Trégua?

A Porto Editora e o PS andam numa guerra surda há anos, não é de agora, na área dos conteúdos digitais e da política dos manuais escolares. Fazer a crónica do que dá para perceber, mesmo olhando de fora, seria motivo para um tipo ser empalado a sangue frio e agora isso não me apetece. Fiquemo-nos pela novidade do dia:

Comissão da Igualdade e Porto Editora vão produzir conteúdos em conjunto

O episódio dos livros para meninos e meninas foi apenas um epifenómeno mediático que, ao que parece, serviu para agora se estabelecerem pontes e para deixar quem muito opinou sobre o assunto, de cada lado da “polémica”, a ver navios, sem perceber até que ponto são peões em jogos de gente crescida.

Já agora… se aceitam propostas, poderiam reeditar o volume abaixo (há outro para o 3ºº ciclo) que até é jeitoso e tem muitos subsídios institucionais, o que é sempre muito bom para qualquer editora, mesmo grande. E, claro, poderiam, editar comercialmente outras obras da CIG… tipo aquela colecção que tem as teses premiadas por eles 🙂 .

 

No Pasa Nada!

Daqui a uns dias ou semanas também descobriremos que, o mais certo, é não ter existido qualquer fuga no exame de Português. E as “ilegalidades” no concurso de professores apresentam-se com aspas e depois diz-se que o ano deve começar e que, em boa verdade, tudo foi mais “justo” (sem aspas, estas meti eu).

A estratégia da geringonça é esta… o PS começa por tentar dar a entender que nada se passou, em seguida, que caso se tenha passado não foi importante e, por fim, que não se passou mesmo nada e quem disser o contrário é de “Direita” e ressabiado. As muletas permanecem em silêncio ou “testam” umas coreografias para mais perto das eleições.

DN10Set17

Diário de Notícias, 10 de Setembro de 2017

Se lhe Chamarem “Trabalho Autónomo”…

… parece logo outra coisa. Falo dos arcaicos “trabalhos de/para casa” que tanta celeuma levantam entre os eduardossás deste rectângulo e mais umas mamãs e papás muito preocupados com o quality time que os filhos deixam de ter em casa ao fazer tarefas escolares em vez de jogarem no seu zingarelho electrónico enquanto os papás e mamãs descansam.

Já por diversas vezes disse e escrevi publicamente que não sou grande adepto dos tais “trabalhos”, em especial quando resultam da acumulação da falta de bom senso, e os meus alunos sabem isso. E pratico o que afirmo, sendo mesmo muito frugal no pedido dos ditos.

Mas sei que “trabalho autónomo” é algo que fica muito bem, por exemplo, em certas planificações do trabalho no Ensino Superior bolonhês. Porque desenvolve a “autonomia” e pode ser feito com recurso às TIC e mais coisas do século XXI. E a expressão fica muito bem em papéis relacionados com estratégias de sucesso e outras verdasquices que somos obrigados a produzir ao metro.

Por vezes, temos que usar a semântica em nosso favor.

Minion Sorridente

E Que Dizer do Profiling Social?

Fala-se do racismo e tal nas escolas. Vá lá… também estenderam a coisa à “Academia” onde também existirá. Existe isso e existe há ainda mais tempo uma coisa que agora tem um nome giro em estrangeiro que é social profiling (aplicado neste artigo à gestão de dados sobre clientes), ou seja, nos meios educacionais, a criação de expectativas conforme o meu social de origem dos alunos.

Existe em todos os níveis nde escolaridade, mas eu ouso dizer que é mais grave no Ensino Superior, apesar da imensa presença de gente democrática e muito bem intencionada nas Universidades.

Vou dar um daqueles exemplos que tem menos de anedótico do que a forma de andar ou falar de um@ dad@ alun@.

Há nuns meses participei num debate a nível local sobre a Educação no concelho onde cresci e lecciono. Na assistência estava o antigo “contínuo” do portão da Escola Secundária onde andei. No final, veio falar comigo a filha dele, a meio dos vintes, que tinha curiosamente ido para o curso de História (tal como eu) e que, na sequência do que tinha estado a debater-se (entre outras coisas o erro dos “vocacionais” e a minha crítica às formas encapotadas de segregação e ocultamento do insucesso), me veio contar o que se passara com ela na Faculdade de Lisboa onde se tinha licenciado e mestrado de acordo com o modelo bolonhês.

Curiosamente, o episódio envolvia um professor que eu conheço desde os meus tempos da Faculdade, alguém um par de anos mais velho do que eu, mas que eu sempre tinha considerado uma pessoa ponderada e com quem mantive contacto irregular nos últimos 30 anos. Contou-me ela que numa reunião durante os tempos de mestrado para discutir vias de investigação e ambições para o futuro, quando expressou o seu desejo de seguir a via de investigação foi encarada com um sorriso por esse seu professor que lhe disse, sem especiais rodeios, que pessoas com a “sua origem social”  não tinham grandes hipóteses de seguir essa via e que se deveria limitar a pensar em outras coisas, como “dar aulas” (deduz-se que no Básico, claro).

E ela, a par da humilhação, sentiu desgosto e fúria.

Eu fiquei (quase) abismado com a forma como há pessoas que involuem ou então conseguem, durante grande parte do tempo, esconder a sua imensa carga de preconceitos e só se permitem se o que são quando já se sentem seguros e em posição de poder. E em posição de poder cortar, limitar ou desencorajar as aspirações alheias. Porque depois há sempre a recomendação que não se faz para uma bolsa, o convite para participar numa equipa de investigação que se encaminha para a pessoa com a “origem” certa, em especial se existir uma perspectiva de retribuição a médio, longo prazo.

Não será este tipo de discriminação tão ou mais grave do que o resultante da cor da pele? Será o profiling social menos grave ou estará menos espalhado do que o “racismo”? Não me parece. E quantas vezes onde menos se espera (eu depois conto coisas mais antigas e observadas em primeira mão).

Classes