Arqueologia do Saber

A obra de Foucault despertou-me a curiosidade natural para quem andava na Faculdade em meados dos anos 80 do século passado. Há pessoal que ficou agarradinho e ainda de lá não saiu, como se aquele aparato conceptual fosse ómega epistemológico. No meu caso, retive algumas das ideias mais interessantes e úteis, não excessivamente prisioneiras do seu tempo (é o caso d’A Arqueologia do Saber) e daquele discurso muito emaranhado de algumas partes, coisa típica de algum pós-modernismo entusiasmado com a sua própria inteligência e habilidade linguística (ali pelo início dos anos 90 já tinha perdido alguns maneirismos que, confesso, ainda usei nas primeiras comunicações que fiz).

Vem isto a propósito do quê?

Do facto de me continuarem a interessar muito os padrões discursivos em Educação, as suas continuidades e rupturas, a permanência, mais ou menos latente, de concepções que voltam à superfície com regularidade, quantas vezes como se fossem coisa nova, mais não sendo do que uma nova manifestação do velho, eventualmente com alguma simplificação por acção do tempo sobre o acessório ou com a cobertura de eventuais novas tintas para parecer coisa nova e não desenterrada.

É por aqui que passa a tal “arqueologia das ideias” de que Foucault fala.

E nós vivemos em Educação um período em que o núcleo restrito de arautos-mores de algumas políticas “reformistas” que se afirmam “inovadoras” não passa de um conjunto de discípulos de coisas que já foram há muito enunciadas,  tentadas e falhadas enquanto projecto “total”(itário).

Entre os anos 80 e 90 do século passado li mais do que seria aconselhável dessa literatura enrolada a que Marçal Grilo alegadamente  terá crismado como “eduquês”. Muita dela passou por uma colecção da Horizonte – a “Biblioteca do Educador” – que tem muitas obras essenciais para compreendermos aqueles tempos, em todos os sentidos.

Ontem, na Feira do Livro, encontrei o fundo da colecção ainda disponível a  2 euros a peça. E lá fui eu em busca de algumas coisas que ainda me faltam e deixo mais abaixo dois exemplos dessa literatura, que há quase 30 anos (uma das obras tem edição original de 1991) já escrevia o que agora se diz, embora com uma fundamentação muito mais elaborada e uma ganga conceptual quase esmagadora. Os “desafios pedagógicos para o século XXI” já lá estavam (mesmo se visto mais pela perspectiva das Ciências). assim como as pretensões de novidade paradigmática ou epistemológica. A contra capa dos dois livros é bem sintomática disso mesmo. Mais recentemente, a autora lançou uma trilogia em alarga estes temas e, no fundo, envolve algumas coisas úteis em centenas de páginas que se tornam tão densas que se perde o essencial de vista.

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Eis um exemplo mais recente deste nível de discurso sobre a refundação epistemológica disto tudo. Que se entenda que eu não sou nada avesso à teorização… gosto muito de novas ideias estimulantes. O que me cansa é o eterno retorno deste tipo de pes(adel)o discursivo, mesmo que simplificado para consumo rápido. E se notarem algumas recomendações ou críticas ao ensino das Ciências nas escolas (por exemplo, durante as avaliações externas) perceberão parte da sua origem, bem como das críticas aos “professores do século XX”.

A racionalidade CTS abre-se à construção de uma cidadania a que chamámos de pós-moderna. Propõe-se refundamentar o saber sobre o mundo, não expulsando a razoabilidade e fazendo ressaltar a importância da contextualidade. Configura mudanças na compreensão do mundo e no modo de exercer e exercitar a cidadania. Opõe-se ao cientismo e à tecnocracia. Situa-se no cruzamento de campos de internalidades e de externalidades da cultura científica. Põe em relevo formas de legitimação de saberes, de valores e de direitos. Rejeita visões que têm a pretensão de conhecer todos os problemas do nosso tempo. Radica numa perspectiva nãoessencialista.  Combate o totalitarismo e a unidade do conhecimento. Abre-se à incerteza, ao risco, ao campo da acção, à diversidade e à diferença. Tende a conviver com o dissenso e com a comunicação dialógica. Põe em relevo processos de construção de novas subjectividades através do encontro com o outro.

