Uma Educação Humana para a Era Digital

O texto completo deste mês para o Jornal de Letras. Partes são repetidas, o essencial é conhecido, mas de qualquer maneira, fica aqui a versão integral, até porque faz sentido depois do post abaixo.

Uma das tendências mais marcantes dos debates sobre Educação nos últimos tempos tem passado pela interrogação sobre quais devem ser as competências dos alunos, as escolas e as salas de aula para o século XXI, bem como por propostas de reformulação do currículo apresentado como “tradicional” para o adaptar aos novos tempos da era digital. Apesar de enroupadas numa retórica pretensamente “humanista”, muito do que agora se debate se baseia em concepções economicistas e mecanicistas da Educação, que menorizam a dimensão humana em todo o processo de ensino e de aprendizagem, como se o elemento humano fosse quase acessório, seja o dos docentes (são “facilitadores” da aprendizagem ou meros transmissores “dos conhecimentos numa lógica de simplificação” como referiu um participante num recente encontro de professores na Madeira[i]), seja dos alunos (cujo desempenho, enquadrado numa lógica de sucesso obrigatório, quase se torna um factor secundário na sua avaliação).

A transformação da Educação (enquanto função social do Estado estruturante para um futuro concreto e não mítico) e do sistema de ensino em variáveis de fórmulas destinadas a ser medidas e avaliadas pela eficácia financeira e pela demonstração estatística do sucesso, tem feito avançar de forma consistente uma concepção desumanizada da Educação, através de um combate cerrado a características que a definem como uma das áreas em que as especificidades do Humano mais se revelam. Não apenas pelo seu papel de preservação, transmissão e evolução do Conhecimento, mas também pelo facto do acto pedagógico não se poder reduzir a um automatismo em que a máquina lança informação sobre receptores passivos, sem qualquer verdadeira interactividade.

Da mesma forma, o actual ataque ao chamado “currículo tradicional” tem sido feito a partir de trincheiras muito claras, com uma estratégia muito agressiva de desqualificação das “disciplinas tradicionais”, com destaque para as Humanidades, apresentando-as como áreas destinadas à promoção da “memorização” de informação “enciclopédica” (nas palavras de um governante), sem que isso se traduza em “competências para o século XXI”.

Atenas vs Esparta?

A situação que vivemos de combate pelo domínio do currículo do Ensino Básico lembra uma espécie de luta entre o modelo educativo ateniense, baseado na Filosofia e no culto do Espírito (incluindo as Ciências e a Matemática, sem descurar o corpo e as áreas mais técnicas), e o modelo espartano, assente no culto do corpo, da força e do seu utilitarismo guerreiro.

A primeira disciplina a ser trucidada nestas “guerras do currículo” foi a Filosofia, menorizada no Ensino Secundário perante outras áreas que associo mais à promoção de estilos de vida do que a ensinar a pensar e muito menos criativamente. É para mim impensável que um aluno possa entrar num curso superior na área das Ciências Sociais e Humanas sem que a Filosofia faça parte do seu currículo obrigatório para esse acesso. Em boa verdade, a Filosofia, como disciplina estruturante do pensamento, crítico, criativo ou outro, deveria ser considerada obrigatória para qualquer candidato à Universidade, mas parece que isso é cada vez mais tido como arcaico.

O alvo seguinte, ao nível do Ensino Básico, tem tentado centrar-se na História, que se gosta de apresentar como coisa só de memorização e cheia de coisas inúteis para o presente. O cerco tem tido avanços e recuos, mas não tem parado, beneficiando de algumas inimizades de proximidade com posições chave na definição do chamado “desenvolvimento curricular”. Se perguntarem aos governantes se isto é assim, negarão e poderão mesmo dizer que eles são os maiores defensores das Humanidades e até devem ter alguma História do Círculo de Leitores nas estantes para confirmar a sua devoção. Filosofia e História são disciplinas “malditas” para os cultores do Agora, do Futuro, do Homem Novo Saudável e Tecnológico a quem não interessa como aqui chegámos e detestam que alguém lhes relembre que a fatiota agora desempoeirada é velha e, pior, que se tenha a capacidade para o demonstrar sem a wikipedia à mão.

