O Habitual

Mas porque haveriam de fazer um estudo sério sobre uma matéria que foi decidida politicamente há muito, numa ampla coligação de interesses no envelope financeiro que irá olear as finanças locais? Claro que os estudos feitos pelos próprios darão sempre resultados “positivos”. Com jeitinho até se verificará o aumento da “auto-estima” dos autarcas.

Isto é uma palhaçada completa.

Apesar de o Governo já ter aprovado o caminho para a municipalização da Educação, Jorge Martins, investigador no Centro de Investigação e Intervenção Educativas, entende que o balanço dos 15 projectos-piloto implementados no último ano lectivo ainda está por fazer. “São necessários dados que resultem de uma avaliação científica e que não existem”, defende este especialista.

O Ministério da Educação não promoveu nenhum estudo sobre o seu impacto global, estando neste momento a analisar os relatórios de cada uma das comissões de acompanhamento constituídas nos municípios. Essas são as únicas avaliações desta iniciativa e apresentam invariavelmente os resultados como “positivos”. “Qualquer avaliação que seja feita nesta fase será sempre muito focalizada nas especificidades locais”, adverte Jorge Martins.

Quanto aos pais… nunca os confundamos com o Ascensão das parcerias que o impedem de falar nos dias ímpares de assuntos mais delicados, até porque também deveríamos ouvir “as mães”.

clown

 

Em Digressão

Pelo que ouço e leio, a secretária e o secretário de Estado da Educação andam pelo país a espalhar a palavra pelas bases socialistas, em busca de apoio para as suas medidas, seja as da reforma curricular, seja de forma indirecta a municipalização da Educação. Da mesma forma se percebe a preocupação em conseguir boa imprensa. É uma pena que, pelo que vejo e ouço, há quem se satisfaça apenas com a forma e quase nada com o conteúdo, a começar pelos meus colegas.

spin

Felizmente Errado?

Se vier a confirmar-se o que está na primeira página do Expresso (horas a passarem do Português e da Matemática para as Ciências Sociais), ficarei feliz por ter estado errado na previsão de novo corte na área das Humanidades. Resta mesmo só saber como será operacionalizado esse aumento de horas, se é verdade que é para reduzir o total das horas de aulas. Porque há maneiras de se dizer que aumentam as horas semanais, reduzindo-se o tempo total anual. Assim como a mim parecia (e não desapareceu por completo essa ideia) de que a História seria, especificamente, um alvo na poupança de horas.

Mas, para já, declaro-me feliz se errei neste particular. Quanto ao resto, mantenho as reservas quanto a um currículo “essencial” e a uma “profunda” reforma curricular que não se percebe exactamente se não passa de um salto para o passado.

exp18fev17

Expresso, 18 de Fevereiro de 2017

 

Sábado de Manhã

Sou um tipo de vícios simples. Ler, se possível sem barulho em volta (ou seja, sem um avô a incentivar o netinho a jogar à bola nos corredores de um espaço comercial), com um café devidamente açucarado (o cérebro precisa de algum acelerador, mesmo se quase ilegal) e uma qualquer comida de conforto no horizonte. A cereja é quando aparecem daquelas oportunidades imperdíveis e hoje foram logo duas.

O cartapácio do Paul Auster é para ver se desta vez consigo ler uma coisa dele até ao fim sem serem os diários ou a velhinha Trilogia de Nova Iorque. Já são muitas tentativas que ficam ali por volta de meio, mas este promete algo mais do que caixinhas dentro de caixinhas com escritor dentro a olhar-se ao espelho ou pela janela. Acreditem que não é por não tentar… se juntar tudo o que tenho dele só não faz mais de meia prateleira, porque me acautelo no investimento e opto pelos paperbacks.

A MAD é a revista mais importante para a formação do meu humor ou mesmo do gosto (sarcástico, claro, lamento se não é uma revista literária de alta cultura), começando pelas edições brasileiras dos anos 70. Esta colectânea não traz nada de especialmente novo, excepto o facto de agrupar em papel novo e capa dura muito do que tenho amarelecido por gavetas e prateleiras. E comprou-se com uma nota de 10, o que é notável.

Para consumo amplamente familiar, os livros da Dana Spiotta e Lisa Genova são especialmente interessantes, até porque o segundo lida com uma das minhas obsessões que é a perda da memória (individual ou colectiva).

Por fim, a grande oportunidade do dia… o agora canónico Piketty a preço de saldo à custa de algum grunho que lhe dobrou um pouco da capa e permitiu à fenaque querer despachá-lo a um terço do preço original. Obrigadossss, portanto, a quem não sabe ainda manusear um livro com umas centenas de páginas sem ser à maneira de uma caras ou vipe na sala de espera do dentista. Porque ao preço normal, calma, que ainda faz doer, que o congelamento não acabou e a reposição é uma espécie de ilusão estatística.