Afinal, o ME Sempre Acha que Somos Corruptos

Soube hoje que o ministério da educação decidiu proibir as editoras de distribuir mais de um manual por grupo disciplinar para análise em anos de adopção de novos.

A este respeito, algumas notas breves:

  • Se nada estava substancialmente mal (e eu ouvi um alto responsável dizer publicamente à minha frente que não estava), se não havia suspeições sobre a conduta dos professores, estranho a mudança de directrizes. Este tipo de medida apenas serve para dar a entender que, realmente, existiria um qualquer tipo de corrupção no processo de escolha dos manuais. Quiçá devido ao testemunho de culpados arrependidos que gostam de lançar lama sobre os outros.
  • Os manuais que vinham “em excesso” a mim de pouco servem empilhados, sendo que eram muitos os professores que depois os doavam às bibliotecas escolares ou depositavam em bancos de materiais para alunos carenciados. Os não adoptados eram muitas vezes encaminhados para outro tipo de destinos assistenciais, incluindo em palop.
  • Se a medida se destina a, fazendo menos umas centenas ou milhares de manuais, embaratecer o produto final vendido aos alunos, irei verificar se isso assim acontecerá no presente ano lectivo e, por mim, excluirei das minhas preferências todo e qualquer manual que não apresente uma significativa descida do custo (menos 50 cêntimos ou 1 euro como cosmética não conta).
  • Recuso-me a ir às sessões de sumos e croquetes, alegadamente de “formação” sobre novos manuais, independentemente dos créditos dados ou das estrelas do hotel. Não estou contra quem vai… cada pessoa é um caso. Eu é que tenho coisas mais interessantes para fazer.
  • Aguardo legislação sobre períodos de nojo e incompatibilidades entre o exercício de cargos de responsabilidade na estrutura de chefias do ME ou mesmo de cargos de tipo político e o exercício de cargos de conselheiro ou consultor (científico, pedagógico, etc), administrador ou equivalente nas empresas que operam no mercado dos materiais escolares. Acrescentaria familiares directos a este tipo de cautelas. E não apenas para o futuro. Já para quem lá anda agora.
  • Aguardo, já agora, legislação ou orientações claras que permitam que a não adopção de um manual oficial seja algo permitido como normal e não como excepção a justificar de forma demorada.

Por fim, há quem pareça não ter percebido que este nível de proibições – tipo lei seca – é o mais fértil terreno para truques por debaixo dos panos.

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12 thoughts on “Afinal, o ME Sempre Acha que Somos Corruptos

  1. Porque será que já nada nos espanta?
    “Por sorte, a vaca não tem apelidos de família para não lhe complicarem a existência” – Almada Negreiros

    Para vós…
    Bernard Herrmann – “Twisted Nerve”

  2. 1- Deixar em ata a data em que cada professor teve acesso a cada manual para análise, e em que data teve que o passar ao colega.
    2- Não utilizar tempo para analisar os manuais, depois do necessário para preparar as atividades letivas, que ultrapasse as 35 horas semanais.
    3- Se da conjugação de 1 e 2 resultar a falta de tempo para analisar os manuais, não fazer a adoção, justificando em ata, com explicitação do tempo disponível para efetuar o trabalho de análise.

  3. Que farto estou desta porcaria toda….
    Porque será que a área do ensino é tão propícia ao surgimento de tão grande número de imbecis, nomeadamente dos que (des)governam?

    1. Porque, se calhar, deste lado de cá, estão também, muitos imbecis que, ou já perderam a capacidade de se indignarem ou, pior, nunca a tiveram.
      O que me dói não são as provocações, o que me desespera são as reacções dos visados.

  4. Já que temos a fama, tenhamos também o proveito: adoptarei o livro de quem me oferecer o antecipadamente o exemplar. Quem se chega à frente?

    1. Pior do que um corrupto, só um corrupto que que se deixa corromper por migalhas. Vamos entrar no jogo deles e exigir ao ministro que nos entregue parte dos seus subornos. Se ele acha que a classe é corrupta, é porque para ele deve ser algo normal e que deve praticar!

      1. Ora bem… eu não sou incorruptível… tenho é um preço elevado que não vai lá com manuais ou outras ofertas menores. O patamar mais baixo é o de um qualquer vara na cgd. Tem de ser mais, muito mais… por uma questão de proporcionalidade… 🙂

  5. Esta atitude do M.E. constitui, infelizmente, um padrão da nossa forma de estar em sociedade.
    O ministério é constituído por portugueses que não renegam os seus princípios, ou a falta deles.

    Carlos Costa, é insuspeito de corrupção. Os rombos provocados no erário público, decorrentes das suas legítimas?? avaliações de risco do BES e BANIF, foram, apenas, catastróficas!
    Ao mesmo tempo foram providencias para muitos, poucos, que colocaram o seu?? dinheirinho em porto seguro a tempo e a horas!
    Mesmo com os avisos, vindos de todo o lado, a sua “força de carácter ??” levou-o a não hesitar em manter a sua posição.
    Ter a veleidade de suspeitar que a sua teimosia não esconde algo de muito tenebroso, seria considerado, pelos bem pensantes da causa pública, uma infâmia vinda de alguém movido por sentimentos vis e muito, mas mesmo muito, mesquinhos.

    Sem qualquer razão aparente, neste caso, não houve qualquer hesitação em pôr sob suspeita a honorabilidade de toda uma classe que, apesar, das cada vez mais frequentes tentativas de assédio por parte de certas editoras, tem conseguido resistir de forma digna de louvar.

  6. O que o ministro não fez, nem parece ser muito importante para os professores em geral, foi um duplo pedido de desculpas, pelos dez anos de constantes humilhações praticadas pelos dois anteriores governos.
    Duplo porque, a maioria dos professores foi vítima na sua qualidade de funcionário público e de professor.
    Pior do que as abjectas medidas legisladas, é a subjacente humilhação que elas contêm para a figura do cidadão que está por detrás de qualquer professor.

    O horário actual de um professor, só por si já constitui um desrespeito para o titular desse documento.

    Antigamente, leia-se, antes do reinado milú na 5 de outubro, um professor, para além do trabalho inerente à sua actividade, leccionava 22 horas lectivas por semana.
    Hoje um professor trabalha 1200 minuto por semana!!!

    A manutenção deste absurdo, deste rasgo de demência institucional, é, só por si, sintoma de que o estamos em presença de patologia sistémica no, passe a redundância, sistema.

    E sistémica porque a própria vítima deste absurdo, o professor, já o interiorizou de forma passiva, aceita que seja um assalariado, não à jorna, nem à hora, trabalhador ao minuto.

    Aceita que uma aula seja um somatório de minutos, neste caso 45 ou 90.

    O professor negoceia serviços, aulas, e outras actividades com base no factor minuto.

    O conceito de aula ultrapassou o fundo, espero que o conteúdo não tenha acompanhado descida. Os dados não o confirmam, felizmente.

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