Reformas, Educação, Mudança, Paciência

Acho sempre algo delirante quando leio ou ouço alguém a afirmar que quem não quer a sua reforma particular na Educação é porque não quer mudar nada e é imobilista. Caramba, se há área da governação em reforma (ou mesmo revolução) permanente tem sido a Educação. Cada mandato não traz uma mas quase sempre um conjunto de maiores ou menores reformas em matérias que mereciam mais estabilidade como a avaliação (interna ou externa) dos alunos, os programas das disciplinas (a começar pela dança da Matemática e do Português conforme as capelinhas próximas dos governantes passageiros) ou mesmo o currículo que vai engordando ou emagrecendo conforme os humores de quem confunde os seus credos particulares com verdades absolutas e universais.

Quem analisa as séries longas dos indicadores da alfabetização e do progresso da escolarização da população portuguesa sabe que raramente é possível encontrar pontos de forte ruptura que sejam associáveis a reformas muito específicas. Há epifenómenos (como o das NO que subitamente certificaram adultos aos magotes), mas se usarmos médias ponderadas as tendências de média e longa duração remetem os reformistas militantes para um ponto numa linha com oscilações moderadas. Basta olharmos para os progressos dos resultados dos alunos portugueses em testes internacionais para se perceber que é um processo lento, contínuo e que é vergonhoso aparecer est@ ou aquel@ a reclamar a quase exclusiva paternidade.

No entanto, a cada ciclo político corresponde uma fúria reformista que pretende num par de anos virar tudo do avesso e não me estou sequer a referir ao modelo de gestão das escolas ou à carreira docente. Falo mesmo da intromissão abusiva no trabalho das escolas com os alunos. A falta de bom senso, o excessivo peso do desejo de deixar “uma marca”, de “mudar”, como se a mudança fosse uma volúpia irresistível e sempre acertada em si mesma, têm-nos levado em ziguezague quase permanente, ignorando o tempo ideal para avaliar o impacto de algumas medidas (raramente menos de uma década), ignorando-se verdadeiras avaliações da sua implementação para além das “encomendas” oficiais aos grupos telecomandados do costume, atirando com argumentos ideológicos e crenças pessoais como se fossem verdades “científicas”. A preparação é em passo acelerado e querem-se resultados a tempo das novas eleições. A Educação serve a Política e não a Sociedade ou o país e os portugueses. Serve para alimento do ego deste ou daquele indivíduo ou grupo. É um campo de luta política, em que a vergonha de “perder” e o desejo de “ganhar” leva tantas vezes ao disparate. Em que o “debate” se confunde com o eco nas salas. Em que as palavras perdem sentido, retorcidas no seu significado.

Em que quem não quer mudar “connosco” é porque quer que venham os “outros” e/ou porque quer permanecer no passado, sem mudar. Em que a coisa é boa/má conforme seja de Esquerda ou Direita. O que é de uma enorme falta de sensatez e mesmo de honestidade intelectual.

Já escrevi isto mais vezes do que seria razoável, mas é verdade que não tenho qualquer esperança que sirva seja do que for. É uma espécie de mantra pessoal, uma ladaínha que faço a intervalos regulares quando observo nova vaga de desvario.

Ouroboros

 

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