de chato: aulas, trabalhos de casa, mochilas (neste caso, com razão).

Então a solução é simples: produz-se uma narrativa aconchegante sobre novas pedagogias, escolas e competências para o século XXI. Qual o truque? Remeter boa parte da aprendizagem das tais novas competências para “fora da sala de aula”, tornando isso algo inovador (embora eu duvide seriamente da sua operacionalização e perceber-se-á porquê).

O resultado final: alunos, pelo menos, 50 horas nas escolas, mas apenas 25 em aulas.

Como? Reduzindo a componente lectiva dos alunos (mas não dos professores) e alargando as actividades extra-lectivas (mas lectivas para os professores), em muitos casos a definir pela autoridade autárquica local que, até porque já pode “renovar quadros” ao abrigo da nova transferência de competências, terá “autonomia” para recrutar e colocar “formadores”, que não se confundirão com “pessoal docente” (que continuará formalmente sob gestão do ME), o que satisfará as entidades sindicais transformadas em aparatos de controlo ao serviço da geringonça educativa.

O plano é quase brilhante.

Eu depois explico melhor outras metodologias em desenvolvimento com a chancela da OCDE e o carimbo da modernidade.

maquiavel2010

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7 thoughts on “Mais com Menos

  1. Tudo muda e a escola não. Qual a razão? A escola foi o espelho da ciência e cultura da idade moderna e da revolução científica durante milhares de anos o aluno era passivo e autoritário o professor. Tudo era compartimentado e dividido . As avaliações classificativas e seletivas. . E muito mais durante milhares de anos . Homens célebres como Dèscartes e Newton estão na raiz da escola que temos: importa a transmissão com o aluno em papel insignificante. A conceção mecanicista ainda hoje subjaz. Não é do dia para a noite que a escola muda mas porque tudo muda a escola deve acompanhar a mudança. A criança deve gozar o seu tempo de criança como o adolescente tem o seu tempo tal como o adulto. A criança devia aprender na escola sem ter de fazer trabalhos em casa. Chegaria a escola ; e para o universitário só lhe seria útil aprender a ter autonomia e dedicar.-se mais à leitura perdendo tempo nas bibliotecas.

  2. Já fiz algumas considerações que não vi publicadas mas que em síntese diziam que tudo muda menos a escola e que esta resulta da idade do ,mecanicismo com Descartes e Newton. O garoto deve gozar a sua idade e o adolescente idem e o adulto universitário deve aprender a ser autónomo e habituar-se a ir às bibliotecas . O ensino é classificativo ainda hoje como sempre durante milhares de anos fora seletivo . O aluno continua insignificante e o poder autoritário continua a residir no professor. O aluno deve fazer na escola o que tem a fazer e Ter tempo para se enquadrar no seu tempo.

  3. Essas teorizações são bastante interessantes mas tão datadas na sua própria concepção quanto a escola que procura criticar. São considerações que existem há 200 anos ou mais, não percebendo eu se também se acha que devem estender-se aos hospitais, cuja função continua a mesma desde a Idade Moderna.
    Mas podemos voltar ao tempo das albergarias monásticas.

    A questão é: e que tal reclamar-se para as famílias um tempo para desenvolver as competências que não são exclusiva ou predominantemente da escola?

    E que tal – para isso mesmo – não exigir mais tempo na escola e menos nas aulas?

  4. Sejam os hospitais do tempo das misericórdias e se podiam melhorar-não sendo da minha reflexão- ou não o certo é que muito se alteraram. Mas a escola não. Penso que se deve à ciência e cultura o que a escola foi e deveria ser porque a ciência mudou a partir de 1900 com Planck e Einstein em 1905 que derrotou o paradigma da ciência moderna – que afinal ainda hoje subsiste. Quer se queira quer não temos de mudar e a escola deve atender a parâmetros que foram alterados. Não há necessidade de se querer que os hospitais mudem como as escolas. São argumentos não comparáveis. Alguma coisa não está certa na escola atual, seja a dos garotos, seja a dos adolescentes seja a universitária. O ensino informal dá competências que os alunos levam para as escolas e não são correspondidas. Não se trata de retórica mas antes a constatação que a escola não muda- e deve acompanhar as mudanças que a ciência e a cultura sofreram.

