Um Azar dos Távoras

Estive a ler a justificação dada pela presidente da Associação de Professores de Geografia para o facto do documento subscrito por 14 associações de professores ter nas suas propriedades como autora uma pessoa que é da direcção da APG e adjunta do gabinete do secretário de Estado da Educação. A imagem abaixo é do Correio da Manhã:

CM 19MAr17

Após a leitura fiquei a saber o seguinte:

  • 4 associações de professores decidiram tomar, entre si, a iniciativa de fazer a carta aberta, contactando depois as restantes.
  • Em vez de criarem um documento de base (abrir o Word e clicar em “Novo”, um processo que garanto ser rápido), decidiram ir “buscar à Internet” um documento existente para apagar o que não interessava e escrever o que pretendiam.
  • O documento em causa tinha como autora uma pessoa que é em simultâneo adjunta do secretário de Estado e da direcção de uma dessas 4 associações, a mesma a que pertence quem presta estas declarações. Curiosamente, se formos consultar o documento em causa, na sua versão “na Internet”, não apresenta autoria e sendo um pdf não pode ser alterado sem alguma perda de tempo (superior a abrir um documento novo). Essa autoria aparece apenas na versão anterior ainda em formato .doc de dia 12 de Fevereiro (pelas 16.21), sendo que até aparece quem fez a última modificação e a data da última impressão daquele ficheiro específico (tenho um exemplar, que me chegou por comentador amigo). Esse documento circulou por mail, não sabendo eu se é mais fácil de encontrar do que o pdf.

Perante isto, eu tenho alguma dificuldade em fazer comentários… em especial se associar tudo o que é dito a outras declarações na peça (é falso que os programas em vigência, nomeadamente os de Matemática e Português, estejam em vigor desde 1990), ao facto da APEVT se ter envolvido neste documento que não faz uma referência ao corte radical da(s) sua(s) disciplina(s) ainda antes de Nuno Crato (que há quem anatemize pelas razões menos certas, porque ele continuou muita da obra anterior, o que é branqueado) ou de um mail que chegou às redacções dos jornais subscrito pela APP ir, ao que me contaram algumas pessoas que o receberam, marcado por diversos erros ortográficos.

Sinceramente, da presidente da APG esperava algo mais, até porque me recordo de uma boa entrevista que deu há anos ao Educare em que elogiava as medidas de Nuno Crato que reforçavam a sua disciplina e em que afirmou coisas como “no que diz respeito à Geografia do 3.º ciclo, o aumento da carga horário é, para nós, uma boa decisão” ou toda esta passagem:

E: A reorganização curricular, tal como está traçada, responde às necessidades da comunidade educativa?
ESL:
Essa resposta só pode ser dada por estudos científicos, levados a cabo pela comunidade científica. Contudo, considero que é importante que os jovens se concentrem no conjunto de disciplinas nucleares. Mas a escola deve propiciar também, por exemplo através das atividades extracurriculares, que as crianças e jovens contactem com situações de aprendizagem diferentes, menos formais, mas igualmente importantes num mundo que está em constante mudança.

E: Matemática e Português saem reforçadas nesta reforma. Uma boa opção?
ESL:
Sempre considerei a Matemática e o Português duas disciplinas fundamentais. Teremos que trabalhar mais em conjunto pois, como disse anteriormente, a Geografia, tal como as outras disciplinas, contribui também para a aprendizagem de conceitos matemáticos e para o aprofundamento do domínio da Língua Portuguesa.

E: Área de Projeto e Estudo Acompanhado desaparecem. Não farão falta?
ESL:
Penso que será sempre importante as crianças e os jovens aprenderem a traçar objetivos, a resolver problemas, a tomar decisões. Estas capacidades tanto se podem desenvolver no quadro das disciplinas formais como através das atividades extracurriculares.

E eu concordo bastante com ela nestas matérias (menos na paranóia total com o Português e a Matemática, mesmo se lecciono uma das disciplinas) e em quase todas as outras que aborda nas suas respostas.

Quanto a mim, repito que aponto coincidências e não imputo malfeitorias. Quanto muito, profundas inabilidades. E fui fielmente citado, para que não restem dúvidas.

Num outro dia, posso anotar as parte da carta aberta que me levantam muitas dúvidas e aquelas que acho particularmente mal pensadas e pior executadas. Não porque eu seja muito esperto… apenas porque há quem pareça ainda menos.

CM 19MAr17 B

Só para que conste, a tag que usei para este post foi “Arquivo Pitoresco”.

 

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9 thoughts on “Um Azar dos Távoras

  1. É inaceitável a falta de qualidade destas pessoas! A Educação deveria ser uma área tratada com pinças… Porém, é entregue a gente que, embora muito contentinha com os seus lugarzinhos, pouco sabe ou compreende do que é preciso fazer ou, até, não fazer.

  2. Tem razão Graça o que essa gentinha incompetente faz por um destacamento… Tal como os sindicalistas ( dirigentes) fazem para ter mais uns destacamentos, vendem a alma ao criador

  3. Diz que “(é falso que os programas em vigência, nomeadamente os de Matemática e Português, estejam em vigor desde 1990)” mas o recorte de jornal que mostra diz que “é urgente atualizar os programas, alguns são dos anos 1990”. Há ou não programas de 1990 (Roberto Carneiro)? A notícia não falava de Matemática e Português… Isto mais parece uma luta de galos e poleiros…

    1. Todos os programas foram ultrapassados pelas metas bem mais recentes. E sim, acho que isto é uma triste luta de galos e poleiros. Referi Português e Matemática porque têm sido os principais centros de disputa dos despojos do resto do currículo.

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