A Docência Transbordante

Perguntem hoje à generalidade dos professores como se sentem e porquê talvez tenham mais do que “impressões” para fazer uma “fotografia” da motivação par encarar mais uma semana em que muito do tempo usado é para coisas que em muito pouco ou nada contribuem para as aprendizagens dos alunos, mas quase só para fazer o registo de que se fez algo.

Mas façam perguntas abertas e não questionário pré-encaminhados para determinadas conclusões como é costume em muitos “estudos” e “investigações” que se destinam a comprovar o que se pretende. Sim, a indisciplina é problemática e sim, os programas são extensos.

Mas… se a docência propriamente dita, o trabalho directo com os alunos fosse a encarada como a missão primeira dos, educadores e professores, não teria sido submersa por toda uma multiplicidade de tarefas administrativas e burocráticas que vão muito para além da avaliação e dos finais de período, tendo polvilhado o quotidiano diário de todos nós, a começar pel@s director@s oun professores titulares de turma , com toda e mais aquela obrigação a ser feita em modelo padronizado (falta o papel selado), em papel e digital, no prazo estipulado, mesmo que, em tantas situações, se destine a cair em saco roto ou a ter retorno esquecido ou em prazo inutilizado.

É nossa obrigação “reportar”, leia-se enviar uma comunicação, tudo e mais alguma coisa sobre os alunos para as entidades competentes e o professor tornou-se um mediador familiar em agregados desavindos, um especialista em diagnósticos para psicólogos e pedo-psiquiatras e um perito em relatórios para tribunais e comissões diversas. Quase todos nós que temos alunos e turmas não-piloto, sabemos o que isso é e a inutilidade de muitos actos, pois do outro lado o que se recebe são relatórios chapa-três feitos a partir de consultas apressadas e volte daqui a três meses ou arquivamentos mais ou menos sumários a menos que a criança seja encontrada presa pelos tornozelos de uma varanda do 5º andar.

E isto desgasta, mói, desespera e retira sentido e tempo ao que deveria ser (porque é) mais importante no trabalho docente. Porque se percebe que o ónus está sempre deste lado, a responsabilização nunca cai em outro quintal. Nunca aparecem nas primeiras páginas o que corre mal em todos os serviços que rodeiam a situação dos alunos e famílias sinalizad@s das mais diversas formas. A violência, o insucesso, o falhanço social é sempre assacado à escola e aos professores. Nunca a quem, fora dela, tem obrigações que cumpre no seu tempo, à sua maneira, quantas vezes com uma enorme displicência e uma ineficácia atroz. Porque não é possível passar quase meio ano à espera de resposta a necessidades assinaladas como urgentes. porque não é possível acudir na escola a tudo. Ser pedido sempre tudo aos mesmos.

E ainda lhes ser apontado o dedo acusador quando não estão de braços abertos a novas investidas ou de cara feliz a nova revoada de críticas, como as que agora já estão a cair sobre o 1º ciclo. Há uns dias ouvi uma colega dizer que uma visita notável que lhe apareceu na escola comentava que era “uma vergonha dar-se aulas como há dez anos”. Pois, vergonha é capaz de ser outra coisa, mas é melhor ficar por aqui ainda não vá isto ser lido por quem (não) deve.

eu-sou-o-burro

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2 thoughts on “A Docência Transbordante

  1. “Caso o ME, no despacho de Organização do Ano Letivo 2017/2018, não reintegre os intervalos na componente letiva dos docentes do 1º Ciclo do Ensino Básico, a FENPROF entregará um Pré-Aviso de Greve, para o próximo ano letivo, de 30 minutos diários, de forma a que estes professores vejam regularizado o seu horário.” Brincamos às greves? O poder não deu já sinal de cumprir este requisito! Vamos pois esquecer tudo o resto que prejudica o nosso do ciclo em troca deste rebuçado?
    A explicação veio de madrugada. O MEC (ME mas ainda não se habituaram) tem intenção de legislar a OAL de forma a impedir
    a saída às 15.30, menos meia hora na componente letiva aos alunos e professores, mas permanência na escola igual ao ano anterior (contabilizando o intervalo). Esta greve proposta é ilegal, segundo um perito em legislação escolar, mas como é só para criar uma cortina de fumo…

  2. “Nunca a quem, fora dela, tem obrigações que cumpre no seu tempo, à sua maneira, quantas vezes com uma enorme displicência e uma ineficácia atroz.” Fantástico.
    Só para que conste e porque o papel fundamental e mais importante na minha humilde opinião de mãe e professora, continua a ser o dos pais, dou a conhecer que já há infantário com novo horário. Fecha às 21h pois assim é só deitá-los. Já só faltam os dormitórios. E sendo assim pergunto: Qual o papel de ser PAI e MÃE? Se já há cacifos para colocar as crianças (esse é para muitos, demais infelizmente, a função dos estabelecimentos de ensino) qual a essência de trazer ao mundo um filho? Quais os deveres essenciais dos PAIS? Porque afinal não nascem as crianças espontaneamente, sem mais? PAIS??? Ainda alguém sabe o significado?

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