Ainda as Aulas Analógicas

Não é uma questão de conservadorismo. Eu uso computadores desde que me foi economicamente possível comprá-los. Sou do tempo do Euro-PC da Schneider (mas não dos ataris ou amstrads só para jogos), coisa absolutamente estranha para muita gente que anda por aí a elogiar as imensas potencialidades do digital nas aulas. Há quase 25 anos participei – não como assistente passivo, mas com um projecto de trabalho em equipa sobre a Carreira da Índia –  n@ CHC 93 – Computers in the History Classroom, pelo que me ofende ligeiramente ver cristãos novos aparecerem a dar-me lições sobre inovação e merdas dessas que eles não saberiam distinguir nem que chocassem de fronha nelas (sim, ando um bocadito agressivo com palermas).

Mas sempre consegui fazer a distinção entre os meios técnicos de aceder e usar informação e a capacidade para fazer a triagem, tratamento, análise e síntese da informação para a sua utilização útil, porque esclarecida e capaz de filtrar o válido e essencial do acessório e inválido.

Infelizmente, quando vejo algumas pessoas muito premiadas ou certificadas pelos poderes como inovadores a defender coisas que apenas trocam os “velhos” mecanismos de acesso à informação por outros mais novos e rápidos, nem sempre me parece que tenham como primeira preocupação um uso crítico da massa de informação disponível. É verdade que os vejo preocupados com a “segurança” na rede, mas isso é no sentido restrito (mesmo se importante) de defender as redes de ataques e os dados pessoais de contaminação ou furto. Mas nem sempre encontro uma preocupação equivalente com o cuidado no uso de informação adequada, completa, fiável, não manipulada.

Infelizmente (de novo), os tempos são de acesso imediato e pletórico à informação, mas esse é apenas um dos caminhos para baralhar as maiorias, dando-lhes a sensação de que os algoritmos dos motores de pesquisa lhes dão informação exacta e rigorosa sobre o que procuram, sendo que isso está muito longe da realidade. A informação abundante é algo que deve ser gerido, não para a amputar, mas para a seleccionar de uma forma que a expurgue das fraudes e manipulações, ideológicas, culturais e/ou políticas.

E isso só pode ser feito pelo algoritmo humano que tenha a capacidade de contornar dois obstáculos ao desenvolvimento de um verdadeiro pensamento crítico informado: o do automatismo mecanicista das tecnologias e a truncagem com origem humana desses automatismos aparentemente neutros.

E a mim não parece que esse elemento humano imprescindível seja muito acarinhado pelos poderes que vão estando, sejam eles quais forem, em especial quando se acham portadores da Verdade primeira e última, da Razão esclarecida fundamental. Pelo contrário, pretendem que a sedução pelas tecnologias do momento se sobreponha à memória e que o imediatismo e não a reflexão seja a regra na acção. Um ignorante rodeado de computadores e zingarelhos diversos é muito mais inútil (e perigoso) do que alguém com uma massa de conhecimento que lhe permita explorar devidamente uma “velha” biblioteca ou um único computador, mesmo que arcaico.

Porque quanto mais dependermos de “máquinas” que consideramos neutras, esquecendo que só fazem aquilo par que são programadas (ainda faltam uns bons passos para uma verdadeira inteligência criativa e crítica artificial, por muito que eu seja fanático da boa fc), mais estaremos vulneráveis a contaminações e fraudes em larga escala que tomaremos pelo valor facial.

Os professores humanos, aqueles que sabem qual o lugar das tecnologias na ordem de prioridades no trabalho em sala de aula, são um problema para todos os que querem impor Verdades absolutas, inquestionáveis e quanta vezes com certificação e legitimação também tida como inquestionável (seja ontem o fmi, seja agora a ocde, porque as diferenças nem chegam a ser os hotéis e restaurantes pagos pelos encomendadores dos estudos).

Computer2

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One thought on “Ainda as Aulas Analógicas

  1. Conhecimento, que deverias ser melhor tratado e acarinhado! Entre a examocracia que quer parar (n)o tempo (receber a informação para a expelir num momento aprazado supostamente transformada em conhecimento) e a modernice analógica que quer acelerá-lo (transportada pela vertigem ingénua de que a acumulação da informação dará em conhecimento), fica a expectativa daqueles que aspiram a algo mais, a algo melhor…

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