Avaliações, Supervisões e Contradições

Conheço pessoas que defendem um ensino humanista, preocupado com a formação integral dos alunos e que acham que a avaliação, em especial a quantitativa, sumativa e hierarquizadora, é algo que deve ser limitado ao essencial ou mesmo erradicada por ser um factor que em nada melhora as aprendizagens e pode mesmo prejudicar o desenvolvimento das competências dos alunos. Discordo em parte desta visão, mas compreendo a sua coerência.

Conheço pessoas que defendem um ensino que se quer rigoroso na forma como vai avaliando todas as fases das aprendizagens realizadas pelos alunos, devendo todos os elementos observados ser registados em grelhas com as devidas ponderações previamente definidas, para que a avaliação final seja o mais objectiva e rigorosa possível, limitando-se ao mínimo a subjectividade do avaliador individual para benefício da fiabilidade e validade dessa avaliação. Discordo em parte dessa visão, mas compreendo a sua coerência.

Conheço pessoas que conseguem conciliar, numa geografia variável, elementos das duas perspectivas e quero acreditar sinceramente que sou uma delas.

Aquilo que tenho mais dificuldade em compreender – e conheço um bom lote de pessoas assim – é quando se tem uma enorme retórica humanista em defesa da tal formação integral dos indivíduos, mas depois se pretende reduzir tudo a uma quadrícula de excel com um formulário rígido que na última coluna apresenta um resultado a que o professor deve obedecer na avaliação que faz dos seus alunos, sem qualquer margem de autonomia pessoal/profissional.

A ver se explico de forma muito sucinta algumas crenças minhas, não muito relativizáveis:

  • Uma grelha para a avaliação dos alunos, com mais ou menos ponderações ou sofisticações, é um elemento auxiliar do trabalho do professor e nunca deve ser algo que substitua o seu juízo pessoal. Nunca o cálculo mecânico deve substituir a avaliação humana.
  • A classificação de um aluno não pode ser definida apenas através de uma média aritmética dos resultados dos testes ou, de outra maneira, apenas a olhómetro, sem quaisquer elementos que a fundamentem.
  • A supervisão pedagógica é algo muito diferente de andar a ver as grelhas dos colegas para confirmar se as notas estão dadas. Em boa verdade, a supervisão pedagógica deve incidir sobre quase tudo o que acontece ANTES de serem feitas as ditas grelhas, porque se o processo que levou a elas foi errado, tudo o que lá está é errado, mesmo que as fórmulas inseridas estejam certas.
  • Se há malta que incumpre as suas obrigações profissionais de forma notória e conhecida, não se deve penalizar toda a gente à volta, fumigando toda a floresta só para desparasitar esta ou aquela árvore.
  • Há pessoal que não gosta de grelhas, não porque as não saiba fazer ou preencher, mas porque aprendeu o suficiente para conhecer as suas enormes limitações por comparação com a realidade, ela mesma. E também porque, apesar de ter dúvidas, soube perder o medo de tomar decisões por si mesmo.

Por fim e para tornar isto ainda um pouco mais áspero: há malta que adora grelhas porque tem muito tempo na vida por preencher por falta do que fazer dentro e fora da escola. Em alguns casos, porque têm poucas ou nenhumas aulas para dar ou porque as ditas aulas são mais ocupadas a fazer registos do que a tentar transmitir qualquer coisa com interesse humano.

Nutty Professor

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12 thoughts on “Avaliações, Supervisões e Contradições

  1. Na minha opinião, mais do que pensar o modo (mais grelha, menos grelhado) como avaliamos, importa reflectir o que ensinamos.
    Se formos honestos connosco próprios, o que responderíamos a esta questão: qual a percentagem, de entre tudo aquilo que obrigamos as crianças a aprender, que não passa de lixo, pesado e inútil para a vida?
    E, já agora, quantas coisas indispensáveis à vida actual não ficam totalmente fora dos muros da escola?

    1. Ora aí é que entra a questão da selecção do que achamos “essencial”. Eu tenho a vida (acho) facilitada, porque consigo explicar a relevância da maioria das coisas que ensino em História para a compreensão do presente.
      No caso do português, confesso que a teorização de algumas coisas semânticas oblíquas me escapa um pouco quando ensinadas no 2º ciclo…

      Mas é complicado chegar-se a um cânone pacífico sobre o que ´” indispensável” à vida actual… vejam-se exemplos de chico-espertismo, relvismo, isaltinismo e afins. O seu “sucesso” não passou pelo que aprenderam nas aulas…

