Ainda a Coisa das Flexibilidades (Mas no Concreto)

Isto tem sempre a sua graça, quando se observamos o que é dito e escrito para fundamentar as novas “reformas” (que são sempre as essenciais, indispensáveis e inadiáveis). A do trabalho de projecto inter/transdisciplinar é algo me comove apenas na justa medida. É uma estratégia entre outras, que não excluo, mas com a qual embirro se a decretarem obrigatória.

Mais importante seria que quando fazem mudanças as fizessem de forma articulada e integrada para evitar sobreposições, redundâncias, contradições. Seja com estes, com outros, aqueloutros, tanto se me faz.

Até vou falar de algo que agradará aos de agora, pois é uma crítica à falta de coerência da definição de metas e de programas do governo anterior, no que se relaciona com duas disciplinas que, no 2º ciclo mas não só, poderiam ter programas muito mais intercomunicantes: Português e História e Geografia de Portugal. Fosse feito um trabalho como deve ser, existisse gente no ME e nas associações de professores que soubessem ao que andam e os programas seriam feitos (ou reformulados) com a devida atenção no que se relaciona, por exemplo, à sincronia entre as leituras recomendadas para uma disciplina e os conteúdos de outra. Há muitos exemplos possíveis mas vou concentrar-me no mais óbvio: o da literatura do tempo ou sobre o tempo dos Descobrimentos e os conteúdos da parte da História (e Geografia).

De acordo com as metas e programa de HGP, os conteúdos relativos aos Descobrimentos encontram-se perto do final do 5º ano, em princípio a leccionar (dependendo da extensão dos períodos lectivos) a partir do final do 2º período ou do início do 3º. De acordo com as metas e programa de Português para o Ensino Básico, as leituras recomendadas para o 6º ano (numa lista bastante fechada) incluem um conjunto de obras directamente associados ao imaginário da Expansão e das viagens de Descobrimentos, desde as narrativas do Romanceiro de Almeida Garret (A Bela Infanta, A Nau Catrineta) a As Naus de Verde Pinho de Manuel Alegre, passando por outros textos como Os Piratas de Manuel António Pina ou as versões para jovens do Robinson Crusoe. Da mesma forma, surgem recomendações como o Ali Babá e os Quarenta Ladrões ou os Contos Gregos ou o Ulisses de Maria Alberta Menéres que remetem para a cultura árabe ou para a Antiguidade, que se abordam no 5º ano (a parte dos gregos só de raspão, sendo mais própria do 7º ano).

Em contrapartida, para o 5º ano temos A Vida Mágica da Sementinha (que só mentes tortuosas podem considerar verdadeiramente adequada a leitores de 5º ano ou A Viúva e o Papagaio de Virgínia Woolf, texto interessante mas polvilhado de topónimos e nomes ingleses que a miudagem não sabe pronunciar.

Na ficha técnica de ambos os documentos estão diversas pessoas altamente estimáveis, mas que se percebe trabalharem nos respectivos casulos, sem uma pinga de ideia do que é trabalhar de forma articulada entre as disciplinas, de modo a abordar conteúdos de forma pluridisciplinar. O actual governo nada mudou em tudo isto e parece pronto a acusar tudo e todos que não adiram às suas ideias, limitando-se a acusar os programas de extensos. A verdade é que para alterarmos este espartilho de leituras da parte do Português (passando para final do 5º ano leituras recomendadas para o 6º ano) para melhor se adequar a um trabalho em conjunto com HGP (é mais complicado torcer a História) é preciso todo um manancial de explicações, fundamentações (por parte dos professores ou grupos disciplinares) e autorizações (dos departamentos curriculares, do Conselho Pedagógico) com mais de burocrático do que de pedagógico que a ninguém ainda ocorreu reduzir.

Algo que poderia ser resolvido com conversas simples entre os professores envolvidos deve transformar-se em “projecto” com todas as formalidades associadas. Há quem não tenha entendido ainda que esta “metodologia de projecto” é, em muitos casos, a forma mais burocrática, formalista e formatadora, de conduzir o trabalho quotidiano dos professores, limitando-lhe a autonomia e a verdadeira flexibilidade do trabalho pedagógico quotidiano.

Quais as razões para isto, no meu escasso entendimento de professorzeco para quem os “projectos” são muito mais do que grelhas para registo, observação, verificação e relatório? Desconfiança generalizada da tutela em relação aos professores e obsessão pelo controle e formatação do trabalho nas salas de aula, que devem seguir sempre a cartilha dominante.

Isto não significa que tudo deva ser feito sem supervisão (intervisão?), acompanhamento ou balanço. Apenas que isso é um aparato que se coloca em cima do que é verdadeiramente importante.

Contorcionista

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3 thoughts on “Ainda a Coisa das Flexibilidades (Mas no Concreto)

  1. A minha “inclinação sobejamente conhecida”, leva-me a subscrever o texto todo, nomeadamente os parágrafos relativos às metodologias do trabalho de projecto e a burocratização da coisa.

    Pergunta o colega: “Quais as razões para isto, no meu escasso entendimento de professorzeco para quem os “projectos” são muito mais do que grelhas para registo, observação, verificação e relatório?

    Uma das razões é que toda esta “operacionalização” fica sempre bem na avaliação externa das escolas.

    Por mais que tenha lido sobre o trabalho de projecto, eu, professorazeca também, confesso que continuo com dúvidas. Numa sessão sobre o assunto, tendo relatado uma experiência, foi-me dito “Pois, é bonito, mas isso não é trabalho de projecto! ” e ouvi sobre as origens desta metodologia que teria aparecido após a II guerra mundial com o objectivo de actuar e agir em relação a um problema decorrente das consequências da guerra.

    Tudo o que se afaste deste pressuposto, parece que não se pode chamar trabalho /metodologia de projecto.

    E o assunto acabou ali, perante a minha manifesta ignorância sobre o assunto.

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