Sugestão ao Grande Sindicalismo Docente

É muito complicado ser-se sindicalista quando as agendas partidárias se sobrepõem a todo o resto. Era preciso que a geringonça funcionasse sem grandes ondas, portanto quase tudo se sacrificou durante mais de ano e meio à sua estabilidade, apenas com umas migalhas em troca como se fossem grande coisa (a PACC era um nado-morto, o fim “exame da 4ª classe” a grande bandeira que nada trouxe de melhoria às condições de trabalho dos docentes, pois vieram as provas do 2º ano). Com o tempo, confirmou-se que Tiago Brandão Rodrigues é um ministro sem capacidade de fazer mover mais do que micro-causas, sem “peso” no Conselho de Ministros e só alguma influência indirecta na própria máquina do PS para a Educação, quase totalmente dominada pela dupla Porfírio Silva/João Costa. Dupla essa que apenas em termos retóricos se interessa pelas condições de trabalho e carreira dos docentes, eles que foram sombras desconhecidas durante os tempos de Sócrates/MLR.

Como em tempos de Isabel Alçada (e também de Nuno Crato), o ME é uma (sub)secretaria de Estado do Ministério das Finanças, apenas com autonomia para “inovações” que custem pouco dinheiro e produzam sucesso. Como nesses tempos, as “negociações” na 5 de Outubro de nada valem sem a validação das Finanças, onde a prioridade é salvar bancos, pagar rendas milionárias a empresas privadas e desorçamentar a Educação para as autarquias.

Mas é preciso encenar que se existe, que há “luta” e não total submissão à agenda governamental, que há “causas mobilizadoras”. É verdade, “causas” há e há muito tempo. Não apenas em final de ano lectivo. Muito menos quando a hipótese é marcar uma greve para tempo de exames, quando se sabe existirem “serviços mínimos” (herança de outra escorregadela da luta) e os professores ainda se lembrarem de 2013 e do que se passou com a greve às avaliações, desconvocada a meio em troca de algo que nem se percebeu bem o que foi (até porque uma das reivindicações de agora – a clarificação de alguns aspectos da componente não lectiva – teria sido uma das “conquistas” de então).

Haveria alternativa a esta convocatória de greve? Haver, haveria, mas não seria a mesma coisa para a dupla sertaneja Mário&João, a parelha inoxidável com horror ao exercício da profissão que afirmam representar. Poderia ter sido feita alguma coisa antes, mas seria demasiado cedo para as doutas opiniões, poderá ser feita muita coisa daqui em diante, mas será demasiado tarde para opiniões igualmente esclarecidas. O que me ocorre é que questões como o descongelamento de carreiras (que se anuncia “faseado”, ou seja, provavelmente só mesmo em tempos pré-eleitorais para os professores que são “caros” e também provavelmente para suspender logo a seguir como nos tempos do engenheiro) são questões orçamentais… assim como as regras de aposentação estão muito longe do alcance da jurista Alexandra Leitão que, em tais matérias, depende mais de Vieira da Silva do que do ministro Tiago. Vieira da Silva, um dos alegados (claro) arquitectos na sombra (com Carvalho da Silva, alegadamente, claro) do “entendimento” de Abril de 2008 que nos deixou todos ali a olhar para os bonecos.

Portanto, muito podem esbracejar os sectores anti-sindicais ou mais essencialmente anti-professores de alguma opinião publicada ou imbecilidade partilhada socialmente em redes (do tipo “ai os superiores interesses dos alunos”), que nada passa de essencial por esta greve. Os níveis de decisão estão fora destas reuniões, sem pizzas e a pedir mais sardinhola assada. Há mais coisas decididas em reuniões de escuteiros (alegadamente, claro) do que na 5 de Outubro. E certamente que as questões realmente relevantes para a melhoria das condições laborais dos professores não passam pelos tête-à-tête destes dirigentes secretários com qualquer dos governantes em exercício na Educação e destacados para estas questões. Eles são apenas peões. Por muito que entusiasmem o pessoal que acha que a luta-é-a-luta-e-quem-não-salta-é-laranjinha (ou não, que agora até há laranjas a fazer greve…).

Tudo se joga a outro nível.

Isto são apenas amendoins, lançados à praça pública para entusiasmo dos distraídos, milho lançado às galinhas tontas. Uma greve que, com serviços mínimos, vai dar mais ricochete do que acertar nos pardais.

Portanto… vamos lá ser sérios e, por uma vez, falar verdade? Pode ser? Ou já lhe perderam a prática?

nopasanada

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10 thoughts on “Sugestão ao Grande Sindicalismo Docente

  1. Pode-te parecer estranho… mas como não concordar contigo? A questão é que o que eu quero mesmo é uma greve por tempo indeterminado. Porque já chega de sermos mexilhões.

