A Relatividade da Obesidade

Mais de uma pessoa me diz… “Paulo, pá, tu és má língua e não percebes as coisas ou estás a fazer de propósito… o SE quando fala de obesidade fala dos programas extensos e isso é indesmentível e anda toda a gente de cabeça à nora com as metas do Crato”!

Vamos lá por partes:

É certo e sabido que sou um bocado má língua, se por isso entendermos dizer coisas desagradáveis para algumas pessoas. Mas não é porque diga necessariamente coisas erradas. Esse tipo de crítica ouço-a há décadas, não é nada de novo.

Quanto ao resto, começo por aceitar à cabeça (para evitar o tiro rápido dos anti-cratos que gostam de reduzir tudo a “nós ou ele” na falta de argumentos) que as metas dos tempos do Crato são, em algumas disciplinas, uma espécie de elenco interminável, que atomiza o próprio processo de aprendizagem que deveria ser algo feito em contínuo. Mas… que eu saiba sempre ouvi que as metas não se sobrepunham aos programas e, mais importante, menos se sobrepõem ao meu bom senso e a alguma coragem (outros dirão mau feitio) para não encarneirar ao primeiro (ou segundo) empurrão.

No entanto… a obesidade tem muita relação com o espaço disponível… ou passando para os programas disciplinares tem muito a ver com o tempo disponível. Um determinado programa pode ser extremamente obeso para 90 minutos semanais, mas escanzelado para 180 (não semestralizados, entenda-se…). Ora… há disciplinas que foram decepadas há 15 anos, com o mesmo programa a passar a ser leccionado em muito menos tempo semanal ao longo do 3º ciclo. Claro que há obesidade… é como eu querer meter-me dentro de umas calças uma série de números abaixo do meu. Não dá. Ou armo-me em moderno e fico com os interiores de fora como a rapaziada. O que é péssimo a imensos níveis, começando pela poluição visual.

O currículo mudou ao longo dos últimos 15 anos no sentido da concentração em apenas algumas disciplinas ditas “estruturantes”, mas – no caso do 1º ciclo, por exemplo – a par de uma dispersão por “actividades” que vieram ocupar tempo aos miúdos, alegadamente para “enriquecer” o currículo. A mim complica os nervos, ora se complica, assistir a pessoas que acharam bem esse “enriquecimento” na base do qualquer coisa gira agora aparecerem a dizer que a parte lectiva precisa de “emagrecer” e que os conteúdos disciplinares é que são muitos. Eu percebo a lógica e a coerência do pensamento “fora das aulas é que se aprende”, mas permito-me o anacronismo de discordar em parte disso. Acho do melhor que os meus alunos saibam fazer uma dramatização de uma cena medieval, mas não me importo nada que também saibam analisar uma carta de foral e explicar as vantagens da vida num concelho. E mais coisas.

Por fim, mas apenas por agora, gostava de apontar coincidências (e nunca mais do que isso, pois todos temos o direito a defender os nossos interesses) entre quem mais aparece publicamente a defender certas flexibilizações e transversalidades e quem parece ter assegurados ganhos nas suas próprias áreas disciplinares, mesmo que não sejam assim muito evidentes para os leigos. Embora possa vir a ser apedrejados por bons amigos, a verdade é que os representantes de uma disciplina que há uns anos eram contra o hiato criado pelo facto de essa disciplina não ser leccionada de forma contínua, agora aparecem a defender semestralizações que criam esses mesmos hiatos em mais disciplinas, algumas delas que como a História têm mesmo uma lógica de continuidade temporal que é essencial para a sua compreensão. Mas se isso permitir uma outra divisão do tempo… já não há problema nenhum, certo? E quem está contra é que é faccioso e corporativo e tal. Que a APH tenha aparentemente enfiado o barrete é apenas lamentável, mas não inesperado (aquilo é muit@ doutor@ do Secundário*). Claro que uma redefinição curricular não deve ser objecto de disputas e quezílias interdisciplinares. Concordo em absoluto. Ma anoto que já gente mais experta e melhor posicionada do que outra quando chega à altura de definir o que é “essencial”.

obelix

* Lá está a má língua a funcionar.

Advertisements

One thought on “A Relatividade da Obesidade

  1. De uma coisa eu sei: os programas de Português do 3.º ciclo (nomeadamente no que respeita à Leitura e Educação Literária) e do Secundário são absolutamente obesos. Cito sempre o exemplo da abordagem de ‘Mensagem’: 8 poemas a analisar em 6 aulas.

    Há muito que prefiro o «pouco mas com qualidade» ao «tudo e à martelada». O que a mim me espanta, passe a redundância, é a concordância com a «minha» associação de professores.

    O melhor programa que já lecionei foi aquele que resultou do projeto FALAR: concentrado e com mais do que tempo para lecionar e treinar os conteúdos.

    Relativamente às metas, devo dizer que lhes presto pouca ou nenhuma atenção. Aquilo é um emaranhado de coisas a que convém dar apenas uma vista de olhos. Não me oponho à sua existência, enquanto espécie de balizamento, mas não mais do que isso.

    Quanto ao mais, chamem-se Crato, Costa ou Rodrigues, essas figuras são-me indiferentes. Já tenho idade suficiente, já passei por ministros e mudanças suficientes para perceber ao que vêm e a fraude que todos são.

    Siga.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s