Não me espanta, pois, que nas competências que querem para os alunos do século XXI esteja ausente a dimensão da Memória. Competências que privilegiam o imediatismo utilitário, relegando para o domínio da “inutilidade” as disciplinas e os conhecimentos “do século XIX”, esquecendo-se que, como escreveu Nuccio Ordine, “é nos meandros das actividades consideradas supérfluas que podemos sentir o estímulo para pensar um mundo melhor, para cultivar a utopia de conseguir atenuar, quando não eliminar, as disseminadas injustiças e as penosas desigualdades que pesam (ou deveriam pesar) na nossa consciência” e que é nos períodos de crise que mais precisamos de resistir à tentação do utilitarismo através das actividades que permitem “salvar-nos da asfixia [e] transformar uma vida insípida, uma não-vida, numa vida fluida e dinâmica, orientada pela curiositas em relação ao espírito e às coisas humanas”.[ii]

Nem me espanta que dois docentes de Motricidade Humana, escrevam, numa parceria com a Direcção-Geral da Saúde, que “um cidadão ativo é alguém que adota um estilo de vida saudável, ou seja, uma vida participada, ocupada, com qualidade e bem-estar, e que pugna empenhadamente pela generalização dessas condições a todos os seus concidadãos, implicando uma atitude que se opõe ao sedentarismo, desocupação, degradação e mal-estar”[iii], confundindo o que é a cidadania num Estado democrático, retirando-lhe qualquer das componentes que sempre fizeram parte do que é a essência da vida activa na polis ateniense.

A Desintelectualização da Educação

A “Escola” no seu modelo contemporâneo foi criada para ensinar aos indivíduos o que não era possível aprenderem em casa ou no seu ambiente social mas que lhes era necessário para acederem ao que agora se chamam “competências superiores” e a novas funções relevantes para a sociedade e a economia. A Matemática, as Ciências, a História, a Geografia, a Filosofia, são disciplinas que fazem parte do “núcleo duro” do currículo porque para o ensino é necessário mobilizar um saber que não se encontra sempre na cozinha, na sala, na rua ou nos centros comerciais d’agora ou mesmo nas fábricas e oficinas d’outrora.

A Escola surgiu da necessidade de ensinar aos indivíduos o que os métodos e ambientes tradicionais não conseguiam. Não para ensinar o que lhes agradava ou interessava numa visão imediatista. Em boa verdade, surgiu para ensinar coisas complicadas, difíceis, daí haver quem preferisse não lá colocar os pés e ir lavrar.

Não tenho a certeza de já estarmos numa fase em que esses saberes/conhecimentos se tornaram desnecessários e possam ser substituídos apenas pelo utilitarismo tecnológico, digital e “saudável. Em que o culto da Máquina e do Corpo possa substituir, sem danos, a primazia do Humano e do Espírito na Educação dos futuros cidadãos.

A menos que consideremos que a “mudança de paradigma” seja no sentido do currículo do Ensino Básico se tornar uma espécie de substituição do que deveria ser a socialização num sentido mais amplo do que a escolar. Em que a Escola se substitui à Família e à Sociedade na Educação Integral dos indivíduos. Qualquer conhecedor sofrível de História saberá que essa é a essência de todos os projectos totalitários na Educação, quando se afasta dos saberes ditos “tradicionais” e ocupa parte do seu lugar com as ideologias do momento, disfarçadas de outra coisa.

A menos que a “mudança de paradigma” seja a da substituição do arcaísmo dos saberes “tradicionais” e estruturantes do pensamento pelas meras competências do “saber fazer”, essa forma disfarçada de desintelectualizar a Educação que remete para as teorias de algum pós-modernismo multiculturalista em que “saber fazer” unguentos com ervas da Amazónia é equivalente ao conhecimento requerido para produzir antibióticos.

