(O Segredo)

Esta passagem explica muito em relação à importância da definição do que é o “currículo essencial” ou, no caso da terminologia de então… o que é o “tronco comum” do currículo. Não é uma questão neutra, é um exercício de poder e acreditem que o que se joga está a léguas do “interesse dos alunos“. Quem está à mesa, com a faca na mão e o pão alia diante de si, quando reparte e decide quem tem direito às fatias “essenciais”

IMG_4305

A Reforma dos Programas Escolares (1992).Rio Tinto: Edições Asa, p. 87.

A conversa do “diálogo intenso” com as escolas é apenas uma estratégia de sedução para dar a entender que partilharam decisões tomadas por meia dúzia de representantes de poderosos grupos de pressão que operam de forma quase livre nos corredores do ME, agora mais uns do que outros que por lá andavam no mandato anterior . Ou acham que a conversa em torno das horas de Português e Matemática é um acaso (a APM e a APP não andam a brincar em serviço… tomara eu que a APH não fosse tão fofinha)? Já viram como a quem criticava tanto as “disciplinas estruturantes” de Crato agora nem passa pela cabeça aceitar qualquer redução se for o seu nicho a ser atingido?

Regresso ao Futuro – 1

Uma coisa que me irrita um pouquito neste discurso em torno das alegadas mudanças que se querem implementar em torno do currículo, dos programas, das metodologias, etc, é a absoluta mistificação que se faz em relação ao seu carácter “inovador” e à sua ligação com uma “escola para o século XXI” e a necessidade de dotar os alunos de “competências” e de um “perfil” compatível com o “futuro”, algo que só “professores do século XX” e “escolas do século XIX” não conseguem perceber.

Ora, toda essa parafernália retórica é enganadora, para não dizer voluntariamente falsa, apostando no desconhecimento de uns e na falta de memória de outros. Ou ainda… no cansaço da maioria em ir desencantar onde tudo isto já foi escrito e reescrito por alguns dos que ainda andam por aí a anunciar caminhos para o futuro e que anda a ser retomado pelos seus discípulos e alunos mais fiéis desses tempos que foram o final dos anos 80 e início dos anos 90 do século XX.

Na altura, era eu um simples contratado, mas já gostava de ler as novidades (que na altura ainda o eram em certa medida) e mais tarde fui completando por outras razões (profissionalização, doutoramento) a minha biblioteca com umas largas dezenas (se calhar centenas se incluir folhetos, publicações do ME para distribuição gratuita nas escolas, cópias de decretos, portarias e despachos) de publicações que andam por diversas estantes ou empilhadas pelos cantos do escritório.

Hoje, deu-me para ir buscar meia dúzia de livros onde 99% do que nos andam a querer enfiar pelas goelas abaixo já foi escrito, legislado, implementado, revogado no todo ou em parte por manifesta inadequação, novamente apresentado como novidade, de novo ignorado no todo ou em parte por falta de meios e agora mais uma vez despejado como se fosse a quinta essência da “mais recente investigação” (para citar quem já cá anda há mais tempo do que eu nisto e que poderia evitar chamar-nos estúpidos ou precocemente atingidos pela senilidade).

O que vou escrever nos próximos dias é baseado mais ou menos nos livros que apresento mais abaixo ou em outros que decida retirar do fundo da prateleira e tirar-lhe o pó sem risco de ficar intoxicado pela sua acumulação ao fim de 20-25 anos. As imagens não são as melhores porque não estou para gastar demasiado tempo nisto e para que se perceba que são mesmo coisas minhas e não sacadas da net ou citadas a partir de citações (o que acontece a muita boa gente).

Só para efeitos de aperitivo, deixarei aqui o perfil desejável dos alunos à saída do Ensino Básico e do Ensino Secundário no início dos anos 90, na sequência da implementação da chamada Reforma Roberto Carneiro. As páginas reproduzidas são as 58-60 da 2ª edição (1993) dapublicação da Texto Editora (então a preferida pelo ME para este tipo de edições) Reforma Curricular – Guia.

Apesar da qualidade não ser a melhor… quer-me parecer que – menos umas conversas sobre a sociedade da informação e anglicismos como soft skills – o século XXI já estava aqui.

IMG_4288IMG_4289IMG_4321

O Regabofe

Claro que o problema sempre foi o salário dos professores e a sua progressão. Claro que muito do que aconteceu não foi porque se queriam tapar buracos de forma disfarçada. E claro que as cardonas&varas nada têm a ver com isto, nem toda aquela tropa fandanga que os governos colocaram estrategicamente nas sucessivas administrações para facilitar créditos de milhões, enquanto aumenta todo o tipo de taxas para os pequenos depositantes, chegando mesmo a atribuir cartões e a cobrá-los a quem nem sequer os pedia.

CGD perdeu quase quatro mil milhões de euros em seis anos

Banco público teve um prejuízo histórico de 1859 milhões no ano passado para limpar o balanço e só vai voltar aos lucros em 2018.

Os banqueiros portugueses – ou quem tenta passar por isso – são um dos maiores nichos de incompetência pretensiosa deste país, armados em moralistas das despesas e dos rendimentos alheios quando andaram anos a fio a afundar o país, mas com a possibilidade do poder político os encobrir e nunca vir alguém a ser devidamente responsabilizado, por ser mais do que incestuosa a relação.

É obscena a forma como muita desta gente se continua a passear por aí – com “banqueiros”, “empresários” ou apenas duques do iseg que dão honoris causa a salgados a terem direito a lugar cativo no programa do vidente gomes ferreira – e a achar que tem qualquer tipo de autoridade (moral, técnica, humana) sobre a maioria da população.  Pena é que estes fluxos fiquem no limbo e tenham sido comprados exclusivos para expurgar a informação dos nomes e operações mais incómodas para o clube dos desinformantes.

Há que dar alguma informação de aparato, para que possa ser reservada a mais relevante.

E a geringonça política não está inocente nisto, porque alguns de topo são herdeiros directos de uma das situações responsáveis por este descalabro (e muito beneficiou durante anos com, por exemplo, a complacência mútua com os espíritosantos) e outros preferem fazer ondas ao lado e até defender quem sabem que é culpado de muita tropelia… mas que sabe muita coisa enlameada e é pouco aconselhável que diga tudo o que sabe. Mesmo incriminando-se para não cair sozinho.

black hole