Et Tu, David?

Embora as minhas críticas se tenham vindo a dirigir quase em exclusivo aos pais que tudo relativizam, sinto-me ligeiramente atingido pela argumentação “sei que vocês fizeram o mesmo em Verões passados”. Já expliquei porquê… desde logo porque não fiz. Em seguida, porque a missão da escola não é a de andar a substituir-se aos pais numa área da educação que, para mim, é antes de mais e acima de tudo, do foro familiar. Se a minha filha fizer algo deste género, será a mim que terá de se justificar em primeiro lugar.

E, já agora, por uma vez, deixemos de descarregar na escola toda e qualquer responsabilidade parental, em especial quando em outras matérias clamam pelo excesso de intervenção dos professores.

Não, David, esse tipo de argumentação para mim não colhe… a de que os erros do passado servem para legitimar, nem que seja de forma indirecta, os erros do presente. Se assim fosse, ainda andaríamos a aplicar o olho por olho (em especial na cobiça da mulher alheia), a cortar a língua aos que ousam criticar as majestades poderosas de cada momento, as mãos aos ladrões e outras coisas assim, quiçá mais dolorosas e importantes para a sobrevivência da espécie.

Estamos a um curto passo de dizer que os jovens ficaram traumatizados para a vida com o sucedido…

A ideia não é desresponsabilizar os jovens mesmo sabendo que o nosso sistema educativo não é muito eficaz nas estratégias que usa para os responsabilizar. O certo é que muitos destes jovens vivem em ambientes muito protegidos, frequentam uma escola que devia certamente encorajar e apoiar muito mais o desenvolvimento da sua responsabilidade. Apesar de tudo isto, acreditou-se que jovens de 16 ou 17 anos soubessem dizer não a fenómenos de grupo que os encorajam a ir demasiado longe. Se a ideia não é desresponsabilizar os jovens também não é desresponsabilizar os adultos que contemporizaram com situações manifestamente propiciadoras dos comportamentos relatados.

“Nós” e “eles”. Nós todos. Eles todos. Vamos pensar um pouco no que é que os inflamados críticos destes jovens teriam feito com 17 anos e com mais 1000 jovens numa praia de Espanha.

Não, David, não se combate uma generalização abusiva com outra generalização abusiva. Se foi uma minoria que fez porcaria, devem ser esses os responsabilizados e não lançado um anátema geral. Assim como, no passado, também terá sido uma minoria a fazer asneiras, pelo que me recuso a assumir “geracionalmente” as culpas alheias e a limitar a minha liberdade de expressão por causa disso.

 

Avestruz

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6 thoughts on “Et Tu, David?

    1. Tu quoque, Paulus?

      Interessante como se pode discutir assuntos tão vastos a partir de questões aparentemente tão pequenas. Mas o certo é que os valores lá estão nas coisas maiores ou menores.
      Desta vez, Paulo, retomas a debatidíssima questão entre o foro familiar e o foro da escola. Eu defendo que a perspetiva da impermeabilização dos foros é coisa bolorenta. Pensar que a responsabilidade da Educação é da família e a Instrução é da escola, não é real e menos ainda útil. Os foros da família e da escola foram há muito sobrepostos e os modelos que são mais pragmáticos é que a família e a escola cooperem (como aliás já se passa…) nas áreas em que podem ser pertinentes para a Educação. Se assim não fosse, teríamos que considerar, entre outras coisas, ineducáveis filhos de famílias desestruturadas (e claro que não são).
      Penso que leste mal o meu argumento apesar de o teres citado. Eu disse que a ideia não é desresponsabilizar os jovens – está lá escrito. Penso que é preciso avaliar e se necessário responsabilizar os jovens (ou as suas famílias) por eventuais desacatos. Isto está escrito e não vale argumentar como se não estivesse. Não desresponsabilizo os jovens nem as suas famílias.
      O que eu digo também é que é de uma enorme imprudência organizar estas viagens como são organizadas. É brincar com o fogo. E se agora as consequências foram mínimas, noutra altura podem ser bem piores. Não desresponsabilizo as famílias e penso mesmo que a escola deveria ter uma palavra de cooperação com os pais e os agentes nesta organização. Não desresponsabilizo os adultos.
      Não Paulo, não creio que o que eventualmente os adultos tenham feito antes desresponsabilize o que os jovens fizeram hoje. É uma interpretação livre e errada do meu texto. O que eu afirmo é que os comentários que irromperam depois deste assunto ser conhecido são produzidos com base numa evidência incerta e rapidamente encontram culpados. Procuro moderar estes inquisidores lembrando-lhes que a sua beatitude presente pode ser fruto de branqueamento das suas experiências passadas (não no teu caso que é honestamente verdadeira). Mas, até tu, Paulo, casto e ponderado, defendes os pecadores…