  5. São comparáveis na medida em que a Medicina experimentou mudanças abissais nos seus métodos de diagnóstico e tratamento. E nas áreas de especialidade. Mudou mesmo mais do que as áreas disciplinares tratadas nas aulas do Ensino Básico.
    Há uma enorme falácia sobre as “competências informais” e o pobre do Einstein não é para aqui chamado, muito menos o “paradigma moderno”, a menos que optemos pelo relativismo desenfreado dos pós-modernos.

    Haveria muito a desmontar nessa forma de criticar a “escola-fábrica”, mas para isso é preciso estar nela, vivê-la como professor, tê-la vivido enquanto aluno e perceber as diferenças, para além da aparente cenografia da sala de aula similar ao longo dos tempos.

    O que me custa mais é aparecerem a querer ser “modernos” os herdeiros de uma crítica que ao longo de 100-150 anos não conseguiu criar um modelo verdadeiramente alternativo que funcione e não seja apenas uma interessante alternativa.

    Isto para não falar na incoerência de se defender a quase obrigatoriedade da diversidade. É uma contradição nos seus termos, em especial quando associada ao desejo do sucesso medido pelos métodos tradicionais.

  6. Não vou responder porque esta discussão poderia ser útil mas desde que diz que o Einstein não é para aqui chamado só tenho a lamentar que refute uma questão fulcral no ensino instrucional de hoje que dura há séculos. A conceção era a da divisão porque com Descartes e Newton – que completou Descares- a cabeça tinha mais valor que o corpo; era e foi a teoria da compartimentação. Hoje existe o todo. Não há a separação das disciplinas . A mecânica quântica tudo alterou e Einstein demonstrou que não existe diferença ou distinção verdadeira entre matéria e energia. Foi em 1905. Daí em diante EINSTEIN E PLANCK foram chamados e bem à alteração do paradígma cartesiano-newtoniano que durou muito e era altura na idade contemporânea de se alterar os métodos instrucionistas das escolas- de todas. Por último não disse que os hospitais não tivessem mudado. O que afirmo é que não são comparáveis os hospitais e as escolas. Dou aqui por terminada a discussão que cheguei a pensar que estava com alguém que não fosse insultuoso – à sua moda.

    1. Fui “insultuoso”? A sério? Em que passagem?
      O facto de responder a uma teorização algo pomposa e que comete algumas incorrecções “paradigmáticas” e epistemológicas é ser insultuoso?

      A verdade é que o Einstein pode ser chamado a esta discussão (e o Planck e o Bohr, já agora, para não falar no Heisenberg) se a questão for exactamente o contrário do que afirma… a “revolução” do início do século XX estilhaça a pretensa unidade do historicismo positivista e a sua certeza de que o intelecto humano poderia alcançar um conhecimento absoluto da Natureza através da aplicação do método científico cartesiano-newtoniano, se assim lhe quiser chamar.

      O que me afirma é exactamente o contrário…

      A ideia de um continuum do conhecimento tem alguma lógica, mas isso não significa que, por exemplo no Ensino Básico, não seja necessário ensinar base relativamente sólidas dos saberes disciplinares para depois avançarmos para outro patamar.

      É como querer que, como regra, os miúdos dominem por completo a Matemática sem terem aprendido a tabuada ou a Linguagem sem os rudimentos da Sintaxe.

      Sim, os saberes “contaminaram-se”… mas isso é, efectivamente, a um nível superior da aprendizagem. Embora admita sem problemas que se podem aplicar saberes transversais em todos os níveis de ensino, discordo que eles sejam a regra.

      Não sei se fui insultuoso por pensar pela minha cabeça e não por chavões com um ou dois séculos… não sei se o Freinet, a Montessori ou mesmo o Dewey anteciparam os nossos tempos tecnológicos ou a nossa actual organização social e laboral, com as suas consequências na gestão do tempo, e tudo o mais, por muito importantes que sejam os seus contributos.

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