Navegar à Vista dos Apoios Conseguidos

O alegado “debate” em relação à “profunda” reforma curricular que se diz ir acontecer para o ano ou outro, continua a ziguezaguear de acordo com a necessidade do ME, leia-se SE João Costa, encontrar apoios para as suas ideias no périplo que anda a fazer pelo país. Ao que parece, aquilo que vai dizendo aqui e ali é tudo hipotético, como já escrevi uma espécie de atirar barro à parede, a ver o que cola, quem apoia o quê e evitar o que pode levantar mais ondas e reduzir a base de suporte para o regresso ao futuro.

Por acaso (!), acho que o assunto é demasiado sério e importante para ser tratado desta forma, em reuniões onde se dizem coisas que depois se desdizem para o público dos jornais, em confidências que se destinam a medir a profundidade da água e e em exercícios de pesca à linha de apoios para as medidas que se diz servirem para “emagrecer o currículo”. As minhas fontes (sempre infidedignas, como sabeis) contam-me como, de forma rápida, hábil e convincente, são traçados cenários em tais reuniões e sessões acerca de tudo e mais alguma coisa, desde a possibilidade de se reduzirem horas nesta ou aquela disciplina à forma como podem passar a ser dadas aulas em determinadas condições (o caso da semestralização das disciplinas enteadas).

Os relatos que tenho recebido são coincidentes na estratégia apresentada, nas possibilidades em aberto e, se eu sei parte do que foi dito/confidenciado/explicado e sou um zeco de subúrbio, claro que jornalistas com bastante experiência e fontes melhores do que as minhas também terão sabido do que se falou por aí. Se isso foi feito para surgirem notícias destinadas a avaliar o sentido e força dos ventos e em seguida se desdizer o dito, afirmando-se que nunca tal coisa foi ponderada quando há celeuma no ar, só posso considerar que é uma táctica lamentável pela sua falta de imaginação (o regresso ao passado não é apenas nas ideias pedagógicas) na forma de produzir spin em torno de um tema que exigiria maior seriedade e menos irritação quando há ruído diferente do desejado.

O Ministério da Educação (ME) garantiu nesta quinta-feira, em resposta a questões do PÚBLICO, que não haverá nenhuma redução da carga horárias das disciplinas de Português e Matemática. “Não está, nem esteve, a ser equacionada qualquer redução da carga horária das disciplinas de Português e Matemática, nem tal alguma vez foi afirmado pelo ME”.

Até agora, discordava de várias das ideias que pareciam transparecer das declarações “oficiais” do ME/SE acerca deste assunto. Agora, ao avolumarem-se sinais de desorientação e de corrida para a frente, lados, cima e baixo, procurando recrutar apoios nas associações amigas, deixei de ter a mínima confiança neste processo de “diálogo” que volta aos tempos guterristas de prometer queijos limianos em troca de tropas, trocando a mobilização dos professores a quem se continua a negar qualquer compensação por uma década de cortes e de degradação das suas condições materiais de trabalho pela sedução de “âncoras” destinadas a ampliar a mensagem e/ou combaterem as resistências.

“Nunca foi posta em cima de mesa a redução da carga horária”, disse também ao PÚBLICO a presidente da Associação de Professores de Matemática (APM), Lurdes Figueiral. A APM é uma das associações de professores que tem estado a trabalhar com o Ministério da Educação na definição do que serão as aprendizagens consideradas essenciais, uma das peças do programa de mudança que está a ser preparado pelo ME.

(…)

Da parte dos professores, este trabalho deverá estar concluído até ao princípio das férias da Páscoa, a 5 de Abril, indicou Lurdes Figueiral, que refere ainda que um dos objectivos do que tem vindo a ser analisado é o de se caminhar para um currículo “onde as aprendizagens não estejam apenas espartilhadas pelas disciplinas”, desenvolvendo “abordagens transversais”. “Há aprendizagens que podem ser feitas sem ser na carga horária das disciplinas”, especificou.

O que eu acho espantoso é que se fale em trabalho concluído “da parte dos professores”, quando se trata apenas de alguns, fidelíssimos, excluindo-se toda a gente que discorda. Apesar da estima que tenho pela Lurdes Figueiral, com quem me cruzei num par de ocasiões, há declarações que não fazem qualquer sentido quando se diz uma coisa, o seu contrário e ainda uma versão twilight zone.

