A Desconfiança Burrocrática (Elevada a X)

Este ano lectivo tive direito a uma dose de trabalho burrocrático perfeitamente disparatado, pela inconsequência e redundância de muitos dos actos praticados, singelos, duplicados, triplicados, sobrepostos, interpostos, concomitantes, exorbitantes, irrelevantes, desesperantes.

O delírio nascido da mentalidade desconfiada do legislador político, aliado a uma assinalável incompetência técnica e ao desconhecimento do real, conduzem o trabalho docente – a cada novo ano – para um patamar de indizível desperdício de tempo a produzir papelada (digital e convencional) para comprovar que se fez o que estava planeado, que foi com sucesso e se não foi, porquê, porquê e porquê, o quê, quando e como.

Uma boa parte resulta da pressão externa para que tudo seja justificado (eu já lhes digo o que penso do simplex+), outra parte da necessidade, nascida da insegurança perante o eventual imprevisto imponderável, de fazer tudo e mais alguma coisa para defender o lombo da potencial pancada inspectiva.

Algo que não deixa de ser sintomático é que, mesmo quando se contacta com o “exterior”, percebe-se que do outro lado os interlocutores também experimentam o mesmo tempo de terror pela necessidade de fazer tudo de acordo com as regras (quantas vezes, bem tortas) e os protocolos (quase sempre de uma inanidade atroz, tipo artigo 22). E percebe-se que isto se entranhou já nas rotinas, nas formas de estar, nos procedimentos que deveriam ser simplificados e eficazes, mas que continuam a ser vítimas de concepções baseadas em mecanismos de controle e inculcação da obediência que se multiplicam a si mesmos e disseminam por todos os níveis da administração e do quotidiano.

Há momentos em que apetece dizer… “calma, já percebi que vem atrás de nós e nos chateia para que não venham atrás de si e @ chateiem, mas relaxe… mande-os vir que já somos crescidos…”, mas parece que isso só serviria para rebentar uma bolha mantida sob uma pressão imensa, em que o medo se constitui como uma parcela inaceitável.

Quem criou isto, sabemos. Quem mantém o sistema desta forma, conhecemos e, quando não são as mesmas criaturas, são os seus discípulos que afirmam ter muita confiança nos professores e nas escolas, mas apenas se fizerem tal como lhes mandam, em trebuchet 10, a espaço e meio e tabulação padrão, com margens moderadas, com conhecimento de a, b, c e d, aprovação em três instâncias e registo na plataforma electrónica craida para o efeito e colocada em funcionamento na versão beta para se irem descobrindo os bichos.

É absolutamente lamentável que isto continue assim e ainda se adivinhe um agravamento das trelas com a nova Estratégia TIC 2020 para a Educação (em post a aparecer mais acima).

Bigorna

 

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