Já agora… a “Educação CTS” ou a racionalidade “CTS” significa “Ciência, Tecnologia Sociedade” e lá fora é conhecida como comceptualização STS e é um nicho na área dos estudos multidisciplinares. Não espanta que passem por aqui dibersas referências ao guru BSSantos.

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3 thoughts on “Arqueologia do Saber

  1. Dissecando a coisa:

    “A racionalidade CTS abre-se à construção de uma cidadania a que chamámos de pós-moderna.”
    – Fabuloso, o deslumbramento dos visionários do futuro!

    “Propõe-se refundamentar o saber sobre o mundo, não expulsando a razoabilidade e fazendo ressaltar a importância da contextualidade.”
    – Devem ter redescoberto a ciência e os factos e vão de refundação em refundação… Olhem lá se expulsassem a razoabilidade… (na verdade, já faltou muito mais) e quanto a contextualidades nada melhor que estas para explicar, neste pequeno país, a diversidades das corrupções, dos tráficos de influências, dos tratamentos diferenciados, das derrapagens financeira-económico-sociais e educativas (já agora),…

    “Configura mudanças na compreensão do mundo e no modo de exercer e exercitar a cidadania.”
    – Grande coisa: qualquer avanço na ciência e tecnologia o implica (mais cedo ou mais tarde)… afinal, assim foi evoluindo (e “involuindo”) o mundo… quanto ao exercer da cidadania, ainda bem que vem reforçado com o exercitar… não seria a mesma coisa e sempre aumenta o tamanho do texto… (não fosse a escola – em qualquer dos tempos – e onde é que andariam a exercer e exercitar cidadanias e “profissionalidades”…)

    “Opõe-se ao cientismo e à tecnocracia.” – Só por si, parece-me altamente discutível e, sem mais, poderá incorrer … talvez até, num recuar no conhecimento…

    “Situa-se no cruzamento de campos de internalidades e de externalidades da cultura científica.” – O que será que possa existir que não esteja no cruzamento de qualquer coisa? Não serão as internalidades de um sistema, externalidades de um outro que por sua vez farão parte de um sistema ainda maior? – mas isto de se situar nas encruzilhadas de qualquer coisa dá logo toda uma aparência de muito mais…

    “Põe em relevo formas de legitimação de saberes, de valores e de direitos.”
    – Desde quando isto enquadra uma nova dialéctica?

    “Rejeita visões que têm a pretensão de conhecer todos os problemas do nosso tempo.”
    – Também não faltaria mais nada … convém alguma modéstia em tanta soberba.

    “Radica numa perspectiva não essencialista.” – Blá, blá, blá…

    ” Combate o totalitarismo e a unidade do conhecimento. Abre-se à incerteza, ao risco, ao campo da acção, à diversidade e à diferença. Tende a conviver com o dissenso e com a comunicação dialógica.”
    – Qualquer analfabeto com inteligência mínima diria o mesmo, ainda que com uma retórica menos pomposa!

    “Põe em relevo processos de construção de novas subjectividades através do encontro com o outro.”
    – Nada melhor para concluir a vacuidade da coisa!
    Mas, no mínimo, os encontros religiosos, recreativos, culturais,…, e a psicoterapia de grupo vão ter novas procuras… ai isso é que vão (gente ainda saudável e com o mínimo de razoabilidade, depressa vira insana).
    … cruzando internalidades com externalidades, num dos cruzamentos uma das vias conduzirá ao alargamento dos mercados! Vem daí que, nem assim (dado o grau altamente especulativo da coisa), as agências de rating (desuses dos mercados financeiros das subjectividades) nos tiram do lixo!

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