Livrai-nos, Senhor, dos “Humanistas” – 2

Sim eu sei que li o artigo todo do Expresso de hoje porque vem lá parte do que conversei com a Isabel Leiria (e que, como sempre, foi fidelíssima ao que eu disse). Mas também é verdade que ela sabe fazer as contas e a história das coisas e por isso é que aqui vou reproduzir o quadro com a evolução da carga horária das várias disciplinas do 3º ciclo do Ensino Básico que mais mudaram desde 1989, nomeadamente com a  reforma de 2001 (sim, já tivemos duas reformas curriculares no século XXI, vamos para a 3ª) que criou as ACND, essas  coisas que tantos consideravam “gorduras”, mas que agora já parecem ser encaradas como “músculo”, porque o problema deverá estar na confecção e nos cozinheiros.

Adiante.

Vejamos:


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Em 2001, o humanismo do PS (via Santos Silva/Benavente) decidiu contemplar a matriz curricular do 3º ciclo com as “áreas curriculares não disciplinares” (Àrea de Projecto, Estudo Acompanhado e Formação Cívica) num total de 675 minutos que sacou sem dó nem piedade principalmente à área das Artes (foram 225 minutos a menos, cerca de 25% do total) e 170 das Ciências Sociais e Humanas (menos 170 minutos, mais de 20% do total). Os restantes cortes foram na ordem dos 10% ou pouco mais.

Em 2012, quando Nuno Crato extinguiu aquilo que há muito não passava de peso morto no currículo (um dia podemos discutir porque falhou, sendo que eu me lembro bem da forma como foram anunciadas e como depois foram implementadas), a reposição de tempos lectivos contemplou com generosidade as Ciências (que ganharam o dobro do que tinham perdido, sendo a única área em que o saldo foi positivo no século XXI), repôs as perdas do português e da Matemática, manteve as coisas em Educação Física, acrecentou menos de metade de um tempo a História e Geografia e decepou definitivamente a áreas das Artes e Tecnologias que ficaram com menos de metade do tempo que teve durante a última década do século XX (restaram 445 dos 900 minutos).

Portanto, quando agora surge nova investida dos defensores de um ensino “humanista” no sentido de reformar e “emagrecer” o currículo para o que é “essencial” eu tremo de medo, pois já sei onde é que os cortes costumam ir parar. Nem vale a pena andarmos a rodear a questão, porque este é o tipo de “humanismo” sem o qual eu passo muito bem. E quanto a “pensamento crítico e criativo” nem vale a pena começar aqui a elaborar muito sobre a forma como o querem desenvolver enquanto amputam as áreas do conhecimento em que mais se podem basear as tais “competências superiores”.

Dizem que agora o conhecimento não deve ser estanque… que as áreas disciplinares devem ser encaradas de uma forma fluída… que é errado traçar fronteiras “artificiais” e mais essa teorização toda que eu até concordo quando se trata das fases adequadas das aprendizagens, que necessitam de uma estruturação mais flexível. Só que acho uma enorme treta que se acredite que a “criatividade” se desenvolve sem conhecimentos minimamente sólidos ou que a capacidade “crítica” brota naturalmente do espírito sem a informação necessária.

Já me cansei de escrever que este tipo de defensores de um “Ensino Novo”, parente próximo do “Homem (neste caso Jovem) Novo” tendem a veicular, de forma consciente ou não, uma visão truncada do que deve ser a Educação e a formação dos indivíduos, Que eles proclamam querer “Integral” mas que, mal lhes dão o Poder, eles fazem tudo por truncar e, se possível, isolar do passado, destruindo a Memória ou procurando manipulá-la a seu contento.

O mais certo é que com um falar delicodoce, muito típico dos tempos formativos de pessoas como o actual secretário de Estado e da eminência parda do PS para a Educação (não, não falo neste momento da senadora MLR, mas do epistemólogo operacional Porfírio Silva, que anda por aí a espalhar o verbo dos novos paradigmas nascidos do “corte epistemológico” do início do século XX), exista quem se deixe ir na conversa e acredite que isto é mesmo uma “modernidade” ao serviço do “interesse dos alunos” e de uma “escola do século XXI”. E que só “professores que ainda são do século XX” é que não entendem isto. Nada de mais enganador, porque eles é que só sabem ler o mesmo que sempre leram e recusam admitir que erraram no passado e que se prestam a errar de novo.

Mas o truque é o do costume e faz lembrar o da indústria da Saúde…

Começa-se por criar uma narrativa sobre uma nova patologia/doença, descrevem-se sintomas adequadamente generalistas para despertar o hipocondríaco que há em muitos de nós. A seguir, anuncia-se que há uma cura. E passa-se ao processo de a mercantilizar, perante o alívio dos novos doentes.

Em Educação, não é muito diferente.

Querem uma verdadeira organização nova do currículo, flexível, com fronteiras porosas, baseada em projectos transdisciplinares? Então tenham coragem de ir mais longe e reorganizar tudo, permitir a criação de equipas pedagógicas por áreas disciplinares, reorganizem o tempo da escola e das aulas a sério, com verdadeira autonomia. E não acusem os professores de não quererem ser “decisores curriculares”. Eu recuso-me é a tratar estas coisas com base na lógica do alfaiate que quer gastar o mínimo de tecido no fato do cliente… um corte aqui não se nota muito, a não se fazem bainhas… diz-se que skinny é que está a dar e vai de poupar na fazenda.

E nunca, mas nunca, se tratem a vós mesmos como “humanistas”, porque isso é ofender a nossa inteligências e esvaziar a linguagem de todo o seu significado.

E nunca, mas nunca, digam que quem está contra algo, não sabe apresentar alternativas.

 

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4 thoughts on “Livrai-nos, Senhor, dos “Humanistas” – 2

  1. Pronto já se percebeu onde vão cortar outra vez…. (História e Geografia pois claro, até porque se cortam mais nas Artes elas desaparecem PUF!). Para disfarsar até já tivemos nos últimos dias parangonas a dizer o contrário. È só vantagens uma delas é reduzir pessoal no ME e abrir caminhho a contratação autarquica a bem da “descentralização”.

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