A menos que a “mudança de paradigma” para o século XXI seja a da desresponsabilização quase total de tudo o que é exterior à Escola em relação à formação dos indivíduos.

A menos que a “mudança de paradigma” para o século XXI queira a formação de indivíduos cujo perfil seja tão difuso e generalista que quando for necessário ir além de “saber fazer” a cadeira só saibam ir em busca do google.

[i] http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/tutela-da-educacao-pede-rigor-na-implementacao-da-flexibilizacao-curricular-182302.

[ii] Nuccio Ordine (2016), A Utilidade do Inútil – Manifesto. Matosinhos: Kalandraka, p. 18.

[iii] https://www.publico.pt/2017/07/09/sociedade/noticia/atividade-fisica-literacia-fisica-cidadania-ativa-1778146.

PG Verde

Autonomia e Flexibilidade, Penso Eu de Que…

O que se segue é o que escrevi em finais de 2013 (publicação em Janeiro de 2014) pata um ensaio da FFMS sobre Educação e Liberdade de Escolha. Como decidi copiar diversas páginas (31-36), dá para perceber que a mim incomoda muito a uniformização e padronização das estruturas curriculares e do modelo de aula, mas que a minha defesa de maior autonomia e liberdade é no sentido original do termo e não no da obrigatoriedade de mudar de um modelo para outro ou de umas grelhas “rígidas” para outras pretensamente “flexíveis”. O que defendo é a possibilidade de coexistirem formas diferentes de encarar o currículo e as práticas pedagógicas, num contexto de liberdade e não de imposição de um modelo único, mesmo que apresentado como “flexível” em 25%, pois o que vejo até agora é a substituição de um espartilho tradicional por outro com mais rendinhas e um nome diferente.

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Quanto a esta última questão, também é monolítico quem obriga a que todos mudem, no mesmo sentido, só não ao mesmo tempo porque houve quem lhe pusesse algum travão. Mas que, no fundo, quer mudar tudo, em um ou dois anos, atropelando e desqualificando quem não adere ao novo mantra.

 

Concordo com o António

O problema é que eles (o poder burocratizante) conseguem muitos apoios nas escolas ao prometer (concretizando ou não) prebendas especialíssimas aos colaboradores no delírio. O segredo está em ir além dos alinhamentos políticos conjunturais e ver algo coerente por sobre as conveniências imediatas. E ter coragem de o assumir.

Os professores têm muita culpa

Umas das minhas desilusões (não é das maiores, é de esperar, é da natureza humana fraquinha) tem sido ver como há uma adesivagem quase descontrolada de diversos sectores, assim lhes prometem um lugar à beira do sol. Há os casos individuais, mas também há os “grupais” que arrastam organizações representativas de pouco mais do que nada a fazer parte de “vagas de fundo” de apoio às medidas em decurso. Ao mesmo tempo que muita imprensa se demitiu completamente de exercer algum controle da veracidade de muito do que se passa.

Tempos sombrios, na sua versão mansa. Regressou o medo de contestar as coisas a nível das escolas ou global, pelas velhas razões (as vinganças de proximidade) e por outras só um pouco mais novas (os anátemas públicos sobre quem não salta com as novidades). E nisso também há muitos professores que gostam de participar, porque não há nada como sentir as costas quentes.

Discordei muitas e muitas vezes do António, pela sua imensa capacidade de dar benefícios da dúvida a uns e criticar quem deu um curto benefício da dúvida a outros. A médio-longo prazo veremos se, em muitos caos, as discordâncias não resultaram mais de algum clubismo e amor à camisola do que de divergências essenciais. Acho que ele discordará bem mais de quem o tem tentado arregimentar para a causa da falsa “autonomia e flexibilidade”.

Fog