      1. Sim, é complicado definir o que achamos indispensável e o que é inútil. Mas isso não justifica que despejemos para os currículos tudo o que vem à cabeça de gerações sucessivas de imbecis que mandaram no Ministério da Educação e obriguemos as pobres crianças a decorar isso.
        Na escola primária da minha geração tínhamos de aprender até as estações e apeadeiros das linhas férreas (Porquê, se havia mapas?). Actualmente obrigamos as crianças a saber informação inútil enquanto, por exemplo, cozinhar, sexualidade a sério (e não umas noções tão básicas que até as criancinhas de 7 anos as conhecem já), conduzir um automóvel e tantas outras coisas de que, inegavelmente, vão fazer uso ou vão sentir a necessidade, nem sequer abordamos.
        Quando quiser que a sua filha aprenda a guiar, não vai ser na escola que os impostos do pai pagam, vai ter de aprender numa escola particular e paga à parte. Porque não pode a escola pública ensiná-lo se é paga pelos contribuintes e faz falta? Guiar é menos importante do que saber que, quando a luz incide sobre uma lente convexa, o ângulo de reflexão é de tantos graus (eu sou muito feliz sem saber isto)? E de tantos outros exemplos podíamos falar.
        O facto de ser complicado definir o que é e o que não é importante aprender na escola só torna mais urgente que o pensemos.

      2. Quero sexualidade a sério na escola, diz o comentador. Cuidado, não vá a coisa começar a correr mal!

        A justiça do Distrito Federal condenou uma escola de Taguatinga (DF) a pagar R$ 30 mil de indenização por danos morais, por ter permitido que uma aluna, de 11 anos, tivesse acesso, na biblioteca do estabelecimento de ensino, a material considerado inapropriado para sua idade. A estudante, que na época do ocorrido, cursava a quinta série se deparou com material de cunho pornográfico, com a falsa ideia de educação infantil, livro denominado “Que Confusão! – Minha Primeira Coleção de Iniciação Sexual e Afetiva”.

        http://noticias.r7.com/distrito-federal/justica-condena-escola-a-pagar-r-30-mil-apos-aluna-de-11-anos-ter-acesso-a-livro-de-iniciacao-sexual-04082015?amp

    1. Sísifo, você não tem consciência disso, mas sabe alguma Filosofia e lhe garanto que a usa todos os dias (a não ser que me diga que não tem cérebro nem pensa…nesse caso já me calo).
      A sua Filosofia permite-lhe que você me tenha contestado. Quer alguma coisa mais útil que aquilo que lhe permite pensar por si próprio e dizer-me que não concorda comigo? Acha que a Óptica, a Acústica ou a Dinâmica estão no mesmo patamar?

  2. Chorão, “Guiar é menos importante do que saber que, quando a luz incide sobre uma lente convexa, o ângulo de reflexão é de tantos graus (eu sou muito feliz sem saber isto)?”

    Eu, por acaso considero esta informação importante. E outras com as quais tb posso considerar ser feliz.

    Lembro-lhe o filme, fraquinho, do Perdido em Marte com o Matt Damon. Os conhecimentos, alguns básicos, que o ajudaram a construir, por exemplo uma estufa com rega……

    É ficção. Mas, como afirmava AC Clark, a ficção torna-se, por vezes, realidade.

  3. Aproveitando o tema, Chorão, e agora sem qualquer ficção, lembro-me quando, jovem aluna do secundário, o oftalmologista disse que tinha astigmatismo. Quando fui comprar as lentes, o técnico, senhor sério e já entradote perguntou-me, entre o gozo e a ironia , se eu sabia o que era o astigmatismo. respondi-lhe que era 1 deficiência na curvatura do cristalino que tinha por consequência blá blá bla….

    O senhor ficou calado e depois deu-me os parabéns. Sinceramente, fiquei feliz. Tinha aprendido sobre isso nas aulas sobre lentes e formação de imagens.

  4. Guiar, felizmente, só depois do 16 ou 18 anos, conforme o veículo. Até lá, convém aprenderem algumas noções básicas do que é o mundo, da Natureza à Sociedade, passando pelo que foi o trajecto da Humanidade ao longo do Tempo. Ler o Mundo, com palavras ou números, expressar-se… talvez um pouco mais importante ter umas bases disso, antes de avançarmos para a Economia Doméstica.
    Eu não partilho muito daquela teoria da Sally dos Peanuts de que, pensando ela casar com um homem rico, nada lhe interessa saber qual a capital de Marrocos.

    Para além disso, quando damos a um comité o poder para definir o que é “essencial” a miudagem saber, estamos a menos um passo perigoso da definição do pensamento Único, sendo que já demos vários nessa direcção.

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