    1. Exactamente.
      Se é para fazer greve, faça-se greve a sério: por tempo indeterminado.
      Grevezinhas da treta, a 1 dia de aulas ou pseudo-greves com serviços mínimos garantidos por lei, alguma vez deram algum resultado? Alguma vez ganhámos alguma coisa de jeito com greves dessas? Para uma greve por tempo indeterminado contem comigo.

    2. A greve por tempo indeterminado efetivamente teria um impacto visível, apesar de muita gente da população considerar que a greve só é aceitável se não provocar prejuízo. O seu egocentrismo não permite perceber que uma greve sem prejuízo não teria nenhum efeito negocial…
      O problema desse tipo de greve na classe docente, relaciona-se com a estratificação económica que existe na mesma: além de existirem salários diferentes na profissão (consoante o escalão) também existem profs com mais dinheiro que outros decorrente de antecedentes familiares (heranças) ou existirem outros rendimentos para além da salário ou viverem com cônjuges/parceiros que auferem salários avantajados. Deste modo, o grupo dos que vivem exclusivamente do salário e não têm outra fonte de rendimento (pessoal ou familiar) nem estão nos escalões mais altos, seriam os que teriam imensa dificuldade em fazer uma greve prolongada. Mas são estes que mais acintosamente se rebelam contra as injustiças, já que os outros têm plafond para manter o estilo de vida e assim não entrarem em conflitualidade…

  2. Um livro sobre a conexão crime organizado/movimento sindical. Recomenda-se a sua leitura!

    The only book to investigate how the mob has exploited the American labor movement, Mobsters, Unions, and Feds is the most comprehensive study to date of how labor racketeering evolved and how the government has finally resolved to eradicate it.

  3. Essa foi muito boa: pedir a sindicalistas que falem a verdade. Muito boa, mesmo. Talvez, a seguir, peça ao papa que faça a apologia do aborto, não?
    O que os sindicatos querem é, mais uma vez, que os professores sejam palhaços num circo que não é nosso. Não contem comigo para esse peditório.

  4. Manobras de diversão… Dividir para reinar…
    Enfim… as coreografias do costume, agora mais sofisticadas em tempos de geringonça.
    Com papas e bolos se enganam os tolos… O pior é que ainda há muita gente a acreditar na “boa fé” desta gentinha sindical…

  5. Um problema nos sindicatos é a agenda partidária que é inevitável no contexto politico tuga: veja-se o memorando de 2008 no auge da contestação (que a esvaziou e hoje alguns sindicalistas já nem se lembram(!)).
    Há 4 anos foi a ‘machadada final’ no pouco poder reivindicativo que ainda existia ao desmobilizar uma greve que levou a uma cooperação financeira entre docentes; e os ganhos(?!) basicamente foram 2: a clarificação da componente não letiva e manutenção da redução da componente letiva para a DT. Uma montanha que nem sequer pariu um rato…
    Tudo o que não foi ainda revertido (recuperação das reduções de componente letiva, mega-agrupamentos, nº de alunos por turma, redução da idade da aposentação, número horas semanais nas disciplinas, etc.) tem implicações orçamentais que foram desviadas para pagar o descalabro da criminalidade financeira. É o preço a pagar pelas opções politicas…
    Portanto, agora continua-se no mal menor: é melhor estes, que têm uma camisola da cor da esquerda (mesmo que nas grandes opções da governação sejam idênticos aos da direita…) do que ter os outros da camisola com cor do capital…
    Assim, está instalado ‘cada um que se governe’ e ‘quem chegou acima assentou e quem não chegou, temos pena’, e vai-se aguentando, à boa maneira ‘ulriquiana’…
    E convém lembrar para os muitos que nem se lembram, que mesmo que haja algum descongelamento, é só uma atitude pública, porque ele continuará dissimulado nas quotas de vagas que o ME determina para passar do 4º para o 5º e do 6º para o 7º, como está definido no ECD. E portanto, muita gente vai ter um amargo de boca quando se confrontar que não há vaga para subir…

  6. Greve aos exames é uma utopia e greve indeterminada com os salários de professor só ganhando o Euromilhões .A tutela garante que tudo está maravilhoso.Que importa a exaustão e envelhecimento dos docentes e as condições desumanas detrabalho com 10 turmas cerca de 300 alunos com 36 ou mais anos de serviço cargos na componente não letiva ,milhares de mails de trabalho uma avalanche de reuniões,a indisciplina,nalguns casos bouling sistemático aos professores,se aparecem resultados para apaziguar a opinião pública? Como tudo está maravilhoso,tudo nos é exigido e tudo cumprimos sem poder opinar sobre nada neste sistema infernal,devíamos passar com o máximo da classificação todos os alunos de todos os níveis de ensino a nível nacional .Seria um sucesso!que diriam os enc de educação dos bons alunos ?Talvês fosse-mos finalmente ouvidos condignamente.Chega de teatro .

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