(nunca se falou em cortes, mas as aprendizagens podem fazer-se sem carga horária, os programas devem restringir-se ao essencial, mas não é para serem cortados… ontem era para haver semestres, hoje já não há, há abordagens transversais; e nem vale a pena cruzar isto com a prosa dos poucos progenitores do “perfil” que aparecem publicamente a defendê-lo – e cito de forma quase literal – na base do não encham a cabeça das crianças de conteúdos ou não empolem discursos sobre o conhecimento, num dia – David Rodrigues – e no outro que o saber não ocupa lugarGuilherme de Oliveira Martins)

O secretário anda meio perdido no labirinto, porventura confundido com o brilho que acredita emanar da sua Razão e dos aplausos dos cortesãos do momento. Infelizmente, tenho poucas dúvidas que algo vai sair disto, mesmo que seja assim a modos que um…

frankenstein

Submerso

Em convites para assistir à apresentação dos manuais das diversas editoras no mercado (obviamente com destaque para as dos dois maiores grupos) em sessões a decorrer em espaços selectos. A mim, parece que isto dificilmente sairá mais barato às editoras do que entregarem os manuais aos professores, numa quantidade razoável para análise em vez de um para grupos com 10 ou mais pessoas (caso do de Português). Tudo isto é muito parvo.

Clown

O Horror à Verdadeira Liberdade de Escolha

Não estou a falar dos subsídios aos queirozezes… esse é todo um outro campeonato.

Falo do medo imenso, misturado com uma atroz desconfiança, que o ME foi desenvolvendo ao longo dos anos em dar liberdade às escolas e professores para decidirem como se organizar e como trabalhar.

Modelo de gestão escolar? Só pode haver um e nisso concordam quase todos os que por lá têm passado nos últimos 20 anos. Aquela parte da “democracia” só funciona se não for entre pares e se podermos escolher apenas diferentes tons de azul escuro.

Forma de organizar o trabalho pedagógico? Conforme os humores e inclinações dos senhores do momento, surge uma cartilha que se afirma com autoridade moral sobre todas as outras alternativas.

Concepção da avaliação e do que é sucesso? Idem, idem, aspas, aspas, sendo que as coisas mudam mais depressa do que os desamores de uma qualquer apresentadora de televisão ou diva de telenovela nacional. Agora temos os planos de sucesso e melhoria chapa mais.

Gestão do currículo? É “flexível” se for de acordo com o mesmo modelo. “Inovadora” se seguir os modelos aprendidos por alguns há 20 ou 30 anos. “Autónoma” desde que as aulas e os horários sejam contados ao minuto.

E poderia continuar…

Se gostassem mesmo de liberdade, encarariam as diferentes possibilidades como “alternativas” entre si e não numa lógica de supremacia de uma sobre todas as outras. Se as escolas quiserem voltar a organizar-se com um poder de tipo mais colegial porque devem estar proibidas de o fazer? As escolas privadas podem. A comunidade educativa prefere um trabalho pedagógico de tipo mais “conservador” (para alguns)? É acusada de imensos males e não pode seguir o que é feito em muitos “colégios de sucesso”, mais conservadores que a sardinha em conserva tenório. Mas se existir uma organização dos horários dos alunos e professores menos convencional, lá aparecem os senhores inspectores a embirrar com os 5 minutos deste intervalo ou daquele. Ou vai tudo por tabela ou a trabalheira para contornar todo o mais ínfimo normativo ocupa quase mais tempo do que o que interessa mesmo (basta ver as recorrentes queixas do director da Secundária de Carcavelos em relação a todas as inspecções por que passou devido a introduzir metodologias diferentes de trabalho – com as quais posso concordar ou não, mas não é esse o caso, entendem?).

A desconfiança em relação aos professores é imensa, o medo do regresso a práticas de “gestão democrática” colide frontalmente com o pensamento de quem acha que o modelo centralizado é óptimo (desde que não aplicado a concursos de professores), a apologia do “trabalho colaborativo” tem apenas um sentido (o descendente… colaborem lá a fazer o que mandamos…), a “autonomia” das escolas um cliché da novilíngua para ignorar e ir buscar tomates podres cada vez que alguém com rabo sentado na 5 de Outubro (ou nas Laranjeiras, ou na 24 de Julho que, apesar da vista para o rio nunca atraiu nenhum titular da pasta) garante que é desta que vai ser.

Liberdade? Democracia? Uma “Escola Cidadã”?

Que tal começarmos por dar o exemplo?

fio-de-prumo