      1. Olá David, obrigado pelo contraditório.

        Vamos por partes:

        1) Se a questão já foi “debatidíssima” a mim pouco incomoda, se o resultado do debate foi dar desculpas a pais demissionários para tudo pedirem a professores missionários que, agora, provavelmente numa perspectiva de perfil de competências para o século XXI, devem passar a ser organizadores de viagens de finalistas. Percebo que a submissão à lógica da escola a tempo inteiro para servir a servidão laboral dos pais tenha como consequência que agora os professores tenham de se substituir aos pais em tudo e mais alguma coisa, mas discordo. A minha escola só é “transbordante” enquanto constatação e não como aceitação.

        2) Eu não disse que desresponsabilizavas os jovens mas sim que recorres ao truque retórico de, evocando os pecados de outros tempos, “compreender” os actuais numa espécie de generalização com retrospectiva histórica. Isso choca completamente com o facto de isso só funcionar para quem cometeu esses pecados. No meu caso, não foi apenas a razão económica, mas também a de temperamento (não vou falar em “ética” para isto) que me impediu de alinhar em coisas deste tipo. Os “esbardalhamentos” nunca me atraíram, mesmo nos tempos em que isso era cool cumó camandro e o catano.

        3) Estas viagens são organizadas há muito tempo e com todo este tipo de condutas ou piores. Não me lembro de grandes reacções antes, quando se soube de todo o tipo de desmandos. O ai-jesus foi quando alguém mandou a petizada para casa. A mim… parece-me… sei lá…

        4) Penso que alguns comentadores “moderados” têm feito algo que não me parece o mais adequado… que é dizer… “é pá. vocês fizeram o mesmo ou pior, fiquem calados”. Não pode ser. A menos que consideremos que grande parte dos pais, tendo “pecado”, estejam inibidos de transmitir valores aos filhos. Pelo contrário, David, pelo contrário.

        5) O meu argumento não é em primeira instância contra quem fez as asneiras esperadas, mas contra os adultos que se demitem de o ser, na busca de serem eternos peter pans ou, melhor, benjamin buttons. Eu tenho a idade que tenho, o passado que tenho e não me alijo dele, nem me sentiria bem com tanta leveza, até porque “pecados” tenho-os mas serão outros.

        Abraço

  1. Ia-me esquecendo… quanto a “bolores”, tudo depende de onde guardamos e em que condições as coisas.
    Eu tenho um bom desumidificador e uso sempre tintas com um aditivo anti-fúngico, pelo que todos os debates (mesmo os do tempo do patchouly) estão em bom estado de conservação… 🙂 .

  2. Paulo: Se nos quisermos entender (para além de diferenças mais profundas de opinião que quem sabe teremos…) posso extrair algumas frases tuas que subscrevo: a) (…) tenha como consequência que agora os professores tenham de se substituir aos pais em tudo e mais alguma coisa, mas discordo, b) A menos que consideremos que grande parte dos pais, tendo “pecado”, estejam inibidos de transmitir valores aos filhos. Pelo contrário, c) O meu argumento não é em primeira instância contra quem fez as asneiras esperadas, mas contra os adultos que se demitem de o ser, na busca de serem eternos peter pans
    Acho que nos entendemos no que concordamos (que é muito) e no que não concordamos (que parece menos). Ambos detestamos os cotas ressabiados que lançam artilharia sobre os jovens ao primeiro susto, os pais que descarregam tudo na escola, os professores que descarregam tudo nos pais.
    A ideia é de uma receita e não de um ingrediente e talvez cada um de nós cozinhe de forma diferente.
    Um abraço!

    David

    PS. O bolorento é só para chamar a atenção que há debates na educação que dão um passo para a frente e outro para trás. E não há desumidificador que os cure.

    1. Voltando ao “bolorento”… ainda bem que, por vezes, remos a capacidade de voltar atrás e reconhecer que certas soluções foram, em dado momento, erradas e é necessário adaptá-las. O que por vezes para mim é algo serôdio é querer fazer passar o velho por novo e, infelizmente, andamos cercados disso.
      Para um leitor de FC de ontem e hoje (e amanhã) é deprimente ver a incapacidade de algumas pessoas verem o futuro para além daquilo que a sua escassa imaginação consegue. Ou assumimos um “ensino em aberto” verdadeiro ou temos de funcionar com base numa lógica de escola de massas que é a que temos e que devemos humanizar contra os mega-agrupamentos e a lógica da poupança por excel.
      E não vejo isso em muita gente que por aí anda a propalar a necessidade de sucesso porque o insucesso é “caro”.

      Abraço

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