Carta Aberta – Maria do Rosário Cunha

Carta Aberta ao Presidente da República, ao Ministro da Educação, ao Governo, a todos os políticos e a toda a comunicação social.

“A Educação e a Escola”

Vivemos tempos sem igual na história da escola portuguesa e na sociedade em geral. Como professora e como cidadã, hoje acordei com uma necessidade, quase que obrigação, de tentar esclarecer todos os portugueses que, sem conhecimento dos factos, sem estarem no terreno, sem enfrentarem todos os dias as nossas escolas, as nossas salas de aula, os nossos alunos, se acham com toda a legitimidade para opinarem, legislarem, alterarem, atacarem sem dó nem piedade, aqueles que tentam todos os dias e já sem alento, formar os futuros cidadãos deste país. Todos estes que hoje falam nunca devem ter parado para pensar no que seria deles se não tivessem tido professores! Sim, porque antes de serem presidentes, ministros, advogados, jornalistas, médicos, polícias e uma infinidade de profissionais, passaram por uma qualquer escola e tiveram professores.

É com uma tristeza profunda que hoje sei que cada manhã que um professor se levanta para ir dar aulas, vai com o coração nas mãos, por uma necessidade de trabalhar para sobreviver e a pensar que vai ter que enfrentar mais um dia de tormento, de faltas de respeito, de violência psicológica e por vezes até física, o tal dito “bullying”, acumulando um desgaste sem precedentes e ansiando desesperado por poder voltar para casa. Sim, porque o professor, ao contrário do que se tenta fazer crer, não tem um salário milionário, muito pelo contrário. Licenciado, trinta anos de serviço, 1300 euros líquidos, esta é a realidade que ninguém diz, porque é realmente vergonhoso. Dizem os grandes ilustres do nosso país que para haver bons profissionais também é necessário que sejam monetariamente bem pagos. E então os professores? Esses também são profissionais e deveriam ter outras condições de vida. Não é de todo com os vencimentos que recebemos (e por favor deixem de se referir ao vencimento ilíquido, isso é tentar tapar o sol com a peneira) que fazemos uma vida sem fazer contas todos os dias. E ninguém fala no imenso e insustentável desgaste a que estamos sujeitos nesta nossa profissão. Esse também é só visível nas profissões que aos políticos e comunicação social interessa. Até somos funcionários públicos, sem desmérito algum para com todos esses profissionais, apenas não atendemos telefones, nem estamos atrás de um balcão a esclarecer e ajudar um utente de cada vez. Não, a nossa profissão é diferente e por esse motivo tem um desgaste desmedido e incompreensível para quem está do outro lado. Nós cuidamos, ensinamos, esclarecemos, educamos, apoiamos, ouvimos 20 ou trinta crianças, adolescentes e jovens de 90 em 90 minutos. Cada um diferente do outro, cada um filho de seus pais, cada um com as suas preferências, hábitos e feitio…

Defendo a escola pública, defendo a escola para todos e até defendo a escola gratuita. Não defendo os milhares de euros que se gastam com aqueles que não respeitam nada nem ninguém, que agridem colegas, funcionários e professores, a quem apenas se pode marcar falta disciplinar e suspender uns dias e que voltam à escola para fazer exatamente o mesmo, faltam às aulas, acabam por estar retidos por excesso de faltas e continuam na escola, a massacrar todos, a boicotar as aulas a que vão apenas para isso mesmo e a usufruir de todos os direitos de um aluno cumpridor. Mas porque se devem preocupar os encarregados de educação destes alunos? Têm onde os entregar, onde lhes dão de almoçar e a maior parte deles ainda tem direito a subsídios e suplementos alimentares. E, claro que nós todos pagamos. No entanto, isto mudava facilmente. Todos sabem, mas não dizem nem fazem. A escola é para todos sim, mas existem regras e obrigações a cumprir. O aluno não cumpre, é avisado assim como os respectivos encarregados de educação. Se as atitudes e comportamentos persistirem e o aluno ultrapassar o limite de faltas e ficar retido (o que muitas vezes acontece ainda no primeiro período), não tem de permanecer no estabelecimento de ensino, Vai para casa onde devem os encarregados de educação fazer o seu papel. Só assim poderíamos começar a pensar que seria possível uma escola melhor e mais eficaz. Um aluno incumpridor, sem respeito por ninguém, com desprezo pelas normas de uma instituição de educação e que persiste nesta atitude de insolência sem limites, sempre sem nunca serem tomadas medidas sérias, é um mau exemplo para todos os outros. Eu acredito na maçã podre na fruteira.

Se há profissão de desgaste rápido, físico e psicológico, a nossa é a primeira da lista. É incompreensível como ainda se pensa que os professores podem continuar a exercer com dignidade e integridade mental ao fim de trinta anos. Será que nenhum dos nossos políticos e dirigentes sindicais percebeu os sinais?

Há muitos anos num congresso sobre educação, ouvi uma figura conceituada e de renome, afirmar com toda a convicção, que no dia em que se quisesse tornar a escola pública como a referência da educação, seria desta forma. Só assim os professores poderiam realmente cumprir a grande missão de educar e ensinar. Só assim poder-se-ia tornar a escola gratuita, pois o que se gasta com todos esses seria suficiente.

Os professores estão cansados, gastos e sem esperança. A escola está a morrer. Os alunos estão a ficar sem futuro.

Que haja bom senso meus senhores. Deixem vir embora quem já se deu completamente e nada mais tem para dar. Que a nossa reforma não aconteça apenas para sermos internados num qualquer hospital psiquiátrico. Continuando assim é o que nos espera. O aumento da esperança de vida de que hoje tanto se fala não pode nem deve ser o indicador para a reforma dos professores. Estamos esgotados, sem alento e sem estratégias. Que alguém pense em nós.

QUE ALGUÉM SEJA CAPAZ DE SALVAR A ESCOLA PÚBLICA

Maqescrever2

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4 thoughts on “Carta Aberta – Maria do Rosário Cunha

  1. Tenho enviado textos similares a esta carta aos mesmos interlocutores.

    Claro que não espero 1 resposta. O único interlocutor que me responde é o sindicato, pelo que expresso aqui o meu agradecimento ao M Nogueira e a outros colegas da direcção da Fenprof.

    Gosto da carta. Felizmente não acentua muito a ideia do “quem nos defende?” que me irrita solenemente e da imagem de “coitadinhos”.

    Cabeça erguida e com dignidade é a postura correcta.

  2. Há muito que os “representantes legítimos” se entregaram ao Estado enquanto apaziguadores e válvulas de escape das tensões. A classe está narcotizada e rendida. Foi esse o grande mérito do PS de Sócrates em parceria com os sindicatos e as Associações de Pais…😎

  3. Já percebemos há algum tempo que as escolas não encaixam bem no papel de reformatório.
    Aliás, os problemas sociais acumulam-se, agravam-se e não é certamente responsabilidade da escola.

    Não há bicho-careta que, quando confrontado com problemas sociais, não responda logo com uma qualquer parvoíce a respeito da escola e do seu papel em prevenir toda a porcaria que a sociedade se vai entretendo a gerar. Só falta dizerem que a escola devia prevenir a pobreza 🙂

    E enquanto eles peroram sobre a escola do admirável mundo novo que aí vem, vão detriorando as condições de trabalho daqueles que têm como função ensinar.

  4. O completo desconhecimento da realidade dos professores por parte de uma população que se baseia apenas no que é permitido que se divulgue na comunicação social e, depois se acha no direito de opinar e comentar sempre destrutivamente o que não conhece. Nada contra os bons salários, nós é que ganhamos mal. E não sou contratada, tenho trinta anos de serviço, e realmente estou cansada do desprezo que nos devotam. Pena que não se lembrem quem lhes deu a formação necessária para hoje estarem a trabalhar. A nossa é a primeira da lista das profissões mais desgastantes, perigosas e mal pagas. Talvez por isso estejamos em maioria nos doentes que mais recorrem a anti depressivos e indutores de sono. Tenho conhecimento do mercado privado em primeira mão porque foi onde comecei a trabalhar, e garanto que, se soubesse o que sei hoje provavelmente ainda lá estaria. Em segunda mão por familiares e amigos que estão no mercado privado e não pensam em vir para o público de todo. Gostaria de ver como todos os que gostam de falar sem conhecimento de causa, inclusive os nossos político e comentadores iluminados, a enfrentar o que todos os professores enfrentam diariamente. Vão questionar eventualmente a palavra perigosa que escrevi acima? Passo desde já a responder que neste momento somos professores, psicólogos, pais, sociólogos, … e polícias. Mas ao contrário destes últimos não usamos armas, não podemos levantar muito a voz e nem dar o simples “mosquete” ou puxão de orelha. Como tal, estamos à mercê de todos os tipos de agressão física e psicológica. Não foi por acaso que a carta foi enviada em primeira mão para a presidência da república, órgãos de comunicação social e sindicatos. Claro que à comunicação social isto não interessa.
    Esta missiva defende acima de tudo todos os professores.
    Realmente só quem está no terreno percebe isto. Considero urgente que se lute por uma aposentação em Regime Especial. E pergunto onde estão os nossos sindicatos neste assunto mais que pertinente? Neste momento eu não aguento mais. Tenho três filhos e sinto alguns remorsos por ter dado tudo de mim a todos os filhos de tantos pais ao longo destes anos em detrimento muitas vezes dos meus. Tenho 52 anos e estou completamente gasta, sem forças, sem alento e incapaz de enfrentar a escola e os nossos alunos.

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